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VILAREJO - Capítulo 01 [Estreia]

 


Capítulo 01 (Estreia) 

Primeira Fase, São José dos Vilarejos, Sul do Brasil, 1868.

Música da Cena: Vilarejo - Marisa Monte

Cena 01 - Casarão D’ávilla (Sala de Estar) [Interna/Noite]

[Era noite na cidade de São José dos Vilarejos, um pacato vilarejo no Sul do Brasil. Apenas a luz do luar iluminava um grande canavial. Conforme a imagem área percorria a grande propriedade, logo surgiu um grande casarão iluminado a base de tochas. No interior do casarão, a sala de estar estava vazia, quando pode-se ouvir o ranger da madeira da larga escadaria no centro da sala, era Carlota que descia do pavimento superior da casa.]


CARLOTA: Idalina, Idalina! [Parou encostando-se no corrimão] - Onde será que se meteu essa infeliz? Idalina! [Grita mais alto].


IDALINA: [Adentra na sala, correndo] - Chamou, sinhá? [Pergunta esbaforida].


CARLOTA: - É claro que chamei, infeliz. Acaso terei que mandar te açoitar para você aprender a ouvir melhor? Da próxima vez em que eu te chamar e vosmecê não aparecer rapidamente, mandarei cortar as suas orelhas. Depois disso te jogo na rua, entendeu? Você vai morrer de fome, porque ninguém vai querer te comprar!


IDALINA: [Assusta-se] - Cruz, credo… Sinhá!


CARLOTA: [Termina de descer a escada e anda pela sala de estar] - Onde estão todos? Ninguém janta mais nessa casa?


IDALINA: - Sinhô Gonçalo tá no escritório mais o compadre dele. Sinhazinha Letícia está no quarto dela bordando e…


CARLOTA: [Interrompe a escrava] - E a outra, onde está? 


IDALINA: - Sinhá Catarina está lá pras bandas da senzala, cuidando do negro que foi açoitado por Zeferino.


CARLOTA: [Senta-se em um sofá acomodando o vestido] - Essa menina não vai mudar nunca, pode estar vestida de seda. Qualquer dia desses, eu mando açoita-la como uma negra, já que ela gosta tanto de estar entre eles. Bem e como estão os preparativos para a chegada do meu filho? Eu não quero que nada dê errado, entendeu estrupício? Agora vá… Eu já cansei de olhar pra essa sua cara feia! [Ordena gesticulando com as mãos, para que Idalina se retire]. - O que será que esses dois conversam? [Pergunta a si mesma olhando em direção à porta do escritório de Gonçalo].


Cena 02 - Casarão D’ávilla (Senzala) [Interna/Noite]

Música da Cena: Ecoou um canto forte na senzala - Roberto Souza

[Escravos percorriam a propriedade com um semblante de terror. Nesse momento, adentramos na senzala do local, onde há um grupo de escravos observando um deles que está caído no chão, após ser açoitado]


ROSAURA: [Adentra a senzala e cruza em meio aos escravos] - Cadê, cadê? Io sabia que ia encontrar vassuncê aqui, sinhazinha! [Disse ao constatar a presença de Ana Catarina fazendo compressa com panos úmidos na testa do escravo ferido].


ANA CATARINA: - Onde mais eu estaria? Pode passar uma vida inteira, que eu não hei de aceitar o que fazem com esses escravos. Eles não podem continuar sendo tratados assim, nem bicho merece tanta violência. [Disse enquanto parou a compressa para espremer um pouco do pedaço de pano, a fim de tirar o excesso de umidade].


ROSAURA: - Mas sinhá, Dona Carlota não há de gostar que vassuncê esteja misturada com os negros. Foi ela quem mandou Zeferino dar cinquenta chibatadas nesse pobre moço. Tudo isso, porque Zeferino cismou em mentir que ele estava roubando.


ANA CATARINA: [Começa a colocar folhas amassadas nos ferimentos do escravo] - Eu não entendo como o meu pai, um homem tão bom pode continuar casado com uma mulher dessas, tão vil. Ela nunca gostou dele, nem da minha irmã ou de mim. Ela só se importa com o poder e o dinheiro. Acho que nem do filho dela deve gostar!


ROSAURA: - Sinhozinho Antônio? [Pergunta curiosa].


