Capítulo
07
Cena 01 – Restaurante [Interna/Noite]
(Glória olha para Evandro com
expressão de incredulidade, pois mal podia acreditar no que estava saindo da
boca de seu ex-marido).
GLÓRIA: Espera, eu acho que não entendi...
EVANDRO: Entendeu sim. Caso o seu irmão morra, você torna-se a principal herdeira
dos bens dele.
GLÓRIA: E o que você sugere, que eu mate o meu irmão?
EVANDRO: Exatamente! (Conclui)
GLÓRIA: Você só pode está ficando louco. Eu não vou matar o meu irmão, jamais
faria isso. Eu posso ser ambiciosa, aliás eu amo dinheiro, luxo, viagens,
roupas de grife, champanhe, caviar, cartões de crédito... Posso ser o que você
quiser, mas assassina... Isso eu jamais me tornarei. Eu confesso que desejei a
morte dele inúmeras vezes e o dia em que ele deixaria tudo para mim, mas chegar
as vias de fato e sujar minhas mãos, é arriscado demais.
EVANDRO: Você tem dimensão dos milhões que te esperam? Eu disse milhões, vários
zerinhos na sua conta bancária.
GLÓRIA: (Levanta-se) O jantar está encerrado, eu não serei sua cúmplice nessa
loucura. E se fosse você, eu não faria isso. Não se atreva a colocar as mãos no
meu irmão, ou eu te coloco na cadeia.
EVANDRO: (Olha para os lados e percebe que os clientes estão olhando para a mesa
onde estão) Sente-se, pare de fazer escândalo. Estão nos olhando, perdeu a
classe?
GLÓRIA: Antes a classe do que a liberdade. Com licença! (Glória joga o
guardanapo na mesa e vai embora).
EVANDRO: Vai, vai... Logo, logo você estará aqui, na palma da minha mão e
implorando para seguir tudo o que eu falo, sua fracassada! (Fala consigo mesmo
para logo em seguida tomar um gole de uísque).
Cena 02 – Casa de Luiza, Porto de
Pedras [Interna/Manhã]
Música da Cena: Um Pôr do Sol na
Praia – Silva e Ludmilla
(O dia amanhece e as paisagens de São
Paulo dão lugar as praias de Porto de Pedras, surge então a casa de Luiza. Em
seu quarto, Betinha dormia tranquilamente e não percebeu quando Luiza adentrou
devagar).
LUIZA HELENA: (Abre as cortinas bruscamente,
deixando que a luz percorra todo o quarto).
BETINHA: Ai, o que foi agora? (Diz ainda
sonolenta).
LUIZA
HELENA: A sua
mordomia acabou, Roberta Miranda. A partir de hoje você vai trabalhar para
conseguir o seu próprio dinheiro.
BETINHA: Não me chame de “Roberta Miranda”,
você sabe que eu odeio esse nome.
LUIZA
HELENA: É o seu
nome!
BETINHA: Um nome completamente horroroso e
descombinado.
LUIZA
HELENA: Se combina
ou não, eu não quero saber. Tome um banho, coma alguma coisa e prepare-se, você
vai trabalhar.
BETINHA: Ah e eu posso saber em que eu vou
trabalhar, ilustríssima irmã?
LUIZA
HELENA: Daqui a
pouco você vai descobrir. (Conclui e deixa o quarto).
(Ao chegar na sala de casa, Betinha
surpreende-se com a proposta da irmã).
BETINHA: Espera, eu não entendi. Isso é uma
brincadeira? (Diz olhando para a irmã que está parada em sua frente).
LUIZA
HELENA: Eu pareço
estar brincando? (Responde com uma cesta nas mãos).
BETINHA: Mas...
LUIZA
HELENA: (Interrompe
Roberta) Mas nada! Eu me mato de trabalhar de sol a sol, pesco, vendo, faço
artesanato... Nada mais justo você vender os artesanatos na praia. É um
trabalho honesto e com esse rostinho lindo, com certeza as vendas vão dobrar.
(Estende as mãos para que Betinha segure a cesta).
BETINHA: (Percebe que será impossível
convencer a irmã do contrário, recolhe a cesta das mãos da irmã e vai embora).
Cena 03 – Na Boca do Povo, Redação
[Interna/Manhã]
(Demétrio e Ângelo conversam na sala
da presidência).
ÂNGELO: Você a convidou e ela ainda não te
deu a resposta?
DEMÉTRIO: Sinceramente, eu não acho que ela virá. (Diz parado em frente a mesa do
café, enquanto mexia a colher dentro da xícara).
ÂNGELO: Pelo pouco que você me falou dela, ela me parece uma mulher muito séria,
eu não acho que ela aceite vir à São Paulo assim, às suas custas.
