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LÁGRIMAS EM SILÊNCIO - Capítulo 09

 





Novela de Adélison Silva 

Personagens deste capítulo

JANA
LAURA
GIOVANA
GENIVALDO
ELIETE
RAIMUNDA
RAVENA
MACIEL
RATO
CÁSSIA
MAURÍCIO
BEATRIZ
JORGE
ROSENO
VALDOMIRO

Participação Especial:
CEZINHA, CRIANÇA que entrega a flor, CLIENTE da boutique, VÍTIMA de Maciel.

aCENA 01/ INT/ CASA DO MACIEL/ QUARTO/ NOITE 

Laura e Maciel estão sentados na cama, com Maciel segurando firmemente o braço de Laura, impedindo-a de pegar o telefone.

 

MACIEL

(com voz firme)

- Eu lhe proíbo de falar com essa mulher! Tá me ouvindo? 

LAURA

(surpresa e indignada)

Oi? É o quê? Cê me proíbe? Cê não tem direito de me proibir de nada não. 

 

Laura tenta puxar o telefone de volta, mas Maciel aumenta a força do seu aperto, tornando mais difícil para ela recuperar o telefone. Determinada, Laura puxa o braço com vigor e consegue pegar o seu telefone. 

 

LAURA

(decidida)

- Me dá meu telefone aqui, vou retornar a ligação pra Ravena.

(levantando-se da cama com determinação)

- Com licença! Depois a gente conversa, viu? 

 

Laura sai do quarto, segurando o telefone e discando o número de Ravena. Maciel fica no quarto, enfurecido, mas não faz nada para impedir Laura de ligar.

 

aCENA 02/ INT/ CASA DO MACIEL/ CORREDOR/ NOITE 

Laura está no corredor, segurando o telefone próximo ao ouvido enquanto conversa com Ravena. Seu rosto expressa uma mistura de emoções, desde a preocupação até a determinação.

 

LAURA

– Oi Ravena! 

RAVENA

(off)

– Seu pai esteve aqui procurando por cê. 

 

Laura engole em seco, sentindo um aperto no peito diante da informação. 

 

LAURA

(preocupada)

– E... E o que cê disse a ele? 

RAVENA

– Que não sabia donde cê tava. Que realmente não sei, né? Agora Laura se ainda lhe interessa algum conselho meu. Acho bom cê procurar os seus pais, viu? Poxa, eles podem ser o que for, mas tão preocupados com cê. 

LAURA

(resoluta)

– Sei muito bem a preocupação deles. O que painho quer é me por no cabresto, isso sim. Mas amanhã vou ligar pra mainha e tentar acalmá-la.  Obrigado por ter ligado. 

RAVENA

– Por nada!

(preocupada)

- Cê tá bem? 

LAURA

(com convicção)

– Sim, tô bem. Ravena eu quero ser feliz, e sei que desta vez vou ser. Oxente, não quero ficar mal com você. Mas preciso que cê me entenda. 

RAVENA

– Tudo bem Laura, eu lhe entendo. Cê tá apaixonada, né? Cê tá fazendo uma grande burrada em sua vida. Não sabe? Só espero que quando cê se dá conta não seja tarde demais. 

LAURA

- Cê não gosta mesmo do Maciel, né? 

RAVENA

- Homens não prestam Laura, uma hora cê vai entender isso. Mas não quero lhe atrapalhar aí com o seu boy, tenha uma boa noite, viu? 

LAURA

- Boa noite Ravena! Durma bem.

 

Laura desliga o telefone e o segura em sua mão enquanto caminha pelo corredor. Enquanto isso, Ravena fica do outro lado da linha, sentindo uma dor profunda ao saber que Laura está com Maciel. Ela deseja estar com Laura, mas ainda mantinha a esperança de que um dia as duas finalmente ficassem juntas.




 

CENA 03/ EXT/ PLANO GERAL 

Da escuridão da noite surge o amanhecer sobre Salvador. A lua cede espaço ao sol, que pinta o céu de tons dourados. As praias despertam: o mar murmura calmamente, as palmeiras balançam suavemente e a cidade ganha vida. As águas convidam os banhistas, enquanto barracas e pescadores iniciam suas atividades.

 

CENA 04/ INT/ BOUTIQUE DA RAVENA/ DIA 

Giovana está caminhando pela rua quando passa em frente à boutique de Ravena. Curiosa, ela decidiu entrar e fazer uma visita. Ao entrar na boutique, ela encontra Ravena organizando algumas araras de roupas e arrumando os acessórios nas vitrines. 

 

GIOVANA

(se aproximando de Ravena)

– Bom dia! 

RAVENA

(alegre)

- Bom dia, Giovana! Que surpresa agradável! 

 

Ravena interrompe sua arrumação, vai em direção a Giovana e lhe abraça. 

 

GIOVANA

 (retribui o abraço)

– Estava passando por aqui perto e resolvi vim aqui ver vocês.

(observando as araras)

- Vejo que cê tá ocupada arrumando a boutique. Não quero atrapalhar. 

RAVENA

(sorri)

- Sempre há trabalho a fazer. Cê atrapalha não. Fico feliz que tenha vindo nos visitar. 

GIOVANA

(olhando ao redor)

- Olhe, a boutique tá danada de linda, viu! 

RAVENA

(sorrindo)

- Obrigada! 

GIOVANA

- Cês têm peças maravilhosas aqui... E Laura ondé que tá? 

RAVENA

(suspira, voltando a organizar as araras)

– Ainda não apareceu. E pra ser realista acho que nem vai aparecer. 

GIOVANA

(surpresa)

– Aconteceu alguma coisa? 

RAVENA

(abaixa a cabeça, pausa sua arrumação)

– Então cê não sabe? Laura se mudou de mala e cuia para a casa do namorado. 

GIOVANA

(preocupada)

– Não sabia não, ela não me falou nada. Dizer uma coisa viu? Aquele rapaz é tão estranho. 

RAVENA

(assente)

– Bom saber que não sou a única que acha isso. Laura tá fazendo a maior burrada da vida dela. Mas é a vida dela, não posso fazer nada, né? Conselho ela não ouve. 

GIOVANA

– Depois vou ligar pra ela e tentar conversar.

(observando as vitrines)

- Posso lhe ajudar com a arrumação? 

RAVENA

(sorriu, entregando uma peça de roupa para Giovana)

- Oxente, claro, sua ajuda será bem-vinda! Coloque essa blusa na arara do canto, por favor. 

 

Giovana pega a blusa e começa a organizá-la na arara, enquanto Ravena continua a arrumação de outros itens na boutique. 