ANA CATARINA: [Olha para Rosaura] - E por um acaso existe por essas bandas um outro homem tão mequetrefe como aquele? Dúvido que Deus tenha tido tanto sacrilégio. [Conclui].


Cena 03 - Casa das Cortesãs, Rio de Janeiro [Interna/Noite]

[Um grupo de mulheres dançavam cancan, um ritmo tipicamente francês, enquanto um grupo de homens as observava.]



JOAQUIM: - Isso é que é vida! Um brinde, meu amigo. Um brinde! [Diz ao brindar com um cálice de vinho].

ANTÔNIO: - Brindo a minha partida, pois em breve estarei retornando ao fim do mundo onde minha família mora. [Bebe um gole de vinho].


JOAQUIM: - Onde é mesmo que eles moram? Eu só me recordo que ficas para o Sul do Brasil.


ANTÔNIO: - São José dos Vilarejos… A terra onde habitam as mais belas senhoras!


JOAQUIM: - Ih, eu já entendi tudo, meu nobre cavalheiro. Está se referindo a irmãzinha postiça. Estou certo?


ANTÔNIO: - Ana Catarina D’ávilla, a mais bela flor daquele vilarejo. Faz muitos anos que não a vejo. Às vezes me pego fechando os olhos e tentando imaginar como estará o seu rosto. Será que ela ainda se lembra de mim? Ela implicava tanto comigo, dizia que eu não passava de um “bon-vivant”. 


Cena 04 - Casarão D’ávilla (Sala de Estar) [Interna/Noite]

[Após constatar que de fato estava sozinha na sala de estar, Carlota levantou-se do sofá onde estava, sorrateiramente, caminhando pela sala sem fazer muito barulho. Até que se aproximou da porta onde estava o escritório, colocando-se a ouvir a conversa.]



JUVENAL: - Então quer dizer que já está tudo certo para viagem? [Questiona enquanto acende um charuto].


GONÇALO: - Está sim, só o que me preocupa é ter que deixar as minhas meninas sozinhas durante o tempo que estarei fora.


JUVENAL: - E porque não as leva consigo? Tenho certeza que sair do engenho para conhecer a capital seria o sonho de toda moça na mesma idade de Catarina e Letícia. Carlota então, com certeza iria se esbanjar com as modistas e traria meio Rio de Janeiros em vestidos!

GONÇALO: - Eu pensei nisso, mas a Carlota não pensa em outra coisa a não ser na chegada do meu enteado. Ele está estudando direito, já deveria ter se formado, é muito mimado pela mãe, deu nisso.


JUVENAL: - Você já decidiu se irá incluí-lo em seu testamento como seu herdeiro?


GONÇALO: - Eu já me decidi e não irei tirar das minhas filhas a fortuna que tanto batalhei para construir. O que é delas, é delas e ninguém tasca. Claro, não vou deixá-los desamparados quando um dia eu tiver que partir, mas a maior soma de tudo, ficará para Ana Catarina e Maria Letícia.


CARLOTA: - Maldito infeliz, quem melhor administraria toda essa fortuna se não eu e o meu filho? [Murmura sem perceber que alguém se aproxima].


MARIA LETÍCIA: - Falando sozinha, minha madrasta? [Pergunta do alto da escada, surpreendendo Carlota].    


Cena 05 - Engenho (Campo) [Externa/Noite]

Música da Cena: Rosa - Fagner

[Montada em um dos cavalos do engenho, Ana Catarina galopou pelos campos do engenho para apreciar a noite e desanuviar um pouco dos últimos acontecimentos, aproximando-se do acampamento cigano.]


ANA CATARINA: [Segura as rédeas do cavalo, fazendo com que o mesmo acalme-se. Em seguida observa o luar]. 


[De longe, o jovem cigano Vladimir a observava com um olhar apaixonado.]


MADALENA: - O que vosmecê faz olhando tanto para essa xaborrí, Vladimir? Ela não é uma de nós, tem muita prata. Seu pai jamais permitiria sangue de gají na família! Maldita será a sua sorte se deixar levar por esse instinto mal. Seu destino está cruzado com o de minha neta, Açucena. Juntos, vocês serão os novos reis dos ciganos!

Tradução: Xaborrí = Menina.

Tradução: Gají = Mulher não cigana.


