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VILAREJO - Capítulo 07



Capítulo 07

Cena 01 - Pelotas (Casarão Coimbra) [Interna/Manhã]

[Ana Catarina estava parada diante Álvaro, enquanto aguardava uma resposta. Trajava uma camisola branca de seda, que estava coberta por um roupão de renda. A cabeça continha algumas ataduras, cuidadosamente colocadas de modo que os ferimentos fossem cobertos.]


ANA CATARINA: - E então, eu posso ou não me juntar a vosmecês e partir para a Espanha de navio? [Questiona novamente].


CONDE DE BURGOS: - Ana, tem certeza do que vosmecê está pedindo? Não é uma simples viagem como quem vai de um vilarejo a outro. Vamos atravessar o oceano!


ANA CATARINA: - Eu não tenho mais nada a perder, muito menos para onde voltar. Se retornar para minha casa, provavelmente em pouco tempo serei eliminada. Já entendi que o senhor é um homem bom, não precisa me levar de graça. Posso lhe ser muito útil, sei ler, escrever, fazer contas. Também sei falar inglês fluentemente…


CONDE DE BURGOS: - Quanto a isso, não se preocupe. Essa não é a questão… Não quero soar prepotente, mas sou um homem de posses, muito bem colocado na vida.


ANA CATARINA: - Isso quer dizer que vosmecê já tomou uma decisão…


CONDE DE BURGOS: - Sim. Se isso é o que vosmecê realmente deseja, pode se juntar a nós. Partiremos dentro de quatro dias!


ANA CATARINA: - Eu fico imensamente agradecida com a sua resposta. Espero poder retribuir um dia todo o bem que tem me feito, mesmo sem me conhecer profundamente, senhor conde. [Diz ao estender a mão para Álvaro].


CONDE DE BURGOS: [Sorri ao apertar a mão de Ana Catarina] - Álvaro, me chame de Álvaro. Já que seremos bons amigos, prefiro que não exista tantas formalidades entre nós.


Cena 02 - Cemitério [Externa/Manhã]

Música da cena: Vilarejo - Marisa Monte

[O dia amanhece e anoitece novamente. Imagens aéreas percorrem toda a cidade de São José dos Vilarejos. Com a transição de cenas, surgem as ruas da cidade e o cotidiano flui normalmente.]


DIAS DEPOIS…


PADRE: - Et domine Gonçalo, Ana Catarina et Maria Letícia D'ávilla requiescant in sancta pace domini nostri. Amen!

Tradução: E que Gonçalo, Ana Catarina e Maria Letícia D'ávilla, descansem na santa paz do nosso senhor. Amém!

[Após a fala do padre, podemos ver três túmulos recem cobertos de areia. Trata-se do túmulo de Gonçalo, Maria Letícia e um simbólico para Ana Catarina, que não foi encontrada, porém as buscas por ela já haviam sido encerradas.]


CARLOTA: - Que Deus os tenha! [Completa se benzendo].


ANTÔNIO: [Observa o túmulo em silêncio e em seguida, pousa uma rosa branca em cima do túmulo de Catarina].


ROSAURA: [Se aproxima de Antônio e pousa a mão sobre o ombro dele] - Se isso lhe conforta, filho… Ela também estava apaixonada por você. Dava pra ver o brilho nos olhos da minha menina. Por onde você for, ela vai viver sempre dentro do seu coração.


ANTÔNIO: [Emocionado, abraça Rosaura fortemente].


VLADIMIR: [Observa a cerimônia de longe, visivelmente triste].


Cena 03 - Porto de Pelotas [Externa/Manhã]

Música da cena: Coleção - André Leonno

[Com a transição de cenas, surge o porto de Pelotas. Um grande navio estava lançando fumaça, sinalizando que sua partida seria breve. Havia uma grande movimentação de pessoas levando bagagens para o interior do navio. Em seguida, podemos ver uma mulher de costas se inclinar e colocar a mão dentro da água.]


ANA CATARINA: [Coloca um pouco de água na palma da mão e a leva para perto de si] - Por essa água, que hoje me leva embora do país onde nasci e me criei, do vilarejo onde me tornei mulher. Onde eu vivi as maiores dores da minha vida, incluindo perder meu pai, minha mãe e minha irmã é que eu juro… Eu ainda vou voltar e farei com que todos paguem. Todos que me fizeram mal, vão se arrepender. Eu vou pagar na mesma moeda e não terei pena. Eu juro… Eu juro! [Conclui virando a mão para que a água retorne para o mar].