 

GIOVANA

(enquanto organizava a blusa)

- Mas falando em outra coisa, Ravena. Tenho refletido bastante sobre o movimento feminista. 

 

Ravena pega alguns acessórios e os organiza em uma bandeja. 

 

RAVENA

(curiosa)

- Hummm! Então é sinal que cê gostou.

(gesticulando convidando Giovana para sentar)

- Venha, sente aqui, vamos conversar.

(aponta para um sofá próximo)

- Estamos planejando fazer outro protesto, desta vez no aeroporto, contra o turismo sexual no Brasil. 

GIOVANA

(sentando)

- Ah, bacana! Quero participar também. Mas tem uma coisa que não entendi, viu? 

RAVENA

(atenta)

– E o que foi que cê não entendeu? 

GIOVANA

– Quando Laura me chamou pro protesto, ela falou de uma jovem que foi estuprada pelo o padrasto. Não foi isso mesmo? 

RAVENA

(com expressão de indignação)

- Verdade. O nome da jovem é Aline, tem doze anos e quase morreu. É um absurdo o que vem acontecendo, viu Giovana? São tantos casos de estupro que ficamos sabendo. Os homens acham que o corpo da mulher é um objeto que pode ser usado quando bem entendem. 

GIOVANA

– Realmente um absurdo. Ficamos sabendo de cada história, que Ave Maria!... Mas voltando ao assunto, Ravena. Quem foi lá na casa da jovem? 

RAVENA

(confusa)

- Como assim, Giovana? Não entendi. 

GIOVANA

(explicando)

- Pelo que entendi, a família é simples, e a única fonte de renda deles vinha do padrasto. Agora que ele foi preso, elas podem tá precisando de auxílio, cestas básicas, apoio psicológico. Alguém do movimento foi lá prestar solidariedade?... Porque, se não foi, quando forem, eu quero tá junto. Quero muito poder participar disso. 

 

Ravena fica desconcertada com a observação da Giovana. E tenta explicar qual era o objetivo do seu movimento. 

 

RAVENA

– Olhe, Giovana, entenda uma coisa. Ninguém foi porque não é o nosso objetivo direto. Nossa missão é lutar para que situações como essas não voltem a acontecer. Tá entendendo? Quantas "Alines" por aí tão sendo abusadas? Temos que lutar para que isso mude. Temos que dar um basta nessa situação, tá sabendo? 

GIOVANA

(olhando intensamente para Ravena)

- Sim, acho isso tudo muito bacana. Mas acontece, Ravena, que com essa jovem já aconteceu, né? O trauma já ocorreu em sua vida... Então é isso mesmo? Vamos tirar nossas blusas, sair pelas ruas gritando por justiça, mas não vamos fazer nada para ajudar essa jovem, que tá passando por um momento tão difícil em sua vida? Eu não tô entendendo qual é o real motivo do movimento. 

 

Ravena fica sem palavras diante das observações de Giovana. O que Giovana quer é algo concreto, algo que de fato fizesse sentido para ela. Pois tudo que ela viu foi um protesto com palavras de ódio, onde a mensagem principal mal foi ouvida. 

 

CENA 05/ INT/ CASA DOS SIRQUEIRAS/ COZINHA/ TARDE 

Raimunda está ocupada lavando a louça na pia da cozinha quando seu telefone começa a tocar. Ela seca as mãos com um pano de prato e se aproxima do armário onde o celular está apoiado. Ao olhar no identificador de chamadas, ver que é Laura quem estava ligando. Raimunda rapidamente atende a ligação, cheia de animação.

 

RAIMUNDA

(empolgada)

- Oi, minha filha! Pelo amor de Deus, Laura, onde que cê tá? 

LAURA

(do outro lado da linha)

– Oi mainha! Tá tudo bem, não sei por que toda essa afobação. 

RAIMUNDA

– Como não se afobar, Laura? Tô é aqui toda avexada! Cê some não dá notícia nenhuma. Como cê tá, filha? Ondé que cê tá? Com quem cê tá? 

LAURA

(calma)

- Oxe, mas que interrogatório é esse? Já disse que tô bem. Conheci um rapaz e resolvi morar com ele. Só isso, viu? Não entendo esse alvoroço todo dos cês. 

RAIMUNDA

(preocupada)

- Que rapaz é esse, minha filha? O que ele faz? Quem é a família dele? Traga ele aqui pra gente conhecer. Vou conversar direitinho com seu pai, viu? Se esse rapaz aceitar ser batizado na nossa igreja, cês podem até se casar. Olhe que benção!... Meu amor volte para casa! 

LAURA

(decidida)

- Pra quê isso, minha mãe? Pra painho ficar enchendo o saco, colocando um monte de defeitos e empecilhos no meu namoro? Eu amo o Maciel, e independentemente do que cês acham ou deixam de achar, vou continuar com ele... Tô ligando mesmo porque soube que painho voltou à casa de Ravena procurando por mim. Ravena não sabe onde que tô. Ninguém sabe ondé que tô, e prefiro que continue assim. O que os outros não sabem não estraga, né mesmo? Tô feliz, oxente, e é isso que importa. 

RAIMUNDA

(com pesar)

- Oh, meu amor, espero que cê esteja realmente feliz. Cê é minha filha, dói demais lhe ver se distanciando cada vez mais de sua família. Me preocupo com cê, minha filha. Quero poder lhe visitar, quero que cê também venha cá me visitar. Sua irmã pergunta por cê o tempo todo... Oh Laura, cê não sente falta da gente? 

LAURA

– Sinto falta sim, da senhora. Sinto falta também de Rebeca, é claro. Mesmo ela sendo uma toupeira. Mas não sinto a menor falta de meu pai. Aliás, tô feliz exatamente por tá longe dele. 

RAIMUNDA

(entristecendo)

– Olha o que cê fala, minha filha! Cê não pode achar que isso tá certo, né mesmo? Ele é seu pai. 

LAURA

(firme)

- Mainha, não adianta, pensamos de forma diferente. E eu nunca vou me acostumar com esse jeito machista de painho... Vou ter que desligar agora, depois a gente conversa mais. Cheiro, tchau! 

RAIMUNDA

(emocionada)

- Cheiro, minha filha. Se cuida!

 

CENA 06/ EXT/ PLANO GERAL 

Imagens aéreas de Salvador, com suas praias de águas cristalinas, o Pelourinho colorido e cheio de vida, o Elevador Lacerda majestoso, e o Farol da Barra iluminando o horizonte. Transição suave para um close das ondas do mar quebrando na costa, mostrando um pôr do sol deslumbrante com cores quentes pintando o céu.