VLADIMIR: - O que eu sinto em meu coração, só diz respeito a mim e não ao povo do acampamento, Madalena. Agora vê se não me amola! [Vai embora, deixando Madalena sozinha].


MADALENA: [Cerra os olhos, tentando observar melhor através da escuridão] - Essa gají já tem o destino traçado! [Fala consigo mesma].


Cena 06 - Casarão D’ávilla (Sala de Estar) [Interna/Noite]

[Após retornar para casa do seu passeio, Ana Catarina deixou o cavalo em um estábulo e subiu a escadaria que dava acesso ao interior da casa, adentrando na propriedade.]


ROSAURA: [Corre em direção a porta] - Menina, como você demorou. Já estava preocupada com vassuncê!


ANA CATARINA: [Acaricia o rosto de Rosaura] - Eu estou bem, bá! Todos já jantaram?


CARLOTA: - Certamente! [Respondeu ao se aproximar]. - O seu pai foi dormir chateado com o seu sumiço. Os seus modos não nos agradam, Ana Catarina. Você não pode continuar agindo com hábitos libertinos, você não é um rapaz.


ANA CATARINA: [Sorri ironicamente] - Eu tenho plena certeza de que não sou um rapaz. Porém, eu gosto de liberdade e nem você, nem o meu pai e nem essa sociedade hipócrita desse vilarejo vão me fazer mudar o meu jeito de ser. [Começa a subir a escada].


CARLOTA: [Se aproxima da escada] - Desse jeito, nenhum rapaz de São José dos Vilarejos irá te fazer a corte, minha enteada. Vai acabar solteira e seca! [Diz com ironia].


ANA CATARINA: [Vira-se e encara Carlota] - Ora só, veja minha querida madrasta. Nessa cidade, eu conheço mulheres que por mais que tenham feito bons casamentos, continuam secas e vazias por dentro. Existe um caso bem próximo, inclusive. Com licença! [Continua subindo e se retira].


[Ana Catarina caminha por um extenso corredor e abre uma das portas. Ao adentrar em um dos quartos, encontra Maria Letícia em uma das camas, folheando um livro de poesia.]


MARIA LETÍCIA: [Fecha o livro] - Até que enfim apareceu, minha irmã. Onde esteve durante toda a tarde? O nosso pai perguntou por vosmecê. 


ANA CATARINA: [Senta-se na cama e tira as botas] - Por aí… Tentando consertar tantas injustiças!


MARIA CATARINA: Aposto que estava na senzala, não é?


ANA CATARINA: Certamente! Açoitaram mais um escravo como se ele fosse um animal, deixaram feridas em carne viva nas costas dele. Não podia ficar de braços cruzados, vosmecê deveria me ajudar a convencer o nosso pai a libertá-lo, seria muito melhor. Me ajuda! [Diz ao se aproximar da irmã para que ela solte as cordas do seu espartilho].


MARIA LETÍCIA: [Desata o nó do espartilho e começa a folgá-lo] - Vosmecê e essas ideias abolicionistas inspiradas na corte. Papai não gosta desse tipo de conversas, minha irmã. Agora eu quero falar sobre outra coisa… Quero muito que me acompanhe amanhã. Tem um lugar que eu não gostaria de ir sozinha!


ANA CATARINA: [Tira o espartilho] - Lugar? Porque não vai com Rosaura ou uma das mucamas? [Questiona ao observar a irmã refletida no espelho da penteadeira].


MARIA LETÍCIA: [Fica corada] - Porque são coisas íntimas. Soube que no acampamento cigano tem uma velha senhora que adivinha o futuro e eu quero…


ANA CATARINA: [Interrompe a irmã] - Ah não, não, não… Pode parar, que eu já entendi tudo. Eu não vou me enfiar num acampamento cigano para ouvir uma charlatã soltar falácias em troca de moedas de prata.


MARIA LETÍCIA: [Levanta-se da cama e se aproxima da irmã que está sentada de frente para a penteadeira] - Vamos, por mim… Eu quero saber se vou encontrar um bom marido, se serei feliz e terei muitos filhos. Acaso não tens interesse em saber o que o futuro lhe reserva? Fiquei sabendo que ela é muito boa nisso, vai que ela diz que no seu futuro tem um grande amor à sua espera.


