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Débora - Capítulo 01

 



Escuridão.
Sons distantes... São vozes. Muitas vozes bradando incansavelmente, mas o que dizem é incompreensível.
FADE IN:

CENA 1: EXT. CAMPO – MORRO – DIA
Os olhos castanho-claros estão bem abertos, e parecem fazer a função dos ouvidos de absorver o que dizem as vozes. Agora conseguimos compreender o que dizem, e trata-se de uma única palavra.
MULTIDÃO (O.S.)
Débora! Débora! Débora! Débora! Débora!
Ali, ao pé do pequeno morro relvado, está apenas DÉBORA (38 anos) e JAZIEL (40 anos). Ela, apreensiva, parece não acreditar que a multidão invisível repete incessantemente seu nome, como se a invocassem. Ele, sorrindo, a encoraja a subir até o topo do morro.
JAZIEL
O que você está esperando, Débora?! Suba! Vá, minha amiga! Todo o povo de Israel está do outro lado te esperando!
DÉBORA
(nervosa) Mas...
JAZIEL
Débora! Não vê que a clamam como juíza?! Vá, mostre-se a todos e tome o cargo que é teu por direito!
DÉBORA
Não sei se consigo!
JAZIEL
Débora, escute... Você tem o dom da profecia, Deus falou com você, foi escolhida por Deus! Como ainda pode ter dúvidas?!
Débora, nervosa, encara o morro à sua frente e respira fundo. Toma coragem... e finalmente começa a subi-lo. Enquanto isso, ouvimos sua narração.
DÉBORA (NAR.)
Ao longo da história do meu povo, grandes homens estiveram à nossa frente. Homens valentes, homens de Deus... Homens.
O som da multidão aumenta conforme Débora se aproxima do topo do morro.
DÉBORA (NAR.)
Por um instante, ouvindo o meu nome repetido incessantemente na boca do povo...
A silhueta de Débora finalmente surge no alto do morro e a multidão vibra! Recebem-na com palmas e gritos de aclamação!
DÉBORA (NAR.)
...eu quase me esqueço de tudo pelo que passei para chegar até aqui. Quase, apenas... Pois jamais poderia esquecer.
ISRAEL, séc. XIII a.C.
Os olhos de Débora, contemplando os milhares de hebreus homens, mulheres e crianças espalhados pela planície, imediatamente marejam, transbordam e riscam o seu rosto com lágrimas cristalinas. Nas fileiras mais próximas, rostos conhecidos lhe sorriem orgulhosos. Involuntariamente seu sorriso de retribuição se alarga para os amigos e parentes.
DÉBORA (NAR.)
Obediente. Reservada. Quieta. São as qualidades que uma boa mulher deve ter. São as qualidades que eu não tive... para me levantar como líder de minha nação... e mãe do meu povo.
Débora, emocionada, continua a encarar com carinho os milhares de rostos exultantes.
DÉBORA (NAR.)
Esse é o meu destino. É a vontade de Deus.
MULTIDÃO
Débora! Débora! Débora!
DÉBORA (NAR.)
Porém, nem sempre foi assim.
Tela escura imediatamente.
DÉBORA (NAR.)
Nem o povo... nem eu.


Débora
CAPÍTULO 01

uma novela de
FELIPE LIMA BORGES

escrita por
FELIPE LIMA BORGES

baseada nos capítulos 3 a 5 do livro de Juízes

FADE IN:

CENA 2: EXT. CAMPO – DIA
Um homem caminha por um campo puxando e guiando, por meio de uma corda, um jumentinho sobre o qual está sentada sua esposa grávida. Ela, TAMAR (22 anos), com a mão na barriga, parece aflita. ELIAN (25 anos) sabe do estado da mulher, e por isso tenta ir rápido.
ELIAN
(preocupado) Já estamos chegando em casa, meu amor...
TAMAR
(sentindo dores) Elian... Eu não sei... se vou aguentar!...
Elian para e olha para ela, que se aflige e cai do jumento. Ele corre e a segura pelos braços, impedindo que ela desabe no chão.
ELIAN
Tamar! Tamar, meu amor! Você está bem?!
TAMAR
(rosto suado e olhos lacrimejando) Elian... Está nascendo, Elian...
O semblante de Elian é um misto de euforia e desespero... Por alguns instantes ele congela com os olhos fixos nos dela.
TAMAR
Elian...
ELIAN
(para si) Nascendo... Nascendo, nascendo... Vai nascer... (para ela) Calma, Tamar, calma! Eu vou... Eu vou chamar as parteiras e... meus irmãos também já devem ter chegado... Espere aqui, fique bem quietinha que vou correndo até Betel chamar a todos! Tudo bem?!
TAMAR
(ainda com dificuldades) Tudo bem...
ELIAN
Ali... Melhor. Embaixo de uma das palmeiras... Vou coloca-la na sombra. Venha, segure em mim... Vamos...
Com dificuldade, Elian apoia Tamar em seus braços e a ajuda a caminhar até o pé da palmeira mais alta e bonita daquele local. Ali, senta-a escorada no caule da árvore.
ELIAN
Espere por mim. Eu já volto!
Ainda com dores, Tamar faz que sim.
ELIAN
Não se preocupe, meu amor! É dia de alegria! (sorrindo) Nosso filho... vai nascer!
Tamar força um sorriso amargo.
ELIAN
Já volto!
Elian se levanta e sai correndo.