Letreiro na tela: "MESES DEPOIS".

A música suave da trilha sonora aumenta, enquanto a câmera se move para revelar personagens principais em novas situações e cenários, indicando a passagem do tempo. 

 

CENA 07/ CASA DA BEATRIZ/ SALA/ DIA 

Beatriz está concentrada, terminando de se maquiar em frente ao espelho da sala. Ela delinea cuidadosamente seus olhos quando, de repente, a campainha ecoa pela casa. Surpresa, Beatriz coloca o pincel de maquiagem delicadamente no sofá e caminha em direção à porta, curiosa para ver quem poderia ser. Ao abrir a porta, depara-se com o porteiro Cezinha segurando uma única rosa branca entre as mãos. Beatriz arquea uma sobrancelha, perplexa com a situação. 

 

BEATRIZ

– Que isso? Mais uma flor? Todo dia isso agora? 

 

Cezinha coça a cabeça desconcertado, explicando a situação. 

 

CEZINHA

(sorrindo sem graça)

– Pois é, doutora. Deixaram na portaria pra senhora. 

BEATRIZ

(suspirando fundo)

– Obrigada, Cezinha! 

 

Com a flor em mãos, Beatriz fecha a porta atrás de si, levando-a consigo até a cozinha. Atravessa o cômodo com passos decididos, chegando perto da lata de lixo onde outras flores já haviam sido descartadas. Sem hesitar, ela joga a rosa recém-recebida na lata de lixo, juntamente com as outras. Sua expressão facial mostra uma mistura de irritação e determinação. 

 

BEATRIZ

(murmurando para si mesma)

– Tenho que ter uma conversa séria com aquele abusado. Quem ele pensa que é pra ficar me mandado flores? 

 

CENA 08/ EXT/ CENTRAL/ PÁTIO/ DIA 

Giovana segura um jornal nas mãos enquanto caminha lado a lado pelo pátio do colégio acompanhado de Laura. Ela olha rapidamente para o jornal em suas mãos e, com um olhar sério, mostra para Laura. 

 

GIOVANA

- Olhe só isso! 

 

Laura direciona seu olhar curioso para o jornal, demonstrando interesse no que Giovana quer mostrar. 

 

LAURA

- O que é? 

GIOVANA

- Quatro mulheres se juntaram para denunciar um tarado que tá agindo aqui em Salvador.

 

Laura arregala os olhos, demonstrando preocupação e interesse pelo assunto. 

 

LAURA

- É disso que precisamos, viu? Mulheres corajosas. 

GIOVANA

- Oh Laura, esse pode ser o mesmo tarado que atacou minha irmã. 

 

A expressão de Laura torna-se séria, demonstrando compreensão pela situação delicada de Giovana. 

 

LAURA

- Olhe Giovana, sua irmã bem que deveria se juntar a essas mulheres e denunciar esse pilantra. 

GIOVANA

- Também acho, vou falar isso com ela. Uma pena que a polícia ainda não sabe nada sobre ele. Só montaram aqui um retrato falado de acordo com o que as vítimas citaram. 

LAURA

- Deixa eu dá uma olhada. 

 

Laura pega o jornal das mãos de Giovana, examinando atentamente o retrato falado.

 

LAURA

- Gente, mas esse retrato falado ficou muito mal feito. 

GIOVANA

- É compreensível, né? O trauma que as mulheres passam é tão grande que muitas vezes não conseguem se lembrar com precisão do rosto do agressor. Por isso acho importante que Jana vá até lá, porque ela se lembra bem dele.

 

Laura solta uma risada discreta ao perceber uma semelhança entre o retrato falado e Maciel. 

 

LAURA

- Ave Maria, misericórdia! 

GIOVANA

– Que foi, moça? 

LAURA

(rindo)

- Sabe com quem essa caricatura aqui tá parecendo? Com meu marido, com Maciel. 

 

Giovana olha atentamente o jornal, analisando o retrato e, em seguida, fixa um olhar sério e desconfiado em direção a Laura. 

 

LAURA

– Por que cê tá me olhando assim, Giovana?

(percebendo as suspeitas de Giovana)

– Cê tá é louca se acha que Maciel é o tarado que atacou essas mulheres. 

 

Giovana tenta amenizar rapidamente a situação, evitando qualquer mal-entendido. 

 

GIOVANA

– Claro que não, não tô insinuando nada. Até porque essa caricatura tá tão mal feita que poderia ser qualquer pessoa. 

LAURA

- Vou levar esse jornal pra mostrar pra Maciel. 

GIOVANA

- É que... Eu iria levar ele pra mostrar pra minha irmã. 

LAURA

– Oh nega, tudo bem, pode levar. Compro outro ali na banca...

(rindo)

- Só quero ver a cara de Maciel ao ver esse retrato tão mal falado. 

 

Enquanto caminha pelo pátio, Laura avista Moisés ao longe, procurando por ela. Imediatamente, ela entra em pânico e se esconde atrás de alguns arbustos. 

 

LAURA

- Ah, não!

(se escondendo)

- Preciso me amoitar, Giovana. 

GIOVANA

- Oxente que é Laura? 

LAURA

(escondida)

- Painho não pode me ver, Giovana. Agora direto ele vem aqui no colégio. Houve um dia que ele tentou me levar a força. Não sabe? Gritei, esperneei e saí correndo. 

GIOVANA

(olhando)

- Relaxe, viu? Acho que ele desistiu, voltou pro carro.

 

Laura respira aliviada e sai do esconderijo, retomando a conversa. 

 

GIOVANA

- Laura, não acha que seria o certo cê voltar pra casa dos seus pais? Conversa com sua mãe, nega. Depois conversa com seu pai e voltem a se entenderem. 

LAURA

– Nunca! E já deixei isso bem claro pra mainha. Não voltarei pra aquela casa de jeito nenhum. Mas tenho visto mainha, viu? Nós conversamos às escondidas, é claro. Essa foi a condição que impus. Se ela quisesse me ver, não poderia dizer nada pra ele... Eu odeio meu pai, viu Giovana? 

 

CENA 09/ INT/ CLÍNICA BIO IN VITRO/ RECEPÇÃO/ DIA 

Cássia estão revisando alguns documentos enquanto Jana arruma os papéis em sua mesa. As duas amigas aproveitam o momento para conversar. 

 

CÁSSIA

– E aí, nega! Cê nem me falou qual foi o resultado do exame. Já sabe o sexo da criança? 

JANA

– Sim.