ANA CATARINA: - Grande amor? [Repete pensativa]. - Que bobagem, minha irmã. Está bem, vosmecê conseguiu. Eu irei com você amanhã, ver o que essa tal cigana tem a dizer. Agora me deixe descansar, que estou esfalfada. [Conclui reflexiva, deixando Maria Letícia em polvorosa].


Cena 07 - Estação de Trem (Rio de Janeiro) [Externa/Manhã]

Música da cena: Apesar de Você - Chico Buarque

[O dia amanhece e mostra a extensão dos campos onde estão os canaviais do engenho. Em seguida, há uma transição de cenas e podemos ver uma cidade mais desenvolvida, trata-se da capital do Brasil, a cidade do Rio de Janeiro. Do lado de fora da estação de trem, ouve-se as locomotivas preparando-se para partir.]


JOAQUIM: - Então é isso, você vai mesmo embora! [Diz enquanto observa as pessoas entrarem no trem].


ANTÔNIO: - É isso, agora não tem mais jeito. Eu vou mesmo voltar para São José dos Vilarejos, pelo menos por enquanto. Vamos ver as surpresas que aquele lugar me reserva. Agora venha me dar um abraço, velho amigo! [Responde ao abrir os braços].


JOAQUIM: - Faça uma boa viagem, meu caro amigo. Espero que corra tudo bem! [Abraça Antônio e lhe entrega uma mala]. - Boa sorte com a sua irmãzinha, você vai precisar.


ANTÔNIO: - Veremos, meu amigo. Veremos… Agora eu tenho que ir, o apito já soou pela segunda vez, devo me acomodar em uma das poltronas. A viagem será longa. Adeus! [Despede-se e em seguida entra na locomotiva, acomodando-se em uma das poltronas].


Cena 08 - Acampamento Cigano [Externa/Manhã]

[Após caminharem brevemente pela divisa da fazenda, Maria Letícia e Ana Catarina logo se aproximaram do local onde estava o acampamento dos ciganos.]


MARIA LETÍCIA: - Vamos, Ana Catarina. Mude essa cara, agora não é mais hora para desistir. Já estamos chegando! [Diz ao arrastar a irmã pelo braço].


ANA CATARINA: - Eu não sei, acho que não fizemos bem em vir até aqui. Vamos voltar!


[Nesse momento, Madalena abre as cortinas de uma tenda bruscamente e se apresenta às irmãs].


MADALENA: - Bendita seja a sorte das duas. Eu já sabia que viriam, podem entrar, eu não mordo. Aposto que existem muitas coisas bonitas na linha do destino dessas belas xaborrís. Vamos entrando, vamos… Custa apenas algumas moedas! [Diz ao dar passagem para que as duas entrem na tenda].

Tradução: Xaborrí = Menina.


ANA CATARINA: - Eu acho melhor irmos embora, Letícia.


MARIA LETÍCIA: - Catarina…


MADALENA: - A xaborrí está com medo do que o futuro lhe reserva ou que eu seja uma enganadora? Entre e verá se estou certa ou não.


[Ana Catarina e Maria Letícia se olham por um breve momento e em seguida entram na tenda].


MADALENA: [Acomoda-se em uma das cadeiras e coloca um jogo de cartas em cima da mesa] - Acomode-se, senhorita e parta em 3 blocos, faça o favor.


ANA CATARINA: [Encara Madalena, olha para Letícia e em seguida senta-se na cadeira, fazendo o que a cigana orientou].


MADALENA: [Fecha os olhos e esfrega as duas mãos. Em seguida, reabre os olhos e vira a primeira carta de cada bloco, enquanto Letícia as observa]. - Eu vejo um gadjó no seu destino…

Tradução: Gadjó = Homem.


ANA CATARINA: - Eu sabia, Letícia… [Levanta-se bruscamente]. - Essa mulher é uma…


MARIA LETÍCIA: - Catarina! [Repreende a irmã].


MADALENA: - Eu vejo outro gadjó nesta outra carta. Só que o primeiro é mais jovem e nessa outra é um homem mais velho, mas muito barbaló. Cheio de moedas! Agora na terceira carta, isso aqui não é bom…

Tradução: Barbaló = Rico.


MARIA LETÍCIA: [Gesticula para que a irmã sente].


MADALENA: - Esta é a carta da morte. Você vai sofrer muito, xaborrí. Tem um rastro de sangue, mentiras e intrigas no seu destino. Tenha muito cuidado!