CONDE DE BURGOS: - Está pronta? [Pergunta ao se aproximar].


ANA CATARINA: [Seca as lágrimas que escorreram em seu rosto e vira para Álvaro, fingindo que nada aconteceu] - Prontíssima. Podemos ir?


CONDE DE BURGOS: - Certamente. Vamos! [Responde estendendo o braço, para que Ana Catarina entrelace o seu].


ANA CATARINA: [Dá o braço ao conde, ergue a cabeça e em seguida os dois entram no navio].


Cena 04 - Cachoeira [Externa/Tarde]

Música da cena: Amor Gitano - Beyoncé ft. Alejandro Fernández

Alguns dias depois…

[Sozinho na cachoeira, Antônio conseguia ouvir apenas o som da água seguindo seu caminho e dos pássaros que cantavam, enquanto ficava preso às memórias do passado.]


ANTÔNIO: - E agora, como eu faço para seguir em frente sem vosmecê? Eu não hei de conseguir continuar em São José dos Vilarejos, com essa dor que me mata aos poucos diariamente. Não sem você! É por isso, que eu tomei uma decisão, peço que aonde quer que vosmecê esteja, minha princesa… Que me proteja! [Fala consigo mesmo].


Cena 05 - Acampamento dos Ciganos [Externa/Noite]

[Vladimir amolava alguns punhais, quando seu pai se aproximou acompanhado de Madalena e uma menina de pele morena e olhos claros.]


VICENTE: - Filho, enfim te encontrei. Eu e Madalena queremos comunicar uma decisão que acabamos de tomar.


VLADIMIR: - Decisão? Do que está falando, bato?

Tradução: Bato - Pai


VICENTE: - Essa daqui é Açucena, a neta da Madalena que vai morar com nossa gente a partir de agora. Nós conversamos e decidimos que vosmecê e ela irão se casar assim que atingirem a idade ideal.


VLADIMIR: [Olha para a menina, surpreso com a notícia].


MADALENA: - Viva aos futuros reis dos ciganos! [Comemora].


Cena 06 - Banco D’ávilla [Interna/Manhã]

Música da cena: Flor de Lis - Melim

[Imagens externas mostravam a movimentação nas ruas do centro de São José do Vilarejo, o comércio seguia a todo vapor, com a transição de cenas surge a fachada do banco D’ávilla.]


ALGUMAS SEMANAS DEPOIS…


CARLOTA: [Senta-se na cadeira que era usada por Gonçalo no banco] - Enfim, minha cadeira! [Comemora sorridente].


COMANDANTE JUVENAL: [Abre a porta bruscamente e invade o escritório] - Vejo que vosmecê já tomou seu lugar no comando do banco.


CARLOTA: - Já eu, vejo que tantos bombardeios e explosões nos combates, talvez tenham te feito esquecer os bons modos. Não é de bom tom entrar sem bater, comandante!


COMANDANTE JUVENAL: [Sorri com ironia] - Eu conversei com o advogado e o inventário ainda não acabou. Não tenho tanta certeza se vosmecê já pode se apoderar de tudo assim, tão livremente…


CARLOTA: - De certo, o senhor está muito preocupado com os meus passos e já deve ter se informado também, que eu e meu filho somos os únicos herdeiros do meu finado marido, que Deus o tenha. [Se benze]. - De uma forma ou de outra, tudo virá para mim, então nada mais justo que eu passe a administrar tudo. 

COMANDANTE JUVENAL: - Sabe que até hoje eu acho que esse acidente foi muito conveniente para algumas pessoas. Vosmecê não acha? [Questiona ao se aproximar de Carlota, sentando-se na cadeira em frente a mesa onde ela estava].


CARLOTA: [Finge não entender] - Agora sou eu que não entendo onde pretende chegar, comandante. Acaso está afirmando que alguém estaria interessado na morte do meu amado marido?


COMANDANTE JUVENAL: - Talvez não “interessado”, eu diria “interessada”. [Explica com ar de malícia].


CARLOTA: - Eu não admito esse tipo de insinuação aqui. Ponha-se já para fora, não quero que se atreva a colocar os pés aqui, novamente. [Grita ao se levantar furiosa].