(passando a mão na barriga)

- É a Maria que cresce aqui dentro de mim. 

 

Cássia sorri, demonstrando alegria e carinho pela amiga. Ela estende a mão e acaricia suavemente a barriga de Jana. 

 

CÁSSIA

– Que nome lindo! Tô muito feliz por você, viu minha linda? Cê sempre quis ser mãe de menina, né mesmo? E que Maria venha com muita saúde. 

JANA

– Amém! Já eu tô ansiosa por demais pra ver o rostinho dela. 

 

Enquanto Cássia e Jana conversam, Beatriz chega à recepção, cumprimentando as duas com um sorriso. 

 

BEATRIZ

– Bom dia meninas! 

JANE/JÉSSICA

– Bom dia doutora! 

 

Logo em seguida, uma criança entra na clínica segurando uma rosa branca e se dirige a Beatriz. 

 

CRIANÇA

(chamando)

- Dra. Beatriz! 

BEATRIZ

– Oxente, sou eu? 

CRIANÇA

(entregando a flor)

- É pra senhora. 

 

Beatriz recebe a rosa com um olhar surpreso, agradece à criança. 

 

BEATRIZ

(recebendo a flor)

- Obrigada meu amor!

 

A criança, satisfeita, sai correndo para fora da clínica. Beatriz observa a cena com uma expressão intrigada, olhando para a rua, mas não ver ninguém. Cássia, divertida, comenta sobre o gesto romântico. 

 

CÁSSIA

– Dra. Beatriz, hein! Balançando os corações. 

BEATRIZ

(fechando a cara)

– Um abusado que não tem o que fazer, resolveu ficar me mandando flores todos os dias.

(jogando no balcão da recepção)

- Pegue! Jogue no lixo pra mim, por gentileza. 

JANA

– Oh gente, que maldade! 

 

Beatriz deixa a flor na recepção e vai para sua sala. Cássia, compreendendo a delicadeza do gesto, decide não seguir a ordem de Beatriz. Em vez disso, pega a rosa e a coloca em um pequeno jarro, posicionando-o em cima do balcão. 

 

CÁSSIA

- Não vou jogar no lixo, não, vou é deixar ela bem aqui. 

JANA

- Oh Cássia, cê acha que foi Dr. Maurício que mandou essa flor pra ela? 

CÁSSIA

(pensativa)

- Cê acha que foi? 

JANA

- Não sei, ué. Ele ainda continua apaixonado por ela, né mesmo? 

CÁSSIA
- Continua. Mas sabe de uma coisa? Não tô nem aí pra eles dois. Deixe essa flor aí, assim eu lembro bem qual é meu lugar.

 

Cássia ainda estava ressentida pelo o que aconteceu entre ela e Maurício. Mas o que ela não estava se dando conta é que estava começando a nascer ali uma paixão por ele. 

 

CENA 10/INT/ LOJA DE QUEIJO/ DÉPOSITO/ DIA 

Maciel, Rato e Valdomiro estão reunidos, cercados por pilhas de queijos. Maciel, tenso e cauteloso, percorre o ambiente com olhares desconfiados, tocando de forma discreta o cabo de uma faca que carrega consigo. Rato, exibe um sorriso de satisfação enquanto permanece em pé junto a uma estante repleta de caixas de queijo. Valdomiro, encontra-se ao lado de uma balança de precisão. Ele pega um queijo recheado, coloca-o cuidadosamente na balança e observa o visor com atenção, verificando o peso. Depois faz anotações em um bloco de notas, conferindo minuciosamente cada detalhe. 

 

RATO

– Tá tudo pronto, a carga vai sair hoje. E a bolada vai entrar em nosso bolso em breve. 

 

Rato bate levemente nas caixas com os nós dos dedos, conferindo se estavam bem lacradas e seguras. 

 

MACIEL

(preocupado)

– E se a polícia parar o caminhão? Na fronteira, com certeza eles vão parar, né? Com cachorros treinados para procurar drogas e tudo. Isso vai dar merda. 

RATO

– Começou com a zinca! Pare de gorar, Maciel! Vai dá tudo certo, meu brother. Tenha fé. 

 

Enquanto Rato fala, ele se aproxima de uma das caixas de queijo e verifica se o lacre está intacto. Seu sorriso de confiança não abandona seu rosto. 

 

VALDOMIRO

(explicando)

– A empresa que vai fazer entrega é confiável, a gente deu um jeito de enfiar os nossos queijos no meio do queijo deles. Geralmente o caminhão costuma passar direto. Tá sabendo? Não faz nenhum tipo de vistoria não. Eles só olham a nota fiscal e libera o caminhão. 

MACIEL

– Mas venha cá, véi. Essa empresa que tá fazendo as entregas sabe do esquema? 

RATO

(virando-se para Maciel)

– Olhe bicho, tem hora que tu é jumento viu? Faz umas perguntas que dá-lhe paciência. 

MACIEL

– Qualé Rato tá me tirando? Tu nunca me explicou direito como é o esquema não, parceiro. Como cê quer que eu entenda? 

 

Maciel cruza os braços, franzindo levemente a testa enquanto esperava por uma resposta. Rato solta um suspiro exasperado, balançando a cabeça. 

 

RATO

– Já lhe expliquei, não só uma, mas diversas vezes. Mas sabe por que tu tá voando? Porque a tua mente tá lá naquela mina que é um atraso de vida pra tu, né? 

 

Maciel aperta os lábios, seu olhar fixo em Rato, apontando a faca enquanto fala. 

 

MACIEL

– Olhe, já lhe falei pra não meter Laura nessa história! 

VALDOMIRO

– Êpa! O que é mesmo? Vamos parar os dois? Deixa que eu lhe explico.  A empresa que tá fazendo as entregas dos queijos tá sendo laranja, nós tamo mocando os nossos queijos temperados no meio do queijo deles. Tá me acompanhando? Tem gente nossa lá dentro da empresa trabalhando e facilitando as coisas pro nosso lado. Entendeu agora?

 

Maciel, ainda tenso, relaxa um pouco os ombros, mas mantém uma expressão cautelosa. 

 

MACIEL

– Massa, agora explicou direitinho deu pra entender, né? 

 

Rato, animado com a reação de Maciel, dá um tapinha nas costas dele.

 

RATO

– Até que enfim. Tu acha o quê? Que a gente iria mandar um caminhão de qualquer jeito, lotado de queijo temperado? Se ligue, pae, tamo usando uma empresa de responsa, acostumada a fazer entrega em todo o mercosul.

(comemorando com olhos esperançosos)

- Logo logo meu bom, vamo tá com o bolsinho cheio de dinheiro. 