DEMÉTRIO: (Com a xícara nas mãos, começa a caminhar de volta para sua mesa) Eu vou
continuar insistindo, eu não vou desistir... (A visão de Demétrio começa a
embaçar).
ÂNGELO: (Estranha a expressão do amigo e percebe que ele ficou pálido) Demétrio?
DEMÉTRIO: (Derruba a xícara no chão).
ÂNGELO: (Levanta-se rapidamente e corre para amparar Demétrio) Você não está
bem. Você está tomando os remédios que o médico te receitou? (Ângelo conduz
Demétrio até a cadeira).
DEMÉTRIO: Para que perder tempo com remédios? Eu vou morrer, não tenho mais saída.
ÂNGELO: Os remédios farão com que você se sinta melhor, você precisa retomar ao
médico, continuar fazendo o devido acompanhamento...
DEMÉTRIO: Não adianta insistir, eu não vou mudar de ideia. Eu já estou melhor e é
isso! (Corta o assunto).
Cena 04 – Chesca’s, Restaurante
[Interna/Manhã]
(Francesca estava fazendo uma lista
de compras que precisava fazer para o restaurante quando Enrico lhe contou o
que havia acontecido com ele).
FRANCESCA: Mas como perseguido? Quem te perseguiu? Temos que ir à
polícia. Bambino, poderiam ter te machucado.
ENRICO: Calma mamma, eu já te disse que não aconteceu nada e eu estou aqui,
vivo. Isso graças a uma...
FRANCECA: Uma... Uma quem? De quem você está falando bambino?
ENRICO: Uma mulher, uma moradora de rua. Foi ela quem me defendeu e enfrentou os
dois caras que estavam me perseguindo.
FRANCESCA: Mas então eu quero conhecer essa donna! Eu quero agradecer a
essa mulher que salvou o meu bambino do perigo. Vou levar comida, cobertor e
tudo que tem direito.
ENRICO: Eu também, mamma. Quero muito reencontrá-la e poder fazer algo por ela.
FRANCESCA: Então eu já vou... (Francesca começa a falar o que irá
fazer, porém Enrico se distrai quando através da janela, percebe movimentação
na rua).
Música da cena: Não Esqueço – Pabllo
Vittar e Niara
ENRICO: (Se aproxima da janela, sem dar atenção ao que sua mãe está falando e
observa o restaurante da frente. Ítalo desce da moto e começa a conversar com o
pai).
Cena 05 – Ruas de São Paulo [Interna/Tarde]
Música da cena: Sampa – Caetano
Veloso
(Pessoas transitam pelas ruas da cidade
e cruzam uma praça que está no caminho. Nessa mesma praça, Lola dança e chama a
atenção por estar embriagada enquanto pede esmola).
LOLA: Uma esmolinha, uma esmolinha... Eu
preciso de uns trocados, quem pode me dar uma esmolinha? (Fala estendendo as
mãos para os outros).
(Algumas pessoas entregam moedas na
mão de Lola e depois seguem seu caminho).
Cena 06 – Casa de Durant [Externa/Tarde]
(Com dois quadros embalados e embaixo
do braço, Durant saiu de casa cautelosamente e em seguida fechou o portão de
sua casa, mas antes que desse mais um passo, percebeu a presença de uma visita
inesperada).
DURANT: Você aqui? Que surpresa! (Diz sem graça).
GLÓRIA: Eu incomodo? Vejo que está de saída... Se quiser, posso voltar outra
hora.
DURANT: Eu vou entregar esses quadros que me encomendaram, é aqui pertinho.
GLÓRIA: Se é perto, eu posso te acompanhar e vamos conversando pelo caminho.
Isso é, se você quiser, é claro...
DURANT: É que você é tão fina, que eu não te imagino andando pela Mooca.
GLÓRIA: (Apoia seu braço no de Durant) Pois você não só verá, como me
acompanhará. Vamos!
DURANT: Vamos...
(Durant e Glória seguem pelas ruas da
Mooca para realizar a entrega ao cliente de Durant).
Cena 07 – Na Boca do Povo, Redação [Interna/Tarde]
Música da cena: I Won’t – Colbie
Caillat
(Imagens aéreas de São Paulo são
apresentadas, eis que surge de fundo o prédio onde fica situada a redação da
revista Na Boca do Povo. No interior da revista, Ângelo segue tentando
convencer Demétrio voltar a seguir o tratamento para amenizar os sintomas da
doença).
DEMÉTRIO: Não, não e não! Eu já disse que não.
Para que continuar me enchendo de esperança? Eu sei que vou morrer, cedo ou
tarde... Eu não vou me entupir de remédios fortíssimos à toa.