COMANDANTE JUVENAL: - Eu vou, mas saiba que eu vou continuar no seu rastro. Com licença, senhora! [Vai embora, deixando Carlota furiosa].


CARLOTA: - Pode deixar, comandante. O que é seu, está guardado. Vosmecê não perde por esperar! [Fala consigo mesma].





Cena 07 - Burgos, Espanha [Externa/Tarde]

Música da cena: Mil Noites de um Amor Sem Fim - Silva

[Imagens da Espanha são apresentadas, especialmente da cidade de Burgos. Em seguida, surge como plano de fundo um grande castelo. Empregados abrem os grandes portões e uma carruagem adentra pela estrada que dá acesso à propriedade.]


CONDE DE BURGOS: - Chegamos! [Avisa ao entrar na propriedade].


ANA CATARINA: [Desce da carruagem com ajuda de Álvaro e fica impressionada com a magnitude do lugar] - Esse sem dúvida é o local mais lindo que já vi em toda a minha vida!


CONDE DE BURGOS: - Tudo. Absolutamente tudo que está aqui, vosmecê pode considerar seu… [Responde segurando a mão de Ana Catarina].


ANA CATARINA: [Desvencilhar-se de Álvaro] - Eu serei grata eternamente por tudo o que fez por mim, Álvaro. Mas talvez eu não possa retribuir da forma que deseja e como você merece. O meu coração sangra e está repleto de dor, desejo de vingança e ressentimento. Você merece uma mulher que te complete, que te ame por inteiro. Não creio que seja capaz de te dar tudo isso!


CONDE DE BURGOS: - Eu entendo perfeitamente e vou respeitar o seu momento. Mas saiba que você pode contar sempre comigo. Não precisa responder nada agora, tome quanto tempo quiser. Vamos entrar?


ANA CATARINA: - Vamos! [Responde empolgada].


[Juntos, os dois entram no castelo de Álvaro, situado no Sul da cidade de Burgos.]


Cena 08 - Casarão D’ávilla (Sala de Estar) [Interna/Noite]

[Com a transição de cenas, surge a fachada do engenho do engenho. Carlota e o filho jantavam tranquilamente, quando Antônio resolveu comunicar sua decisão.]


CARLOTA: - Como assim, ir embora? Meu filho, acá vossmecê tem de tudo. Não precisa dessa besteira de estudar, nós temos posses, dinheiro!


ANTÔNIO: - Eu não estou pedindo autorização, mamãe. Eu já me decidi, vou continuar a faculdade de direito, quero vencer por minha própria conta e não por conta de uma herança.


CARLOTA: - Bom, já que você decidiu e é maior de idade, não vou impedir. Faça como bem quiser. Quando pretende ir?


ANTÔNIO: - Dentro de alguns dias! [Completa].


[Alguns instantes depois, Carlota foi até a cozinha, onde Rosaura terminava de guardar utensílios antes de ir se deitar.]


ROSAURA: [Assusta-se ao ver Carlota].


CARLOTA: - Que foi, Rosaura? Acaso está nervosa com a minha presença?


ROSAURA: - Não, é que a sinhá me assustou. Não vi vassuncê chegar!


CARLOTA: [Olha para o fogão a lenha e nota a presença do ferro de passar roupas, cheio de brasas. Rapidamente, ela o pega e o segura apontando-o na direção da escrava] - Eu sei que vosmecê sabe demais e que andou enchendo a cabeça da minha pobre e finada enteada, mas acho que vosmecê já sabe do que eu sou capaz, não sabe? Da próxima vez que der com a língua nos dentes, eu vou te queimar inteira com ferro em brasa. Entendeu negra maldita? [Grita].


ROSAURA: [Fica com os olhos marejados e trêmula, não consegue responder].


CARLOTA: [Se aproxima ainda mais da escrava, fazendo com que ela sinta o calor do ferro em seu corpo] - Eu falei com vosmecê, sua imbecil. Acaso não me ouviu? [Pergunta novamente].


ROSAURA: - Ouvi sim, sinhá. Eu não vou falar nada, sinhá. Pode ficar tranquila, eu não vou falar nada.


CARLOTA: - É bom mesmo, vosmecê não sabe do que eu sou capaz. Não sabe! [Arremessa o ferro dentro do fogão a lenha, fazendo com que faíscas se espalhem pelo ar. Em seguida, vai embora].