 

Maciel, Rato e Valdomiro olham um para o outro, a mistura de emoções visível em seus rostos. Todos estão felizes e ansiosos, mas ao mesmo tempo cientes dos riscos envolvidos.

 

CENA 11/ INT/ OFICINA DO JORGE/ TARDE 

Jorge e Roseno estão ocupados arrumando um carro na oficina enquanto conversam sobre o plano de conquista de Jorge. Roseno está inclinado sobre o capô do veículo, verificando o motor, enquanto Jorge segura algumas ferramentas e observa a movimentação.

 

JORGE

– Todos os dias uma flor, mandei entregar lá no apartamento dela. Hoje eu vi ela chegando na clínica, sabe? Mandei um moleque ir lá entregar  diretamente pra ela. 

 

Enquanto Jorge fala, ele olha de relance para o motor, verificando o trabalho de Roseno. Em seguida, pega uma chave inglesa e aperta um parafuso, concentrado na tarefa, mas animado na conversa.

 

ROSENO

– Mas o que cê tá querendo mesmo, Jorge? Cê acha que por causa disso ela vai ficar caidinha por cê, rapaz? 

 

Roseno levanta a cabeça balançado-a negativamente, olhando diretamente para Jorge, enquanto limpa as mãos em um pano próximo.

 

JORGE

– Que mulher que não gosta de flores, Roseno? Imagina então uma flor por dia. 

 

Enquanto Jorge fala, ele pega a chave inglesa como se fosse uma flor imaginária e faz um gesto de borrifar perfume nela, simulando o ato com os dedos, fazendo um gesto de oferecê-la a Roseno com um sorriso irônico.

 

JORGE

- Eu ainda borrifava um pouquinho do meu perfume na flor só pra ela sentir o meu cheiro. 

 

Em seguida, ele coloca a chave de volta na caixa e volta a segurar as ferramentas, preparando-se para continuar o trabalho. Roseno para um pouco o seu trabalho e olha Jorge, rindo das artimanhas do amigo.

 

ROSENO

(rindo)

– Meu amigo, cê já foi melhor nisso, viu? Quanto tempo aí galanteando essa mulher e nunca deu em nada. 

 

Roseno volta a trabalhar no motor do carro, pegando uma chave de fenda e apertando alguns parafusos. Ele balança a cabeça em desaprovação, mas mantém um olhar curioso enquanto ouve Jorge.

 

JORGE

– Essa é especial, meu caro Roseno. Tenho que ir devagar e conquistar meu espaço aos poucos. As outras eu só queria mesmo curtir, né? Com Dra. Beatriz é diferente, é uma mulher pra casar. Vou insistir até ter ela para mim. Cê vai ver.

 

Roseno solta um suspiro resignado, percebendo que não conseguiria dissuadir Jorge. 

 

ROSENO

– Só quero ver no que isso vai dá, viu? 

 

Enquanto Roseno fala, ele fecha o capô do carro, indicando que o trabalho está finalizado. Jorge se afasta do carro, limpando as mãos em um pano próximo. Ele começa a caminhar em direção à saída da oficina, exibindo um sorriso confiante enquanto se prepara para sair.

 

JORGE

– Chega de serviço por hoje! Vou tomar um banho, vestir uma beca e esperar ela sair lá na frente da clínica. Hoje é dia, hoje amarro essa mulher.

 

Roseno caminha em direção a Jorge, balançando a cabeça em desaprovação.

 

ROSENO

– Ei espera aí! Não é bem assim também não. Tem um monte de serviço aí pra terminar, e é pra entregar ainda hoje. Não dou conta disso tudo sozinho não, véi. 

 

Jorge dá um tapinha no ombro de Roseno, demonstrando sua empolgação enquanto sai. 

 

JORGE

(decidido)

– Relaxe homem! Inventa uma desculpa pro cliente, um caôr qualquer. Quero saber de carro não, vou é encontrar minha nega, viu? 

 

Enquanto a cena se encerrava, Jorge se afastava em direção à saída da oficina, com Roseno permanecendo ao lado do carro, olhando Jorge com uma expressão de indignação. O ambiente da oficina continuava movimentado, com outros veículos e ferramentas espalhados ao redor. 

 

CENA 12/ INT/ BOUTIQUE DA RAVENA/ TARDE 

A boutique de Ravena é um ambiente aconchegante e bem decorado. No fundo da loja, há um provador espaçoso com um grande espelho, onde a cliente se encontra, experimentando diferentes peças de roupa. Laura, está posicionada do lado de fora do provador, dobrando algumas roupas e aguardando pacientemente. A cliente abre a cortina do provador e sai, ainda vestindo a roupa que havia selecionado. Laura percebe a expressão de contentamento no rosto da cliente, aproxima-se com um sorriso caloroso. A cliente avalia seu reflexo no espelho de diferentes ângulos, girando e analisando cada detalhe das peças que veste. Laura acompanha atentamente os gestos da cliente, observando sua expressão e prontificando-se a ajudá-la. 

 

LAURA

(incentivando)

– Ficou muito bom no cê, viu. Se levar a blusinha e a calça, posso fazer um preço bem bacana. 

 

A cliente continua a se examinar no espelho, passando as mãos pelas peças, avaliando o caimento e a combinação. Seu olhar reflete sua decisão gradual de adquirir as roupas. 

 

CLIENTE

(decidida)

– Gostei, vou levar! 

LAURA

(satisfeita)

– Muito bem. Fez uma boa escolha.

 

A cliente volta ao provador para trocar as peças escolhidas por suas roupas anteriores. Pouco tempo depois, ela sai novamente, entregando as peças para Laura.

 

LAURA

– Tenha a gentileza de me acompanhar até o caixa. 

 

Laura e a cliente caminha lado a lado pela loja, observando os demais itens de moda e acessórios enquanto se dirigem ao caixa. A cliente olha ao redor com curiosidade, absorvendo a atmosfera da boutique, enquanto Laura a acompanha. Ao chegarem ao balcão, Ravena, recebe-as com um sorriso, pronta para auxiliar no processo de pagamento. 

 

LAURA

(virando-se para Ravena)

– Ela vai levar a blusa e a calça. Fiz pra ela aquele desconto especial da loja, tá certo? 

RAVENA

- Claro, tá certinho! A senhora fez uma boa compra. Será no dinheiro ou no cartão? 

CLIENTE

- Cartão de crédito. 

 

A cliente entrega seu cartão de crédito para Ravena, que o pegou delicadamente e o insere na maquininha de pagamento. 

