OLÁ MEUS QUERIDOS! TUDO BOM COM VOCÊS? Aqui quem vos dirige a palavra é novamente FELIPE ROCHA. E hoje temos um programa rápido!
E UMA BOA NOTÍCIA!
Vamos deixar aquelas questões de lado, vamos parar de ficar escolhendo a opção correta! O QUADRO REFLETINDO agora vai para a segunda etapa: A ETAPA ARGUMENTATIVA. Antes de tudo, gostaria de agradecer a participação e o entretenimento de vocês. Alguns levaram a sério e outros não. E outros estão evoluindo na escrita! E isso que me faz mais feliz cada dia! ENTÃO VAMOS DEIXAR DE ENROLAR E PARTIR PARA QUE VOS INTERESSA
Bom. Hoje o quadro REFLETINDO vai propor um novo desafio. Vocês abaixo vão ler um CONTO DE ESCOLA de Machado de Assis. E ao final do conto, irão preencher um formulário com seu e-mail/gmail/hotmail dizendo se você aceita participar da dinâmica proposta.
A dinâmica funcionará da seguinte forma.
·
Serão necessários 16 participantes divididos
em quatro grupos com quatro componentes em cada um. Os integrantes do grupo
serão sorteados para defender uma personagem da história entre as quatro
existentes: Policarpo, Raimundo, Curvelo e Pillar. Dessas personagens, o grupo
deverá observar o comportamento de cada uma e resistir as acusações dos demais
participantes, convencendo a “plateia” com argumentos de que sua personagem
agiu de modo certo, seja antagonista ou protagonista. Vence a brincadeira o
grupo que conseguir defender sua
personagem apresentando o máximo de estratégias argumentativas possíveis para
escapar das críticas/acusações.
BORA LER O CONTO?
CONTO
DE ESCOLA
(*)
Machado de Assis
Subi
a escada com cautela, para não ser ouvido do mestre, e cheguei a tempo; ele
entrou na sala três ou quatro minutos depois. Entrou com o andar manso do
costume, em chinelas de cordovão, com a jaqueta de brim lavada e desbotada,
calça branca e tesa e grande colarinho caído. Chamava-se Policarpo e tinha
perto de cinqüenta anos ou mais. Uma vez sentado, extraiu da jaqueta a boceta
de rapé e o lenço vermelho, pô-los na gaveta; depois relanceou os olhos pela
sala.
—
Seu Pilar, eu preciso falar com você, disse-me baixinho o filho do mestre.
Chamava-se
Raimundo este pequeno, e era mole, aplicado, inteligência tarda. Reunia a isso
um grande medo ao pai. Era uma criança fina, pálida, cara doente; raramente
estava alegre. O mestre era mais severo com ele do que conosco.
Ele
deitou os olhos ao pai, e depois a alguns outros meninos. Um destes, o Curvelo,
olhava para ele, desconfiado, e o Raimundo, notando-me essa circunstância,
pediu alguns minutos mais de espera. Esse Curvelo era um pouco levado do diabo.
Tinha onze anos, era mais velho que nós. Que me quereria o Raimundo Mas nós
também éramos finos; metemos o nariz no livro, e continuamos a ler. Raimundo
meteu a mão no bolso das calças e olhou para mim.
—
Sabe o que tenho aqui?
—
Não.
—
Uma pratinha que mamãe me deu.
De
verdade. Tirou-a vagarosamente, e mostrou-me de longe. Era uma moeda doze
vinténs mas era uma moeda, e tal moeda que me fez pular o sangue no coração. Raimundo
revolveu em mim o olhar pálido; depois perguntou-me se a queria para mim.
Em
seguida propôs-me um negócio, uma troca de serviços; ele me daria a moeda, eu
lhe explicaria um ponto da lição de sintaxe. Não conseguira reter nada do
livro, e estava com medo do pai.
Dê
cá... Raimundo deu-me a pratinha, sorrateiramente; eu meti-a na algibeira das
calças, com um alvoroço que não posso definir. Restava prestar o serviço, ensinar a lição e não me demorei em
fazê-lo, nem o fiz mal. De repente, olhei para o Curvelo e estremeci; tinha os
olhos em nós, com um riso que me pareceu mau. Não é preciso dizer que também eu
ficara em brasas, ansioso que a aula acabasse; mas nem o relógio andava como
das outras vezes, nem o mestre fazia caso da escola; este lia os jornais,
artigo por artigo.
—
Oh! seu Pilar! bradou o mestre com voz de trovão.
Dei
com o mestre, olhando para mim, cara fechada, jornais dispersos, e ao pé da
mesa, em pé, o Curvelo. Pareceu-me adivinhar tudo.
— Venha cá! bradou o mestre. — Então o senhor
recebe dinheiro para ensinar as lições aos outros? — Dê cá a moeda que este seu
colega lhe deu!
Não
obedeci logo, mas não pude negar nada. Continuei a tremer muito. Policarpo
bradou de novo que lhe desse a moeda, e eu não resisti mais, meti a mão no
bolso, vagarosamente, saquei-a e entreguei-lha. Ele examinou-a de um e outro
lado, bufando de raiva; depois estendeu o braço e atirou-a à rua. E então
disse-nos uma porção de cousas duras, que tanto o filho como eu acabávamos de
praticar uma ação feia, indigna, baixa, uma vilania, e para emenda e exemplo
íamos ser castigados. Aqui pegou da palmatória.
—
Perdão, seu mestre... solucei eu.
—
Não há perdão! Dê cá a mão! Dê cá! Vamos! Sem-vergonha! Dê cá a mão!
—
Mas, seu mestre...
—
Olhe que é pior!
Estendi-lhe
a mão direita, depois a esquerda, e fui recebendo os bolos uns por cima dos
outros, até completar doze, que me deixaram as palmas vermelhas e inchadas.
Chegou a vez do filho, e foi a mesma coisa.
Creio
que o próprio Curvelo enfiara de medo. Daí a algum tempo olhei para ele; ele
também olhava para mim, mas desviou a cara, e penso que empalideceu. Tu me
pagas! tão duro como osso!" dizia eu comigo. Em casa não contei nada, é
claro; mas para explicar as mãos inchadas, menti a minha mãe, disse-lhe que não
tinha sabido a lição. De manhã, acordei cedo. A idéia de ir procurar a moeda
fez-me vestir depressa. Saí de casa. Na rua encontrei uma companhia do batalhão
de fuzileiros, tambor à frente, rufando. Não podia ouvir isto quieto. Os
soldados vinham batendo o pé rápido, igual, direita, esquerda, ao som do rufo;
vinham, passaram por mim, e foram andando. Eu senti uma comichão nos pés, e tive
ímpeto de ir atrás deles. Já lhes disse: o dia estava lindo, e depois o
tambor... Olhei para um e outro lado; afinal, não sei como foi, entrei a
marchar também ao som do rufo, creio que cantarolando alguma cousa: Rato na
casaca... Não fui à escola, acompanhei os fuzileiros, depois enfiei pela Saúde,
e acabei a manhã na Praia da Gamboa. Voltei para casa com as calças
enxovalhadas, sem pratinha no bolso nem ressentimento na alma. E contudo a
pratinha era bonita e foram eles, Raimundo e Curvelo, que me deram o primeiro
conhecimento, um da corrupção, outro da delação; mas o diabo do tambor...
(Fragmento)
FIM


Obrigado pelo seu comentário!