ÂNGELO: Pare de agir feito uma criança
mimada, Demétrio. Você sabe exatamente os benefícios que esses medicamentos e o
tratamento farão a você. Faça o que eu digo, volte a tomar seus medicamentos.
(Pelo corredor, Evandro anda lendo
alguns documentos até o momento em que ouve vozes vindo da sala de Demétrio. Em
seguida, ele se certifica que não tem ninguém vendo e se aproxima da porta para
escutar a conversa).
ÂNGELO: Se você continuar se recusando, eu
serei obrigado a trazer um médico até aqui e a quebrar minha promessa, eu vou
contar para toda a sua família. Quem sabe com apoio de seus familiares, você
não cria um pouco de juízo.
DEMÉTRIO: Isso não adiantar muita coisa, pois
não irei mudar de ideia.
ÂNGELO: Eu tenho receio que o seu organismo entre em colapso quando você
resolver voltar a fazer esse tratamento, sabia? Essas medicações são
fortíssimas, extremamente perigosas.
DEMÉTRIO: Eu já disse, com isso você não precisa se preocupar. Eu não pretendo
voltar a fazer o tratamento, eu vou morrer mesmo... Já estou resignado!
(Conclui).
EVANDRO: Você vai morrer sim, só que talvez antes do que você imagina e não pela
doença! (Sorri quando fala consigo mesmo).
Cena 08 – Praia do Patacho, Porto de
Pedras [Externa/Tarde]
(A contra gosto, Betinha caminha pela
praia que está repleta de turistas para tentar vender os artesanatos
confeccionados por Luiza. Mesmo sem demonstrar muito interesse, ela consegue
vender alguns objetos).
TAMARA: Eu ouvi uma conversa de que você estava rodando a Praia do Patacho
todinha vendendo, mas tinha que ver com os meus próprios olhos. O que está
acontecendo aqui? (Diz ao se aproximar de Betinha).
BETINHA: Adivinha! O surto da Luiza Helena, tivemos uma briga horrível. Ela não
entende que eu só quero melhor pra gente, ela insiste em viver nessa miséria,
mesmo quando tem um milionário completamente arreado por ela. Eu não consigo
entender essa tara em viver passando necessidade. Agora ela inventou que eu
tenho que trabalhar para conseguir as minhas coisas, por isso estou aqui,
vendendo os artesanatos dela para os turistas.
TAMARA: Nossa, amiga! A sua irmã é realmente muito complicada. Nunca aceita
conselho, é sempre aquela coisa, ela só sabe olhar pra frente como um burro,
sem perceber ao redor.
BETINHA: Isso está me cansando! Eu preciso dar uma guinada na minha vida e sinto
que isso precisa acontecer o quanto antes.
TAMARA: E o que você tem em mente?
BETINHA: Eu vou te contar... (Betinha e Tamara seguem caminhando pela praia, sem
perceberem que estão sendo observadas).
ROBEVAL: Isso é que é mulher... Esse piteuzinho ainda vai cair na minha rede, ah
se vai! (Pensa em voz alta se referindo a Betinha).
Cena 09 – Umbu-Cajá, Restaurante
Nordestino [Interna/Tarde]
(Mesmo com o restaurante movimentado,
Zeca fez questão de atender Durant e Glória).
ZECA: (Serve dois sucos na mesa onde os
dois estão sentados) Vão querer mais alguma coisa?
GLÓRIA: Por enquanto não, obrigada!
DURANT: Qualquer coisa a gente te chama,
obrigado.
ZECA: Com licença! (Se retira).
GLÓRIA: Eu estava precisando mesmo
espairecer, ver gente, um rosto querido...
DURANT: Aconteceu alguma coisa? Você quer
conversar? É com a Fernanda?
GLÓRIA: Não, não... Meus filhos estão bem!
DURANT: Então o que houve?
GLÓRIA: Digamos que eu estou indecisa. Não
sei se faço o certo ou o errado! Eu não sei se sigo os conselhos de alguém e
resolvo todos os meus problemas ou se continuo como estou e deixo a vida seguir
o seu percurso. Que lado você escolheria?
DURANT: Eu escolheria o lado que me deixaria
em paz comigo mesmo, com a minha consciência tranquila. É meio clichê pedir
para seguir a sua intuição?
GLÓRIA: Em você nada é clichê, acredite!
(Fala olhando nos olhos de Durant).
DURANT: Bebe seu suco. (Tenta desviar das
investidas de Glória).
Cena 10 – Ruas de São Paulo [Interna/Tarde]
Música da Cena: A Boba Fui Eu –
Ludmilla e Jão
(Rafael e Fernanda caminhavam juntos
pelo Parque do Ibirapuera enquanto conversavam).
RAFAEL: (Entrega um sorvete a Fernanda e
fica com outro) Toma!