 

RAVENA

- Prontinho, só digitar a senha.

(depois que a cliente termina)

 - Muito brigada, tenha um bom dia!

 

Ravena devolve o cartão para a cliente, concluindo a transação com profissionalismo e cortesia. Ao mesmo tempo, Laura, com a sacola contendo as roupas escolhidas, prepara-se para entregá-la à cliente. 

 

LAURA

(entregando a sacola)

- Aqui está! Muito obrigada, viu? 

 

A cliente recebe a sacola com um sorriso de gratidão, expressando sua satisfação pela experiência de compra. Após a saída da cliente, Ravena e Laura permanecem próximas ao caixa, envoltas em um breve momento de silêncio. 

 

RAVENA

(enfatizando)

- Vamos fazer um protesto amanhã em frente a delegacia. Tá sabendo? 

LAURA

– Sabia não! Que bacana, né? 

 

Ravena guarda a maquininha de cartão e depois encara Laura com seriedade. 

 

RAVENA

(explicando)

– Não sei se cê ouviu falar Laura, mas tá tendo um estuprador aqui em Salvador fazendo muitas vítimas.  Algumas delas criaram coragem em denunciar... E não podemos ficar caladas diante disso, né mesmo? 

LAURA

(assentindo com a cabeça)

– Sim, já ouvir falar.

(entusiasmada)

- E claro, cê tá certa. Não podemos ficar caladas, temos que fazer barulho. Mobilizar a galera e chamar a atenção das autoridades. 

 

Ravena solta um suspiro aliviado, percebendo o entusiasmo de Laura em relação à causa. 

 

RAVENA

(esperançosa)

– Bom ouvir cê falando assim. Isso significa que cê vai tá com a gente, né? 

 

Laura desvia o olhar, demonstrando certa insegurança. 

 

LAURA

(tentando se explicar)

- Ainda preciso ver direito, viu Ravena? Acontece que Maciel é todo grilado com essas coisas. Aí fica complicado pra mim, não sabe? 

 

Ravena franze a testa, desapontada com a resposta de Laura. 

 

RAVENA

– Claro, tá certa né? Esqueci que agora cê precisa pedir permissão pro seu marido. 

LAURA

(resignada)

– Não é uma questão de pedir permissão. É que eu e Maciel...

(desistindo de explicar)

- Deixe quieto, Ravena. Cê nunca vai entender. 

RAVENA

– Cê que não entende a gravidade da situação, Laura. Oh minha linda, se esforça pra ir com a gente amanhã, é importante. 

LAURA

– Tudo bem, vou ver direitinho. Cê já falou com Giovana?

 

Ravena sorri, satisfeita por ver Laura mais aberta à possibilidade de participar do protesto. 

 

RAVENA

(confiante)

– Liguei pra ela, mas ainda não consegui falar. Mas vou ligar de novo, tenho certeza que ela vai participar.

 

 

CENA 13/ EXT/ RUA/ EM FRENTE A CLÍNICA BIO IN VITRO/ TARDE 

Beatriz e Maurício caminham lado a lado, saindo da clínica, imersos em uma conversa animada, relembrando os velhos tempos. 

 

MAURÍCIO

- Cê anda com a vida tão corrida. Temos que marcar alguma coisa, como nos velhos tempos. Não acha? 

 

Beatriz olha para Maurício, pensativa. 

 

BEATRIZ

- Olhe Maurício, aquilo que acontecia nos velhos tempos cê sabe que não irá acontecer mais, né? 

MAURÍCIO

- Oxe, mas porque não? 

BEATRIZ

- Porque o que cê quer... 

 

As palavras de Beatriz são interrompidas quando ela vira o olhar e percebe Jorge do outro lado da rua. Seus olhos se arregalam subitamente, indignada com a presença dele. 

 

 BEATRIZ
- Ah não!
 

 

Maurício, ao seguir o olhar de Beatriz, nota Jorge do outro lado da rua e percebe o impacto que causou nela. 

 

MAURÍCIO

(entristecendo)

- Tá certo! Agora tô entendendo por que não pode, né? 

BEATRIZ

(se justificando)

- Não é nada disso, Maurício. Esse cara é um chato.

(indo até Jorge)

- Com licença aqui! 

 

Beatriz se afasta de Maurício, determinada a enfrentar a situação, e atravessa a rua em direção a Jorge. Enquanto se aproxima, seu semblante se torna sério e determinado. Jorge, com um sorriso largo no rosto, observa Beatriz se aproximando. Seus olhos brilham de expectativa. 

 

JORGE

- Gostou das flores? Sentiu o perfume que tinha nelas? É o meu cheirinho, viu? Todo especial pro cê lembrar de mim.

(entregando o buquê)

- Olha aqui, são pro cê. 

 

Beatriz olha para as flores com desdém, enquanto morde os lábios com raiva. 

 

BEATRIZ

- Já conheci gente abusada, não sabe? Mas cê supera. Cê acha o quê, que vou começar a me interessar por cê por causa de meia dúzia de flores? 

 

Jorge tenta manter seu sorriso confiante, mas uma leve decepção se faz presente em seu rosto. 

 

JORGE

- Não custa tentar, né? Pega as flores, trouxe pro cê. 

 

Beatriz cruza os braços, recusando as flores com um gesto negativo enquanto balança a cabeça. 

 

BEATRIZ

- Sabe o que vou fazer com essas flores? O mesmo que fiz com as outras, jogar na lata de lixo. 

JORGE

(frustrado)

- Não entendo cês mulheres. Vive reclamando da falta de romantismo dos homens, mas quando um tenta ser romântico é tratado com desprezo. 

 

Beatriz ergue o queixo, olhando Jorge nos olhos com uma expressão de superioridade. 

 

BEATRIZ
- Pelo o que vejo cê ainda tem muito o que aprender sobre nós mulheres.

(saindo)

- Agora me dê licença, tive um dia cheio. 

JORGE

- Espere! Dê-me uma chance. Vamos sair como dois amigos, tomar alguma coisa, fazer algo que cê goste. Só quero lhe conhecer melhor. E também poder ter a chance de me apresentar melhor pro cê.

(suplicando)

- Me dê uma chance, é só o que peço. 

 

Beatriz olha Jorge de cima abaixo. Pensa um pouco e resolve aceitar o convite pra sair. 

 

BEATRIZ

- Tá bem, acho que tô precisando me divertir um pouco. Mas já vou avisando, viu? Não tente nenhuma gracinha. 

JORGE

(comemorando)

- Não se preocupe, vou ser um lord. 