CENA 3: EXT. CAMPO – PALMEIRA – DIA – MAIS TARDE
Um grupo de parteiras e ajudadoras cercam Tamar que, deitada com a cabeça apoiada na palmeira, se esforça para parir o bebê. Mantendo certa distância, há um grupo de homens que aguardam apreensivos. Entre eles está Elian, também aflito com os gritos de esforço de sua esposa Tamar.
HOMEM 1
(preocupado) Se não for agora, lá se vai a dignidade de nossa família, Elian.
DÉBORA (NAR.)
Estes são os irmãos e primos de meu pai Elian. Todos eles tiveram filhas, meninas. Nem um único varão. Meu pai era a última chance de haver um primogênito homem na família e salvá-la da desonra. Todos confiavam que ele alcançaria tal feito... inclusive ele próprio.
De repente, o choro de um bebê. Elian, de costa para as mulheres, arregala os olhos e encara o nada.
HOMENS
Nasceu!!! Nasceu!!! NASCEU!!!
Todos os homens pulam de alegria e abraçam Elian, que logo se desvencilha deles, corre até as mulheres e para diante de Tamar (cansada e sorrindo suavemente) segurando a criança. Mas, pouco a pouco, o semblante de Elian começa a cair e a amargura da decepção toma seu olhar. Tamar olha para o marido.
TAMAR
É uma menina...
As parteiras sorriem e Elian expira. Inconformado, balança a cabeça negativamente.
TAMAR
Aproxime-se, meu marido... Veja a nossa filha...
Elian se afasta. Olha para a filha com desprezo e certa raiva.
PARTEIRA 1
Ela é linda!
PARTEIRA 2
(para Elian) Não vai pegar sua filha no colo?
Triste e preocupada, Tamar encara Elian, que continua se afastando e mantendo seu olhar negativo.
ELIAN
Não.
Imediatamente ele vira as costas e vai embora para longe, deixando todos ali confusos e Tamar triste...



CENA 4: INT. CASA DE TAMAR – QUARTO – NOITE
Na grande cidade hebreia chamada Betel, em uma das casas, Tamar, sobre a cama, brinca com a filha recém-nascida enquanto Elian, afastado, de pé e de costa para elas, toma vinho encarando o nada com revolta. Ela olha para o marido.
TAMAR
Precisamos escolher um nome para ela, Elian...
Elian engole o vinho sem apreciar o sabor.
ELIAN
Eu tinha vários. Todos nomes de menino.
Tamar percebe o jeito insistente de Elian.
TAMAR
É sua filha.
ELIAN
(virando para ela) Eu não a pedi! Eu não queria essa menina!
Os olhos de Tamar começam a lacrimejar.
TAMAR
Elian, não fale assim...
ELIAN
Essa criança é uma indesejada. Que decepção! Que desgosto passei na frente da minha família! Você não imagina a sensação, Tamar, de ter que olhar nos olhos deles sabendo que fracassou, que sua última esperança afundou na lama!
Tamar, chorando, abraça a bebê.
TAMAR
Pare de falar assim dela!
Elian encara o nada.
ELIAN
Minha família não tem futuro. Vamos ser apagados da memória. Não valemos nada.
Tamar então pega a filha no colo e a olha com carinho.
TAMAR
(chorosa) Eu lhe darei um nome... Débora. Como as abelhas: doce... e valente.
Encarando a filha no colo, Tamar sorri em meio às lágrimas. Elian, ainda afastado, balança a cabeça em desaprovação.