ANA CATARINA: [Observa a cigana com um olhar aterrorizado].



Cena 09 - Cachoeira [Externa/Manhã]

Música da cena: Além do Paraíso - Antônio Villeroy

[Sozinha, Carlota caminha pela floresta rumo a trilha que a levaria para as imediações de onde estava uma cachoeira. Conforme se aproximava da margem, encontrava alguns trajes humildes de roupas].


CARLOTA: [Observa um homem despido, tomando banho de rio].


ZEFERINO: [Nota que está sendo observado e completamente nu, deixa a água, retornando a margem] - Eu sabia que vassuncê iria vir. Não quer se refrescar também? A água está uma delícia.


CARLOTA: [Olha o capitão do mato de cima a baixo com um semblante malicioso] - Hoje não, agora vista-se. Quero lhe fazer uma proposta e saber o quanto vosmecê é fiel a sua senhora.


ZEFERINO: Eu estou bem assim. Pode dizer o que deseja, a sinhá manda em tudo e nois obedece!


CARLOTA: [Dá a volta e fica atrás do capitão do mato] - Do que você seria capaz por uma bela quantia em dinheiro?


ZEFERINO: Eu diria que tudo, sinhá. Principalmente se for pra ajudar vassuncê! [Responde em tom malicioso].


CARLOTA: Tudo, até mesmo dar cabo em alguém? [Dá alguns passos e fica frente a frente ao capitão do mato].


ZEFERINO: Tudo, sinhá. Tudo! [Conclui].


CARLOTA: Exatamente como pensei. Algo me diz que iremos nos dar muito bem, Zeferino. [Olha novamente o escravo de cima a baixo].


ZEFERINO: Eu tenho certeza que sim, sinhá. Eu sei do que vassuncê precisa e se me permite! [Agarra Carlota e a beija a força].


[Carlota não resiste ao beijo e envolve os dois braços em volta da nuca do escravo. Os dois dão alguns passos e caem na água].



Cena 10 - Acampamento Cigano [Externa/Tarde]

Música da cena: Flor de Lis - Melim

(Imagens aéreas mostram as paisagens da cidade, florestas e montanhas cobertas de vegetação. Em seguida, surge a área externa do acampamento cigano. É nesse momento que Ana Catarina deixa a tenda de Madalena completamente furiosa e de forma brusca, acompanhada da irmã, Maria Letícia.]


MARIA LETÍCIA: - Espera, Catarina! Onde você vai? [Sai tentando alcançar a irmã].


ANA CATARINA: - Compreendes agora porque não deveríamos ter vindo? Acaso eu não lhe disse inúmeras vezes? Essa gente mente em troca de algumas moedas de prata. “Homem bonito, morte…” [murmura debochando]. - Até parece!


[Ao fundo ouve-se o apito de uma locomotiva se aproximar].


VLADIMIR: - Eu acho que a xaborrí está muito enganada. O meu povo não é acostumado a mentir como disse. [Fala ao se aproximar].

Tradução: Xaborrí = Menina.


ANA CATARINA: [Vira-se e encara Vladimir] - E vosmecê, quem é? Certamente não sabe que é feio ouvir e interferir na prosa alheia? [Questiona enfurecida].


Cena 11 - Casarão D’ávilla (Sala de Estar) [Interna/Tarde]

(Desconfiada e tentando disfarçar que estava molhada e com os cabelos ainda úmidos, Carlota adentrou em casa apressadamente, ignorando Idalina].


IDALINA: - Espera, sinhá… Tenho que te dar um recado! [Anda apressada, atrás de Carlota].


CARLOTA: - Agora não, estrupício. Não vê que estou toda desarrumada? Preciso me trocar antes que me vejam assim… [Sobe a escada, enrolando o cabelo para tirar o excesso de umidade].


IDALINA: - Mas é que…


GONÇALO: - Está molhada e de cabelo úmido. Acaso caiu dentro do rio, minha esposa? [Pergunta ao surgir no alto da escada, interrompendo Idalina].


CARLOTA: [Surpreende-se] - Gonçalo…


GONÇALO: O que foi, Carlota? Certamente um gato não há de ter comido a vossa língua. Eu quero saber agora mesmo, de onde está vindo e com quem estava? [Questiona seriamente, deixando Carlota nervorsa].