BEATRIZ

(rindo)

- Isso vai ser divertido! O que estamos esperando? Vamos...! 

 

Beatriz se dirige ao seu carro, enquanto Jorge fica confuso, pois pretendia ir em seu próprio carro. 

 

BEATRIZ

- No meu carro, meu anjo. Vá bem? 

JORGE

- Tudo bem, então! Depois eu peço pro Roseno vim buscar o meu. 

 

Ao longe, Maurício observa Beatriz saindo com Jorge e sente uma pontada de ciúmes.

 

CENA 14/ EXT/ PLANO GERAL 

De uma tarde ensolarada e movimentada em Salvador, a cidade se transforma à noite. As ruas iluminam-se, a música do axé enche o ar e os restaurantes à beira-mar ganham vida. 

 

CENA 15/ INT/ CASA DOS FERNANDES/ ESCRITÓRIO/ NOITE 

Genivaldo está sentado em sua mesa de trabalho, com diversas folhas de papel espalhadas, desenhos arquitetônicos e uma régua em suas mãos. Ele está focado em um projeto, traçando linhas precisas com um olhar concentrado. O escritório é organizado e bem iluminado, com prateleiras exibindo maquetes e livros de arquitetura. Nesse momento, Eliete adentra o escritório, aproximando-se de Genivaldo. Seus olhos percorrem o ambiente, observando os desenhos e as plantas arquitetônicas. 

 

ELIETE

(calma)

- Olá! Passou o dia todo trancado nesse escritório. 

 

Genivaldo ergue os olhos, tirando momentaneamente o foco de seu trabalho, e sorri ao ver Eliete. Ele guarda a régua e dá uma pausa em suas anotações. 

 

GENIVALDO

- É que tô meio enrolado com esse projeto aqui, preciso terminar logo. 

 

Eliete caminha em direção à escrivaninha, observando os papéis e os desenhos do projeto. 

 

ELIETE

- Coloque nas mãos de Deus que tudo vai dá certo.

(observando)

- Deixa-me ver, tá ficando muito bonito, viu? 

 

Genivaldo sorri com o elogio de Eliete, estranhando seu interesse genuíno pelo seu trabalho. 

 

GENIVALDO

- Obrigado. O cliente é bem exigente, mas acho que ele vai gostar.

(estranhando)

- Cê não é muito de vim aqui ver o meu trabalho. O que tá acontecendo? 

 

Eliete se aproxima mais da mesa, passando a mão suavemente sobre alguns dos papéis, demonstrando admiração pela dedicação de Genivaldo. 

 

ELIETE

- Carência, não sabe? Depois que Giovana foi lá pra casa de Janaína, me sinto só nessa casa. Aliás... Bom lembrar que cê fez muito mal em deixar Giovana ir pra lá. 

GENIVALDO

(suspirando fundo)

- Eliete, por favor, não comece, viu? Agora tô um pouco ocupado e também não quero discutir com cê sobre esse assunto. 

 

Eliete percebe a frustração de Genivaldo e baixa o olhar, sentindo-se incompreendida. Ela caminha até a janela, olhando para fora por um breve momento.

 

ELIETE

- Tá certo, cê tá certinho né? É isso que cê pensa sobre mim. Acha que tudo o que sei é discutir? 

GENIVALDO

(olhando sério para Eliete)

- Não. Acontece que cê não sabe respeitar a dor do outro. Será que cê não ver que Jana tá passando por um momento difícil? Ela tá grávida, Giovana lá vai ajudar a cuidar dela. Cê que se diz uma mulher de fé, vive por aí arrotando santidade, tem que aprender a ser mais solidária. 

ELIETE

- E sou uma mulher solidária, viu?

(apontando pra cima)

- Aquele que tá lá em cima sabe o esforço que faço para tentar converter essa família. Oh Genivaldo, cê esquece das coisas, né? Quando lhe conheci, cê já tinha essa filha, e eu já sabia muito bem como ela tinha sido gerada. Mas mesmo assim, criei como se fosse minha própria filha. E só recebi ingratidão. Quem sabe esses momentos difíceis não sejam uma forma que Deus encontrou pra ela encontrar a fé, né mesmo? 

GENIVALDO

- Talvez seja. Agora se me dê licença eu preciso terminar o meu trabalho. 

 

Eliete olha para Genivaldo com tristeza, desejando ter uma conexão mais profunda com ele. Ela assente e se afasta, caminhando em direção à porta. 

 

ELIETE

- Eu vim só avisar que a janta tá pronta. 

GENIVALDO

- Obrigado. Já tô indo lá. 

 

Genivaldo agradece, voltando sua atenção ao trabalho enquanto Eliete deixa o escritório, fechando a porta suavemente. 

 

CENA 16/ INT/ BARRACO DO MACIEL/ SALA/ NOITE 

No modesto barraco, Maciel e Laura estão sentados juntos no sofá, com a TV ligada. Maciel está concentrado em assistir ao programa, enquanto Laura está saboreando um pedaço de bolo de chocolate. O clima no ambiente é descontraído, com uma decoração simples, destacando-se a mesinha de centro com o jornal em cima. Laura, com um sorriso no rosto, pega o jornal que está em cima da mesinha de centro e se vira animada para Maciel. Ela o mostra, esperando que ele prestasse atenção. 

 

LAURA

- Humm, meu amor, olha só esse jornal. 

 

Maciel desvia sua atenção da TV para olhar o jornal que Laura lhe apresenta. 

 

MACIEL

- Que foi? Que é isso? 

 

Laura sorri empolgada, abrindo o jornal e exibindo uma matéria em destaque. 

 

LAURA

- É uma matéria sobre um tarado que tá atacando as mulheres aqui em Salvador... 

 

Maciel sente um arrepio percorrer sua espinha ao ouvir Laura falando sobre a matéria. Ele sabia que o jornal se refere a ele e teme ser descoberto. 

 

LAURA

- Ai diz, que as mulheres se juntaram e foram até a delegacia denunciar o sujeito. 

 

Maciel, tenta manter a calma, perguntando, averiguando. 

 

MACIEL

(nervoso)

- Vixe! E, venha cá... Elas elas têm alguma prova sobre o bandido? 

 

Laura pega um pedaço do bolo e dá uma mordida, sacudindo a cabeça negativamente. 

 

LAURA

- Infelizmente não.

(rindo)

- Mas o que achei tosco, sabe o que é? O retrato falado que eles fizeram. Dê uma olhada direitinho, e ver se essa caricatura não ficou parecendo contigo. 