CENA 5: INT. CASA DE TAMAR – COZINHA – DIA
DIAS DEPOIS...
Trata-se de um único cômodo, o qual chamam de cozinha. Além dos móveis, há ali um fogão de pedra emendado a um forno de barro e a um balcão onde a comida é preparada. No centro, a mesa onde são feitas as refeições e onde as visitas são recebidas.
Elian desce a escada silenciosamente. Percebe que Tamar cozinha cantarolando enquanto a bebê, deitada em um amontoado de panos na mesa, observa a mãe.
DÉBORA (NAR.)
Naquele tempo, se o filho primogênito morresse, o próximo a nascer adquiriria todos os direitos de progenitura. Baseado nisso, meu pai tinha um plano para recuperar a honra de sua família. Ele não aceitava ter perdido a última chance, queria mais uma.
Sem fazer se perceber, Elian se aproxima da filha e olha para Tamar, que continua distraída com as tarefas de casa. Então, bem devagar, ele leva as mãos aos panos e pega Débora no colo, que se mantém quietinha. Ainda sem a esposa ver, caminha para a porta, abre-a e sai levando a filha. Tamar, alheia a toda a movimentação, continua a trabalhar e a cantarolar.

CENA 6: EXT. BETEL – ARREDORES – DIA
A alguns metros da muralha da cidade, Elian caminha levando Débora em seus braços. Nota que, ali próximo, uma caravana de comerciantes se aproxima com suas carroças, jumentos e ovelhas. Então ele para e os observa passar como quem não quer nada. Um ou outro oferece algo, mas ele dispensa com um aceno.
Quando eles passam e se afastam, Elian começa a andar na direção deles. Apressa os passos, mas de forma silenciosa.
Finalmente alcança a última carroça do grupo, cheia de tecidos novos. Confere se não estão olhando para trás e, de forma rápida e eficiente, coloca a filha dentro da carroça, em meio aos panos macios. Feito isso, sai correndo para o lado. Os comerciantes não percebem nada e Débora, chupando os próprios dedinhos, vai sendo levada pela carroça que se distancia cada vez mais de Betel.

CENA 7: INT. CASA DE TAMAR – COZINHA – DIA
Terminado o serviço, Tamar limpa as mãos em um pano.
TAMAR
Pronto!
Então ela vira para pegar a filha, mas paralisa ao ver que não há nada ali na mesa além dos panos!
TAMAR
Débora?! Débora! Débora!!!
Tamar revira os panos, olha nos arredores, embaixo e em cima de tudo!
TAMAR
Débora, minha filha!!! Débora, cadê você???!!! DÉBORA!!!
Nesse instante a porta se abre e Elian entra calmamente.
TAMAR
Elian!!! Elian, cadê a Débora???!!!
ELIAN
O que aconteceu, Tamar?
TAMAR
Débora!!! Ela sumiu!!! Eu a coloquei ali, estava trabalhando, ela estava logo atrás de mim!... Eu... Eu não sei, não havia como ela sumir!... Ai, meu Deus!...
Elian se aproxima.
ELIAN
Calma, Tamar, calma. Respire! Respire e me explique direito o que aconteceu.
Tamar então olha diferente para o marido. Desconfia de sua calmaria...
TAMAR
(chorosa e desconfiada) Eu posso não ter explicado direito, mas ficou claro que Débora sumiu.
Elian engole em seco.
ELIAN
Eu sei, mas... Preciso entender o que aconteceu, precisamos ter clareza para procurarmos, para tomarmos uma providência...
Tamar continua a encarar Elian.
ELIAN
O quê, Tamar?
TAMAR
O que você fez com ela, Elian?
ELIAN
Quê?! (pequena pausa) Mas do que você es--
TAMAR
(interrompendo) O QUE VOCÊ FEZ COM A MINHA FILHA???!!!!
ELIAN
Calma, mulher, se acalma!
TAMAR
(batendo no peito do marido) CADÊ A DÉBORA???!!! ME FALA ONDE VOCÊ A COLOCOU!!! CADÊ ELA???!!! CADÊ ELA, ELIAN???!!!
ELIAN
(tentando contê-la) Eu não sei! Eu não sei do que está falando!
TAMAR
FALA!!! FALA, ELIAN!!! EU SEI QUE PEGOU ELA!!! SÓ PODE SER VOCÊ!!! CADÊ ELA???!!!
ELIAN
Na caravana!
Tamar, descabelada e com o rosto vermelho e repleto de lágrimas, para de bater nele e o encara.
TAMAR
Quê?! Que caravana?!
Elian respira fundo.
ELIAN
Uma caravana de comerciantes que passava pela cidade.
TAMAR
Onde estão???!!! Para onde foram???!!! Fala!!!
ELIAN
Leste.
Tamar mantém nele um instante de olhar de ódio imediatamente antes de sair em disparada para fora de casa. Elian limpa o rosto absorvendo tudo o que aconteceu ali.