Cena 12 - Campo [Externa/Tarde]

Música da cena: Mil Noites de Um Amor Sem Fim - Silva

(Aos poucos o trem era impulsionado a cidade de São José dos Vilarejos. Com o longo trajeto, Antônio acabara adormecendo].


ANTÔNIO: [Desperta de um cochilo e se acomoda melhor na cadeira onde estava sentado. Em seguida alinha o chapéu e observa a paisagem local] - Voltei… Eu voltei São José dos Vilarejos! [Fala consigo mesmo].


[Nesse momento, Antônio nota dois homens parados conversando e olhando fixamente para um dos passageiros.]


AUXILIAR DE MAQUINISTA: - É ele, eu tenho certeza. Ele é o escravo fujão! [Refere-se a um passageiro negro, sentado logo atrás de Antônio].


GUARDA: - Ora, certamente é. Onde já se viu, preto viajando de trem e ainda por cima de primeira classe? Vou falar com ele! [Resmunga].


AUXILIAR DE MAQUINISTA: [Aproxima-se do passageiro rapidamente] - Ei, vosmecê!


GUARDA: - Vosmecê terá de me acompanhar, negro fujão! [Fala rispidamente].


ANTÔNIO: - Espera, o senhor não pode abusar da sua autoridade assim. Como quer prender este homem, sem sequer conferir se ele é o foragido que procura? Nem ao menos perguntou como ele se chama, como sabe que ele não é um escravo alforriado? Se ele for alforriado, ele tem todo direito de estar aqui, como qualquer um de nós passageiros.


GUARDA: - E o senhor por acaso o conhece para sair em sua defesa?


ESCRAVO: [Levanta-se bruscamente e começa a fugir pelo corredor, derrubando bagagens pelo corredor, a fim de dificultar a passagem].


[O guarda e o auxiliar de maquinista começam a perseguir o escravo fugitivo, enquanto Antônio corre logo atrás para tentar ajudá-lo. Enquanto isso, nas imediações, Ana Catarina e Vladimir continuavam discutindo.]


VLADIMIR: - Eu acho que a xaborrí está sendo muito preconceituosa no que diz. Nem todos os ciganos são mentirosos, acontece que alguns mancham nossa imagem que os fidalgos têm de nós.

Tradução: Xaborrí = Menina.


ANA CATARINA: - Então como vosmecê explica tanta baboseira que aquela velha cigana disse? [Questiona irritada].


[Nesse momento, ouvem-se alguns disparos de arma de fogo, o barulho se confunde com o apito da locomotiva cada vez mais próximo e gritos abafados.]


MARIA LETÍCIA: - Isso é som de tiro! [Constata preocupada].


ANA CATARINA: - E vem do trem! [Confirma ao perceber que alguns passageiros tentam saltar do trem em movimento]. - Eu preciso saber o que está acontecendo…


MARIA LETÍCIA: - Não, Catarina. Eu não vou deixar vosmecê fazer mais essa loucura, minha irmã. Nosso pai não há de gostar de tamanha desfaçatez! [Responde tentando conter a irmã em vão].


ANA CATARINA: [Olha ao redor no que pode pegar para ajudar e logo enxerga uma carroça] - Convenhamos, minha irmã… Eu não sou o tipo de filha princesinha que o meu pai tanto sonhou. Eu vou até lá e não irei esperar mais! [Afirma subindo na carroça e se preparando para puxar as rédeas do cavalo].


VLADIMIR: - Ei… Essa carroça não é sua, desça já daí, xaborrí! [Grita].

Tradução: Xaborrí = Menina.


ANA CATARINA: - Considere como um empréstimo, meu caro cigano. Certamente irei devolvê-la, não se preocupe. Vai! [Grita ao puxar as rédeas para trás, fazendo com que o cavalo corra puxando a carroça].


Música da cena: Amor Gitano - Beyoncé ft. Alejandro Fernández


VLADIMIR: - Ah, mas essa gají atrevida não há de levar a minha carroça! [Afirma e em seguida monta em um cavalo, começando a perseguir Ana Catarina].

Tradução: Gají = Mulher não cigana.


MARIA LETÍCIA: [Observa os dois se afastarem e segura com força um crucifixo pendurado em seu próprio pescoço] - Meu São José, protegei a desvairada de todos os males. Nosso pai não pode saber disso! [Conclui].