 

Maciel, visivelmente nervoso, pega o jornal das mãos de Laura e olha atentamente para a caricatura. Seu rosto revela uma mistura de medo e lembranças perturbadoras. Ele começa a suar, enquanto as imagens dos estupros passam por sua mente. Maciel se levanta do sofá, tentando disfarçar sua agitação e esconder sua identificação com a caricatura. Ele se afasta um pouco de Laura, criando uma distância física entre eles. 

 

MACIEL

- Oxente Laura, tá azuada é? Nada a ver, moça. Isso aí não passa de um monte de rabisco. 

 

Laura dá outra mordida no bolo, tentando manter um clima descontraído. 

LAURA

(rindo)

- E eu não sei? Isso ficou foi muito mal feita... Mas também vamos considerar, parece que as mulheres não lembram direito do rosto do tarado. Mas olhe, achei muito parecido contigo, viu? Agora cê ver, esses retratos mal falados podem ser perigosos, né mesmo? Inocentes podem pagar por crimes que não cometeram. 

MACIEL

(se alterando)

- Tu para com isso, vá bem? Vai que alguém ouve e começa a me comparar com um bandido. 

LAURA

- Oh meu amor, me desculpe! Tô falando isso aqui entre nós. 

MACIEL

(saindo)

- Preciso ir, tenho uma entrega de queijo pra fazer.

 

Laura, percebendo que Maciel estava chateado, levanta-se do sofá e aproxima-se dele.

 

LAURA

- Cê ficou chateado, foi? Desculpe meu lindo, não quis te magoar não. 

MACIEL

- Claro que fiquei chateado! Olha os tipos de comparações que tu faz, moça.

 

Laura se sente confusa com a reação de Maciel, sem entender completamente o motivo de sua agitação. 

 

LAURA

- Mas que bobagem, Maciel. Já lhe pedi desculpas, não foi? 

MACIEL

- Tudo bem, deixa eu ir trabalhar. 

 

Maciel dá um beijo em Laura e sai apressado. Ela fica pensativa, ainda segurando o pedaço de bolo, sem entender ao certo o motivo pelo qual Maciel ficou tão nervoso. 

 

CENA 17/ INT/ CASA DA JANA/ QUARTO DA JANA/ NOITE 

Jana está sentada na cama segurando o ultrassom, com os olhos marejados de emoção, enquanto admira as imagens de sua filha. A porta se abre suavemente, revelando Giovana entrando no quarto, segurando um jornal nas mãos. 

 

GIOVANA

- Posso entrar, mana? 

JANA

(sorrindo)

- Claro, meu amor, venha cá! Sente aqui do meu lado.

(mostrando o ultrassom)

- Olhe, é uma menina! E já escolhi até o nome, vai se chamar Maria. 

 

Giovana se aproxima e se senta ao lado de Jana, admirando o ultrassom com carinho. 

 

GIOVANA

- Nossa Jana! Que perfeito, viu? Tô tão feliz por você. Isso sempre foi seu sonho, né? 

JANA

(acenando)

- Minha barriga aqui crescendo, esse exame aí... Mas olhe, mesmo assim, ainda parece que tô sonhando, viu? Acho que a minha ficha só vai cair quando tiver com minha filha em meus braços.

(observando o jornal no colo de Giovana)

- Mas o que é isso, hein? Que jornal é esse aí que cê trouxe? 

GIOVANA

- Ah, sim!... Um grupo de mulheres criaram coragem, e foram denunciar um estuprador que tem aqui em Salvador... 

 

Jana sente um nó na garganta ao ouvir Giovana falar sobre o estuprador. Ela se levanta da cama e fica de costas para a irmã, encarando a parede enquanto ouve atentamente suas palavras. 

 

GIOVANA

- Hem Jana, cê tem que criar coragem e se juntar a essas mulheres. Tá na hora de fazer justiça, né?

(mostrando o jornal)

- Olhe aqui, fizeram um retrato falado do estuprador. 

 

Jana sente seu coração acelerar com o toque de Giovana no assunto. Ela apenas desvia os olhos para o lado, observando o jornal. 

 

JANA
- Oxe, mas isso aí nem parece com ele.
 

GIOVANA

- Eu sei disso. E isso é mais um motivo pro cê ir lá. Cê se lembra bem do rosto dele, Jana. Oh, mana! Esse cara tem que ser preso pro cê e essas mulheres conseguirem viver mais tranquilas. E também, é claro, para impedir que ele cometa outros estupros por aí, né mesmo?... Amanhã, no horário de seu almoço, nós vamos à delegacia, viu? Depois que eu sair do colégio, passo lá na clínica e vamos juntas, tá certo? 

 

Jana pondera por um momento, refletindo sobre as palavras de Giovana. Após uma breve pausa, ela responde com determinação. 

 

JANA

- Cê está certa! Essa desgraça tem que ser preso pra eu criar a minha filha em paz. 

 

Ela abraça a irmã e as duas ficam abraçadas por um tempo, com os olhos cheios de lágrimas.

 

CENA 18/ EXT/ BECOS/ NOITE 

Maciel caminha furtivamente pelo beco, oculto sob um capuz que esconde sua identidade. Seus passos são silenciosos, acompanhando de perto uma moça que atravessa o beco com pressa. Ele a segue sorrateiramente, mantendo uma distância calculada. A moça, percebe sua presença, olha para trás, seu rosto expressa temor, e aumenta ainda mais o ritmo de seus passos. Maciel, determinado em sua perseguição, apressa-se também, mantendo-se um passo atrás dela.

A tensão no ar é palpável enquanto a moça vira uma esquina, procurando refúgio em uma tentativa desesperada de escapar. Maciel segue o mesmo trajeto, mantendo a determinação em seu objetivo. Porém, ao dobrar a esquina, ele se depara com Rato. 

 

RATO

(se aproximando de Maciel)

- E aí, meu brother! 

 

Maciel, momentaneamente surpreendido, recompõe-se rapidamente ao encontrar Rato. 

 

MACIEL

- Ave Maria que susto, Rato! 

 

Rato lança um olhar desconfiado em direção à mulher que escapa, voltando em seguida sua atenção para Maciel. 

 

RATO

- Venha cá véi, tá nervoso por que, hein? Diga aí? Cê tava indo de mão grande naquela dona ali, é? Te liga, que a grana que vamo ganhar é alta. Te suja por pouco não, viu? Venha comigo!

 

 

Rato coloca seu braço ao redor de Maciel, demonstrando intimidade. Maciel, após superar o susto inicial, pondera por um momento e, então, decide seguir Rato, lançando alguns olhares furtivos na direção em que a mulher desapareceu.




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