CENA 8: EXT. CAMPO – DIA
A caravana de comerciantes continua caminhando tranquilamente pelo campo. Lá atrás, Tamar aparece de entre as árvores e se aproxima correndo.
TAMAR
Parem!!! Parem!!! Esperem!!!
Os comerciantes a ouvem, param e olham para trás.
TAMAR
Parem!!!
Devido à velocidade, Tamar para ao lado da antepenúltima carroça e começa a revirar tudo. Os comerciantes estranham e se aproximam rapidamente para contê-la.
COMERCIANTE
Ei, ei! Mulher! Você não pode fazer isso!
COMERCIANTE 2
Quem é essa louca?!
TAMAR
Minha filha! Minha filha está aqui! Cadê minha filha?! Soltem-me, preciso encontrá-la!
COMERCIANTE 2
Filha?!
COMERCIANTE
Deve realmente estar louca.
TAMAR
Não estou louca! Eu--
Ela é interrompida por um barulho, um choro... o choro de Débora. Num misto de alívio e surpresa, Tamar vira para as últimas carroças e as revira, rastreando o choro. Até que chega à última e finalmente encontra a bebê chorando em meio aos panos.
TAMAR
Débora!!! Minha filha!!! Graças a Deus!...
Chorando, Tamar pega a filha e a aperta em seus braços. Os comerciantes estranham aquilo.
COMERCIANTE
Como aquela bebê foi parar ali?
COMERCIANTE 2
Eu não faço a menor ideia...
Confusos, os outros homens também fazem que não.
TAMAR
Minha filha amada... Meu amor... Mamãe está aqui, minha filha...
Alheia a eles, Tamar vira as costas e, enquanto fala com Débora, toma o caminho de volta.

CENA 9: INT. CASA DE TAMAR – COZINHA – DIA
Sentada à mesa, Tamar acaricia a filha que acaba de dormir em meio aos panos em que estava antes de Elian pegá-la. Ele, meio receoso, se aproxima.
ELIAN
Como ela está?...
Tamar olha para ele.
TAMAR
Por que quer saber? (pequena pausa) Você é um monstro.
ELIAN
Eu só pensei na honra e reputação de minha família--
TAMAR
(interrompendo) Para o inferno sua família!
Elian arregala os olhos.
TAMAR
Como ousa fazer isso comigo?! Com sua própria filha!
Elian mexe os lábios, mas não encontra palavras. Tamar então se levanta e vai até a porta.
TAMAR
Fora daqui.
ELIAN
Tamar--
TAMAR
(interrompendo) Fora daqui, Elian! Nunca mais vou viver sob o mesmo teto que você!
Elian faz que não na esperança de que ela desista da ideia.
TAMAR
Você é muito, mas muito pior do que eu pensava. Jamais poderia imaginar que faria algo assim, Elian.
ELIAN
Tamar, por favor--
TAMAR
(interrompendo) Você não tem coração! É como... É como uma besta do campo, sem compaixão alguma, sem afeto! Eu não quero mais ver você na minha vida!
Tamar abre a porta.
TAMAR
Fora, Elian! Agora!!! Suma dessa casa! Se possível, suma dessa cidade!
ELIAN
Eu sou o homem da casa! Não pode me expulsar assim!
TAMAR
Então procure os anciães! Fale tudo para eles! Mas não se esqueça de contar o ato vil, baixo e covarde que cometeu, letra por letra! Aqui você não entra mais!
ELIAN
Meu odre.
Tamar vai até um móvel, pega um odre e, ao invés de entregar ao marido, joga lá para fora de casa.
TAMAR
Esqueça que um dia teve esposa e filha.
Elian olha para Débora dormindo, mas logo Tamar o empurra para fora. Ele ainda vira para ver a filha, porém Tamar fecha a porta com força. Mentalmente exausta, ela se deixa escorar na porta e cair sentada.
Então se levanta, vai até a filha, senta-se ao lado e a acaricia devagarinho.
FADE OUT:
FADE IN:

