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VILAREJO - Capítulo 09



Capítulo 09

Cena 01 - Castelo Coimbra (Burgos, Espanha) [Interna/Tarde]

[Após encontrar Álvaro desmaiado, Ana Catarina logo deu um jeito de avisar a Miguel, o médico e amigo da família que veio examiná-lo novamente].


ANA CATARINA: [Caminha de um lado para o outro do lado de fora do quarto, aflita por não ter notícias do marido].


MIGUEL: [Sai do quarto com uma expressão séria].


ANA CATARINA: - E então, Miguel. Como ele está? Eu posso vê-lo? [Questiona aflita].


MIGUEL: - Ana Catarina, infelizmente as notícias não são boas. Cumpriram-se os meus prognósticos. O estado de saúde do Álvaro evoluiu para uma tuberculose extremamente avançada e não há mais o que fazer. Eu sinto muito! [Diz sem jeito].


ANA CATARINA: - Não. Não pode ser, meu Deus… Ele não, ele não! [Abraça Miguel aos prantos].


Cena 02 - Casarão D’ávilla (Quarto de Carlota) [Interna/Tarde]

Música da cena: Além do Paraíso - Antônio Villeroy

[Com a transição de cena, surge o quarto de Carlota. Pelo chão, podemos ver várias peças de roupas jogadas pelo piso. Enquanto isso, Carlota e Zeferino se beijavam ardentemente].


CARLOTA: - Já chega, vosmecê precisa ir. O meu filho está em casa, ele pode nos ver!


ZEFERINO: - Io não resisto a esse seu cheiro, minha sinhá. O seu filho não vai vir aqui, não. Vamos aproveitar mais um pouquinho! [Beija o pescoço de Carlota].

CARLOTA: - Eu não posso me demorar, preciso ir ao banco. As coisas não vão bem por lá, estou ficando preocupada. Tive problemas com alguns investidores e agora estou com algumas pendências.


ZEFERINO: - Ah, mas vassuncê não há de se preocupar com isso. O banco tem muito dinheiro e também a fazenda…


CARLOTA: [Se afasta bruscamente] - Antes fosse! O banco não têm me dado lucro nos últimos anos, tive que hipotecar a fazenda para manter o nosso padrão de vida nos últimos anos. Minha esperança agora está no Antônio, meu maior investimento. O meu filho há de fazer um bom casamento, com a Laura. Uma moça não tão rica quanto eu esperava, mas que já vai dar para desafogar a nossa situação apertada.


ZEFERINO: - Então o casamento do Antônio com a sinhazinha Laura já é coisa certa? [Pergunta curioso].


CARLOTA: - Praticamente, basta que o meu filho se decida e marque logo a data. O Antônio não pode me desapontar… A não ser que arrume uma noiva mais rica! [Responde às gargalhadas e em seguida beija Zeferino novamente].


Cena 03 - Casa dos Lobato [Interna/Tarde]

[Furiosa, Laura arremessou um vaso contra a parede da sala de estar da casa onde morava com a família.]


GRAÇA: - Não, não, não… Meu limoge! Você sabe o quanto custou esse vaso, sua doidivanas? Por que fez isso? [Pergunta juntando os cacos do vaso].


LAURA: - Ele não marcou a data! Eu pensei que a viagem à capital faria o Antônio amadurecer, mas eu não sei mais o que fazer. Ele continua me engabelando e não marca a data do nosso casamento. Já sou motivo de maledicências no vilarejo, uma verdadeira piada. Precisamos fazer alguma coisa! [Reclama].


GRAÇA: - Não, não e não! Vosmecê não vai comer a sobremesa antes do jantar. Já pensou nos comentários? Seríamos o alvo de comentários de todo o vilarejo e eu não admito esse tipo de postura, principalmente da minha filha. Eu vou ter uma conversa com Carlota, de mãe para mãe. Vosmecê verá, certamente terei bons resultados. O casamento de vocês já é certo e será um grande acontecimento perante a nossa sociedade. A família Lobato junta sua fortuna à da família D’ávilla. [Fala sonhando acordada].