[Ana Catarina continuava guiando o cavalo em alta velocidade na carroça, onde ficava cada vez mais próxima ao trem, enquanto isso, logo atrás e a galope, Vladimir tentava alcançá-la. Já dentro do trem, o escravo continuava tentando fugir, enquanto era perseguido.]


GUARDA: [Busca entre os passageiros do segundo vagão pelo escravo] - Onde será que se meteu esse negro fujão?


[No terceiro vagão, Antônio adentrou esbaforido e suado após tanto correr, no intuito de ajudar o escravo a escapar].


ANTÔNIO: [Caminha apressado pelo corredor, buscando o escravo com o olhar. Em seguida adentra na área de cargas e bagagens, derrubando algumas malas e caixas, até encontrar quem procurava] - Ah, aí está vosmecê!


ESCRAVO: [Olha para Antônio aterrorizado].


ANTÔNIO: - Calma, eu não vou te fazer mal. Eu vou te ajudar… Vamos! [Estende a mão para o escravo].


[Do lado de fora, Ana Catarina chegava cada vez mais próximo do trem, quando percebeu que estava sendo perseguida].


ANA CATARINA: [Olha para trás e percebe a presença de Vladimir] - Mas o que esse doidivana pensa que está fazendo? [Grita].


VLADIMIR: - Recuperando o que é do meu povo. Depois os ladrões somos nós! [Grita de volta].


[Nesse momento, Antônio chuta uma porta de emergência, dando de cara com a área externa, encontrando Ana Catarina e Vladimir.]


ANTÔNIO: - Precisamos de ajuda!


ANA CATARINA: [Encara Antônio e ao escravo] - Pulem para cá, eu vou ajudá-los!


ANTÔNIO: [Olha para o escravo] - Vosmecê acha que consegue alcançar a carroça?


ESCRAVO: [Balança com a cabeça, respondendo que sim].


ANTÔNIO: - Então primeiro vai vosmecê… No três! [Prepara-se antes de começar a contagem]. - Um, dois, três! [Grita].


VLADIMIR: [Observa surpreso] - Mas o que esses dois quebra-louças estão fazendo!


ESCRAVO: [Pula e consegue cair na parte traseira da carroça].


ANA CATARINA: [Grita com Antônio] - Agora você, vamos! 


ANTÔNIO: [Observa a carroça com um semblante pensativo, se deve pular ou não].


ANA CATARINA: - Vamos, seu borra-botas, acaso está com medo? [Grita com Antônio].


ANTÔNIO: - Claro que não, sua atrevida! Acaso não pensou que se fugirmos sem despistá-los, eles irão através dele e irão prendê-los? Preciso ficar aqui para distraí-los!


ANA CATARINA: [Pensa rapidamente e encara Antônio] - Já sei, tive uma ideia. Vosmecê, segure as rédeas… E o senhor, já que se meteu nessa confusão tanto quanto nós, vai ajudá-lo a se esconder! [Fala com o escravo e Vladimir]. - Agora vosmecê, me ajude! [Levanta-se com a carroça em alta velocidade e estende a mão para Antônio].


ANTÔNIO: [Surpreende-se] - Acaso a senhorita não bate bem na caixola? O que pensa que está fazendo?


ANA CATARINA: [Continua em pé estendendo a mão para Antônio] - Acaso quer ou não despistar os guardas?


ANTÔNIO: [Segura a mão de Ana Catarina e a puxa para o trem].


[Os dois ao se seguarem, se abraçam instantaneamente para que ela não caia. Enquanto isso, Vladimir guia a direção para onde o escravo deve seguir.]


AUXILIAR DE MAQUINISTA: [Entra na área de cargas e bagagens acompanhado do guarda e percebe que tudo está fora do lugar] - O negro fujão deve ter passado por aqui… Vamos! [Grita e corre em direção a saída de emergência].


[O guarda e o auxiliar de maquinistas correm em direção à saída de emergência e ao abrirem a porta, deparam-se com Antônio e Ana Catarina juntos, fingindo que estão conversando naturalmente].


ANTÔNIO: [Beija Ana Catarina de supetão, para despistá-los].


[A imagem congela com os dois se beijando, surge um efeito de uma pintura envelhecida e o capítulo se encerra].


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