ROSAURA: [Encosta-se próximo a pia e respira fundo, visivelmente angustiada].


Cena 09 - Castelo Coimbra (Burgos, Espanha) [Externa/Noite]

Música da cena: Mil Noites de Um Amor Sem Fim - Silva

ALGUNS DIAS DEPOIS…

[Os empregados do castelo serviam o jantar, enquanto Ana Catarina e Álvaro se preparavam para começar a jantar.]


CONDE DE BURGOS : [Percebe que Ana Catarina não tocou no jantar] - Não gostou da comida? Se quiser, posso pedir para prepararem outra coisa…


ANA CATARINA: - Não, não é isso… É que apenas estava lembrando de algumas pessoas do meu passado.


CONDE DE BURGOS: [Pousa a mão sobre a de Ana Catarina] - Vosmecê escolheu seguir em frente e deixar o passado para trás. Erga a sua cabeça e siga em frente. Eu quero muito te ajudar… Só Deus sabe, que daria tudo o que eu tenho para conseguir morar em um pequeno espaço do seu coração.


ANA CATARINA: [Olha seriamente para Álvaro] - Gosta tanto assim de mim?


CONDE DE BURGOS: - Como nunca gostei de ninguém antes. Não sei explicar o que senti desde a primeira vez que te vi naquele rio, desmaiada e indefesa. A única certeza que tive comigo, era a de que não poderia mais te deixar sozinha.


Cena 10 - Rio de Janeiro, Capital [Externa/Manhã]

Música da cena: Amor Gitano - Beyoncé ft. Alejandro Fernández

[Surge a fachada da estação de trem do Rio de Janeiro. Entre os passageiros que saem do local, logo pudemos ver entre a multidão um rosto conhecido, trata-se de Antônio.]


ANTÔNIO: - Uma nova vida começa agora! [Coloca o chapéu na cabeça e em seguida caminha pelas ruas da cidade].


Cena 11 - Passagem de tempo [Externa/Manhã]

Música da cena: Apesar de Você - Chico Buarque

[O dia amanhece e anoitece rapidamente. Sol e lua dão lugar a belas paisagens, conforme o cotidiano começa a ser apresentado.]


- Ana Catarina e Álvaro passeiam pela Espanha;


-1868  Inauguração dos bondes de tração (Rio de Janeiro);


- Carlota se esbalda com o dinheiro de Gonçalo, enquanto se diverte com Zeferino;


- 1870 Fim da Guerra no Paraguai;


- Antônio continua estudando na capital;


- 1874 Inauguração da Iluminação à gás (Rio de Janeiro);


- Ana Catarina cede e se casa na igreja com Álvaro;


- 1880 Fundação da Associação Central Abolicionista;


- Vladimir e Açucena conversam com os outros ciganos;


- 1883 Invenção da fotogravura por T. e R. Annan (Inglaterra);


- Rosaura mexe nos pertences de Ana Catarina e sente saudades;


- 1884 - Libertação dos escravos no Ceará e Amazonas.


- Ana Catarina e Álvaro frequentam a alta sociedade espanhola;


- 1885 Emancipação dos escravos de mais de 60 anos através da Lei de Saraiva-Cotegipe (lei dos sexagenários).


DEZOITO ANOS DEPOIS…


Cena 12 - Castelo Coimbra (Burgos, Espanha) [Externa/Tarde]

Música da cena: Coleção - André Leonno

Segunda Fase, Espanha, 1886.

[Uma carruagem adentrou na estrada do palácio e logo estacionou na porta de entrada principal da propriedade. Um empregado abriu a porta e estendeu a mão para que a passageira descesse. Notava-se uma mulher a subir as escadarias, bem vestida. Trajava vestido de renda e rodado de cor azul. Em seguida, caminhou pelo interior da casa. No andar superior da propriedade, ouvia-se o estalar dos sapatos de salto se aproximando da suíte principal do local.]


ANA CATARINA: [Abre as duas portas do quarto e sorri ao ver as pessoas no interior do lugar] - Cheguei, espero não tê-los feito esperar muito tempo!


[A imagem congela focando no rosto de Ana Catarina, agora uma mulher madura e elegante, surge um efeito de uma pintura envelhecida e o capítulo se encerra].


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