FERNANDA: Obrigada amor! Eu estava mesmo
precisando arejar as ideias, aquela revista está uma loucura, ultimamente eu
tenho passado mais tempo lá do que em minha própria asa.
RAFAEL: Eu já percebi que você e a sua mãe
não se dão bem, você não gosta muito de falar sobre isso e eu respeito, mas e o
seu pai?
FERNANDA: O meu pai é um homem egoísta que infelizmente só pensa em si próprio. Eu
era muito pequena, mas ainda lembro perfeitamente o dia quando percebi que ele
havia fugido roubando uma grande quantia em dinheiro do meu tio e raspando os
bens da minha mãe. Ela ficou completamente transtornada, perdeu tudo o que os
meus avós haviam deixado para ela e isso fez com que ela e meu tio rompessem de
vez.
RAFAEL: E o seu pai voltou assim, do nada?
Ele não pode ser preso?
FERNANDA: É exatamente isso que eu preciso descobrir. Existem peças nesse
quebra-cabeça que não se encaixam. Meu pai tem algo trunfo na manga e eu
pretendo descobrir o que é. Quando isso acontecer, pode ter certeza que eu
farei justiça!
RAFAEL: Eu te admiro muito, sabia? Apesar dos apesares, da sua mãe, do seu
irmão, do seu pai e toda essa história, você se manteve firme, decidida e de um
caráter sem igual.
FERNANDA: Eu que sou a mulher mais feliz do mundo por ter te encontrado. Você é o
meu porto seguro, me dá forças para seguir em frente. Eu te amo e não quero me
separar de você nunca. Nada pode destruir a nossa história, nada! (Fernanda
abraça e beija Rafael).
Cena 11 – Apartamento de Evandro,
Heliopólis [Interna/Noite]
Música da cena: Me Leva – Alice
Caymmi
(A noite chega e a cidade de São
Paulo segue iluminada pelas luzes dos grandes prédios. Evandro se aproxima da
porta do apartamento onde mora quando retira as chaves do bolso de sua calça.
Com o ambiente ainda escuro, ele abre a porta e adentra no recinto por saber
onde exatamente está cada coisa).
EVANDRO: (Acende a luz da sala e ao olhar
para o sofá, surpreende-se com quem estava nele sentado à espreita) Você? O que
faz aqui? Como conseguiu entrar?
THIERRY: É assim que vai dizer que sentiu
saudade do seu filho querido, papai?
EVANDRO: Como foi que você entrou aqui,
moleque?
THIERRY: Bem que dizem que um dia o aluno
supera o professor, não é? Digamos que eu tenho os meus truques e não pretendo
revelar. Em off fica bem mais saboroso!
EVANDRO: Você está ficando cada vez mais
parecido comigo. (Diz ao observar o jeito do filho).
THIERRY: (Fica de pé) Não vai me dar um
abraço?
EVANDRO: Claro, vou sim... (Abraça Thierry).
THIERRY: Então coroa, por onde você andou
todos esses anos? Torrou toda a nossa grana, não foi?
EVANDRO: (Vai até a geladeira e pega duas latas de cerveja. Com uma das mãos
segura uma lata e a outra joga para que Thierry beba com ele) Eu andei por
vários lugares. Quanto ao dinheiro, por hora eu não tenho, mas em breve eu vou
conseguir bastante, como eu nunca tive.
THIERRY: Eu suponho que a fonte seja o meu querido tio, o venenoso, o milionário,
o rico empresário Demétrio Martins de Andrade. Te digo mais, você pode contar
comigo, eu te ajudo no que for preciso.
EVANDRO: Ótimo, você puxou a mim! Eu vou te contar, hein? Você só tem a ganhar,
pode escrever. (Evandro e Thierry brindam).
Cena 12 – Casa de Luiza, Porto de
Pedras [Interna/Noite]
(Do lado de fora da casa, Tamara
andava de um lado para o outro completamente aflita, ela tinha medo que Luiza
chegasse).
TAMARA: Cadê essa menina que não sai daí de
dentro? (Fala sozinha).
BETINHA: (Sai de casa com uma mochila nas
costas) Pronto, não precisa ficar nervosa Tamara!
TAMARA: Então, eu estava aqui pensando...
Será que é mesmo uma boa ideia você fazer essa loucura?
BETINHA: Loucura? Eu vou fazer a minha irmã
aprender que o mundo não gira em torno do que ela decide. Eu vou dar um grande
susto nela, imagina a cara que ela vai fazer quando descobrir que eu fugi de
casa. Vambora, vambora!
(Betinha e Tamara seguem apressadas e
desaparecem no final da rua).
A imagem foca nas duas amigas andando
pelas ruas de Porto de Pedras. A cena congela e vira uma capa de revista.
Obrigado pelo seu comentário!