CENA 10: EXT. ISRAEL – CAMPOS E DESERTOS – DIA
Vemos as paisagens montanhosas dos desertos e campos (esses cheios de palmeiras) de Israel.
DÉBORA (NAR.)
Naquele tempo, o meu povo vivia espalhado pela terra de Israel e cercado por diversos povos inimigos que tentavam, a todo custo, se apossar de nossos campos extremamente férteis. Como o nosso exército acabou após a conquista de grande parte de Canaã há muitos anos (rebatizando essa área de Israel), algumas nações conseguiram nos dominar com relativa facilidade. Foi o caso dos filisteus, povo que viu em nós, hebreus, a chance de aumentar suas riquezas. E, por meio da força, cobravam abusivos impostos. O motivo? Nenhum, é claro. E para manter o povo pagando e desmotivar qualquer intenção de rebelião, não raramente atacavam um povoado, destruindo tudo o que viam pela frente e até mesmo promovendo chacinas. Era exatamente essa a situação na época em que eu tinha 12 anos de idade. Porém, nesse tempo, minha maior preocupação era se safar das peraltices que aprontava com o meu melhor amigo Jaziel, uma espécie de irmão mais velho, só que sem o mesmo sangue.

CENA 11: EXT. BETEL – RUAS – DIA
Nas movimentadas ruas de Betel, a população se divide entre continuar seus trajetos à pé e parar para ver as ofertas dos diversos vendedores atrás de suas chamativas barracas.
Carregando em seus rostos a clara intenção de aprontar alguma, dois adolescentes param na esquina de uma rua e observam um vendedor de frutas na rua ao lado, um homem baixinho e careca. Ela é DÉBORA (12 anos) e ele é JAZIEL (14 anos).
JAZIEL
(observando o vendedor) Teodoro... Tenho certeza que esse sujeito fornece seus produtos frescos para os filisteus a fim de poupar sua barraca em caso de ataque. Velho safado e traidor.
DÉBORA
Você tem certeza disso, Jaziel?
JAZIEL
É claro que não. Mas quando foi que nós dois já tivemos certeza de algo, hum?
Débora faz que sim.
JAZIEL
Está pronta?
DÉBORA
Sim.
Jaziel sorri e caminha até a barraca de Teodoro.
TEODORO
O que quer, garoto?
JAZIEL
Ora, o que todos querem quando vêm até aqui. (sorrindo) Minha pouca idade não diminui o valor do meu dinheiro.
TEODORO
Rum... Então, que fruta quer?
JAZIEL
Hum... Me dê duas dessa.
Teodoro pega as frutas, coloca-as em um saco de pano e entrega a Jaziel, que lhe dá uma moeda.
JAZIEL
Shalom.
Rapidamente Jaziel se afasta, mas Teodoro percebe algo de estranho na moeda recebida.
TEODORO
Ei... Isso aqui é falso!
Nesse instante Débora se aproxima por outro lado e, com toda sua força, empurra a barraca do homem, fazendo desabar todas as frutas, sacos e moedas.
TEODORO
EI!!!
Débora sai correndo e rindo e Teodoro dispara atrás dela.
TEODORO
Peguem essa garota!
Débora joga para trás o que encontra no caminho, mas o vendedor continua em seu encalço. Em determinada altura, Jaziel sai de outra rua e se junta a ela.
DÉBORA
Ele é mais resistente do que imaginava!
JAZIEL
Deixa comigo!
Apesar da correria, Jaziel consegue pegar uma banana em uma barraca no caminho, rasgá-la e jogá-la para trás. O golpe é um sucesso, e Teodoro escorrega e desaba na rua. O povo, confuso e assustado, olha dele para os dois adolescentes correndo dali.
Pouco depois, em outra rua, eles param de correr com um sorriso no rosto.
JAZIEL
Cansei!...
DÉBORA
Ah!... Ufa... Dessa vez pensei que não íamos escapar...
TEODORO
Mas não escaparam!
Olham na direção contrária e se surpreendem! Teodoro, sujo, está ali, de pé, olhando para eles com ar de vitória.