LAURA: [Suspira chateada] - Assim espero, mamãe. Assim espero!


Cena 04 - Castelo Coimbra (Burgos, Espanha) [Interna/Noite]

[Tentando ser forte e passar confiança para Álvaro, Ana Catarina secou as lágrimas antes de se aproximar do marido.]


ÁLVARO: [Tosse e respira com dificuldade] - Ana Catarina, é vosmecê? [Pergunta ao ouvir passos].


ANA CATARINA: - Sim, meu marido. Sou eu! [Responde ao se aproximar].


ÁLVARO: - Eu vou morrer, Ana Catarina…


ANA CATARINA: - Não fale mais, descanse. Vosmecê vai viver, nós dois sabemos o quanto vosmecê é forte.


ÁLVARO: - Não, eu sinto que estou indo. Me deixe falar! Eu preciso falar, antes que seja tarde demais…


ANA CATARINA: [Observa atentamente].


ÁLVARO: - Vosmecê vai ficar sozinha… Eu preciso que me prometa que vai cuidar de tudo e que vai desistir de uma vez por todas de se vingar. Vosmecê não pode voltar ao Brasil, Ana Catarina. Essa gente te odeia e quer te fazer mal…


ANA CATARINA: [Chora] - Eu não consigo, eu não posso prometer isso, Álvaro. Me peça qualquer outra coisa, qualquer uma!


CONDE DE BURGOS: - Prometa, Ana Catarina… Você não vai se ving… Pro… Ana… [Balbucia respirando com cada vez mais dificuldade].


ANA CATARINA: - Não, Álvaro… Fique calmo!


CONDE DE BURGOS: - Pro… [Tenta concluir a frase, mas não consegue. A respiração de Álvaro é interrompida e ele falece ali mesmo, diante Ana Catarina].


ANA CATARINA: - Não! [Grita se debruçando sobre Álvaro].


Cena 05 - Mercearia da Paz [Interna/Noite]

[Com a transição de cenas, surgem imagens da cidade de São José dos Vilarejos. Joana se preparava para fechar a mercearia quando uma cliente entrou no estabelecimento.]


JOANA: - Posso ajudá-la, senhorita?


AÇUCENA: - Bendita seja a sua sorte, xaborrí! Posso ler a sua sorte na palma da mão. Não precisa me pagar com lovê. Eu aceito apenas alguns mantimentos, prometo que vosmecê não vai se arrepender… [Responde segurando a mão de Joana].

Tradução: Xaborrí = Menina

Tradução: Lovê = Dinheiro


CÂNDIDA: - Joana, o que essa cigana faz aqui? Eu já disse que não quero essa gente aqui, que quando chegarem é para mandar ir embora imediatamente. Dizem que eles são ladrões!


AÇUCENA: - Saurre si rom e não ladrões. Maldita seja a sua sorte por inventar tantas mentiras, gají!

Tradução: Saurre si rom = Nós somos ciganos

Tradução: Gají = Mulher não cigana


CÂNDIDA: - Vá maldizer em outra freguesia. Desapareça da minha mercearia ou eu vou chamar o guarda e ele vai te levar para a cadeia. Cigana de uma figa! [Grita].


AÇUCENA: [Encara Cândida e olha para Joana mais uma vez, em seguida vai embora da mercearia].


JOANA: - Mamãe… A senhora não deveria falar assim com a moça. Ela também é filha de Deus, como nós duas. [Disse ao sair até a porta e observar Açucena caminhar pelas ruas da cidade].


CÂNDIDA: - Como nós? Era só o que faltava… Essa gentinha! Fecha essa porta menina, que já está tarde, quero me deitar. [Completa].


Cena 06 - Castelo Coimbra (Burgos, Espanha) [Interna/Tarde]

[Os coveiros logo cobriram todo o túmulo com a terra do túmulo recém aberto. Com um semblante de vazio e trajando preto, Ana Catarina beijou a rosa vermelha que segurava e em seguida a jogou em cima do túmulo.]


MIGUEL: - Mais uma vez, meus pêsames a Ana Catarina. Eu sinto muito!