CENA 12: EXT. CASA DE TAMAR – FRENTE – DIA
Segurando Jaziel pela nuca com uma mão, Teodoro empurra de leve Débora na direção de TAMAR (34 anos), que encara a filha com olhar de desaprovação.
TEODORO
Agora vou levar essa outra peste para seu responsável. Shalom!
Pisando duro, Teodoro sai puxando Jaziel. Tamar fulmina Débora com os olhos.
TAMAR
Pra dentro.
Débora respira fundo e entra.

CENA 13: INT. CASA DE TAMAR – COZINHA – DIA
As duas entram em casa.
TAMAR
(fechando a porta) Débora, o que é que está acontecendo?! Você não é mais criança, minha filha, está virando uma mocinha!
Débora respira fundo e se senta.
TAMAR
Você precisa se comportar como tal. Logo os moços estarão olhando para você de uma forma diferente, de uma forma que as crianças não conhecem... Mas você passará a conhecer.
DÉBORA
(emburrada) Sei do que a senhora está falando e eu não quero casar! E não quero crescer também.
TAMAR
Oh, minha filha... Débora, escuta... Eu já sou malvista por ser mãe solteira, daqui a pouco vão querer me obrigar a casar para que um homem possa criar você!
DÉBORA
Nós não precisamos de homem nenhum, mãe! Durante toda a nossa vida fomos só nós duas, sem pai nenhum pra mim! Nunca precisei!
Tamar parece pensar em coisas para falar, mas fica quieta.
DÉBORA
A senhora fez muito bem em expulsar aquele homem horrível que foi seu marido. Estamos bem sozinhas, juntas... Não precisamos de mais nada.
Tamar a olha por um instante... Então, levantando-se, abre a boca.
TAMAR
Muito bem. Agora vamos até lá pagar o estrago que você ajudou a causar.
DÉBORA
(se levantando) Mãe, aquele homem, o Teodoro, é um traidor!
TAMAR
Não interessa. Você também vai pedir desculpas a ele. Vamos.
DÉBORA
Mãe, ele nem deve ter voltado à barraca ainda...
TAMAR
Vamos, Débora.
DÉBORA
Mas mãe--
TAMAR
(interrompendo) Sem “Mas”. E saiba que os seus serviços aumentarão aqui em casa, ouviu?

CENA 14: EXT. BETEL – RUAS – DIA
Tamar e Débora caminham pela rua em silêncio quando, de repente, o som de galope denuncia a chegada de vários cavaleiros vindo da entrada da cidade: soldados filisteus, vestidos de couraças vermelhas e com espada nas bainhas. O pavor se espalha pelas ruas e as pessoas começam a correr desordenadamente.
DÉBORA
Mãe! Vamos por ali!
Elas tentam ir na direção de uma rua lateral, mas a quantidade de pessoas correndo em pânico faz com que elas esbarrem, trompem e se separem. Débora olha...
DÉBORA
Mãe! Mãe!!!
Nem sinal de Tamar! Sumiu em meio ao povo desesperado. Débora então começa a correr atrás de um abrigo, mas é difícil se locomover com as pessoas naquele estado. De repente, uma figura a agarra e começa a arrastá-la dali em uma direção bem específica.
DÉBORA
(tentando ver quem a pegou) Ah!... Ah! Me solta! Me solta!... Ah!
Então a figura misteriosa a arrasta para trás de uma mesa caída na rua e a esconde. Com a mão do estranho pressionando sua cabeça, Débora olha por uma frestinha da madeira e vê os soldados filisteus agredindo as pessoas e destruindo as barracas. Então vira a cabeça e olha para a pessoa que a levou para ali: trata-se de um homem de uns 35 anos. Rapidamente tira a mão dele de sobre a sua cabeça e se ajeita, apesar de continuar escondida.
HOMEM
Você está bem, Débora?
Débora o encara com a testa franzida.
DÉBORA
Como sabe meu nome?! Eu nunca o vi!...
O homem se ajeita e a encara.
DÉBORA
Por que me salvou, por que me trouxe?... Quem é você?!
O homem engole em seco.
HOMEM
Meu nome é Elian.
Débora conhece esse nome, já o ouviu muitas vezes de sua mãe. Sabe bem de quem se trata...
ELIAN
E eu sou seu pai.
No semblante surpreso e confuso de Débora, IMAGEM CONGELA
CONTINUA...
FADE OUT:


No segundo capítulo: Os hebreus da cidade de Betel correm perigo com o terror provocado pelos filisteus. E a reação de Débora e Tamar com o retorno de Elian.






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