ANA CATARINA: - Muito obrigada, Miguel. Vosmecê é e tem sido um amigo muito leal. O Conde certamente estaria feliz com a sua presença nesse momento.


MIGUEL: [Sorri desconsertado] - Imagino que agora você deve estar pensando no que vai fazer do seu futuro, Senhora Condessa de Burgos. Aposto que vai passar uma temporada em Milão com a…


ANA CATARINA: [Interrompe Miguel] - Não… Meus planos são outros. Pretendo discuti-los com vosmecê logo mais. Será que podes passar lá em minha casa mais tarde? Eu vou precisar de aliados e conto com a sua amizade. [Conclui].


MIGUEL: [Olha para Ana Catarina, completamente surpreso].



Cena 07 - Casarão D’ávilla (Cozinha) [Interna/Tarde]

Música da cena: Réquiem Para Matraga - Geraldo Vandré

[Rosaura cozinhava sozinha na cozinha, quando ouviu alguém se aproximar.]


IDALINA: [Entra na cozinha segurando uma jóia, completamente sorridente. Em seguida, senta-se à mesa que ficava na cozinha e começou a admirar o par de brincos.]


ROSAURA: - Não sabia que vassuncê tinha tantos réis para comprar um par de brinco como os da sinhá. [Diz ao olhar para Idalina segurando os brincos na palma da mão].


IDALINA: - E quem foi que disse a vassuncê que eu comprei? Eu ganhei da Sinhá Carlota. Ela sabe como eu sou uma escrava fiel e que ela pode contar comigo, por isso ficou agradecida e me deu.


ROSAURA: - Deu, é? Olha Idalina, vassuncê tem idade de ser minha filha e por isso, eu vou te dar um conselho, mesmo sem ter me pedido. Tenha cuidado com a Dona Carlota. Ela não é esse anjo que parece ser e te dar o que te dar mal intencionada. Tenha cuidado!


IDALINA: - Eu não entendi bulhufas o que vassuncê quis dizer e também não faço muita questão de entender. Vassuncê há de estar com inveja, porque eu sou jovem e tenho jóias guardadas. Já você, não passa de uma cozinheira rejeitada. [Responde com cara feia].


ROSAURA: [Sorri com ironia e em seguida volta a mexer a panela].


Cena 08 - Casa dos Lobato [Interna/Noite]

[Com a transição de cenas, surge a fachada da casa da família Lobato. Sozinha no andar superior da casa e enquanto arrumava os quartos para que os patrões se recolhessem, Tomásia adentrou no quarto de Graça.]


TOMÁSIA: [Vai até uma penteadeira e começa a mexer nas gavetas] - A chave tem de estar aqui, em algum lugar há de estar. [Fala consigo mesma].


[Ao olhar para o espelho, Tomásia viu o guarda-roupas refletido e que em cima dele, existia uma grande caixa presente, caixa muito bonita na cor verde, com detalhes cor de rosa.]


TOMÁSIA: [Vira-se na direção do guarda-roupas e resolve se aproximar dele] - Dona Graça deve esconder aí dentro as coisas mais importantes. [Em seguida, Tomásia abre as portas do móvel e se apoiando nele, consegue puxar a caixa de presente para si. Logo após, ela a leva até a cama e retira sua tampa]. - Aqui está! [Diz ao encontrar uma chave e observá-la].


[Em seguida, Tomásia fecha a casa e a coloca novamente em cima do guarda-roupa. Alinha alguns pertences da patroa, para que ela não perceba que os objetos foram mexidos e deixa o cômodo sem ser vista.]


Cena 09 - Castelo Coimbra (Burgos, Espanha) [Interna/Noite]

Música da cena: Vilarejo - Marisa Monte

[Imagens aéreas mostram a área externa do castelo e logo após surge a biblioteca do local.]


ANA CATARINA: [Senta-se na escrivaninha que Álvaro utilizava] - Acomode-se! [Fala com Miguel].


MIGUEL: [Senta-se, conforme Ana Catarina orientou] - Devo confessar que vosmecê está me deixando curioso. Como precisa de minha ajuda?


ANA CATARINA: - Agora que o meu marido partiu, não tenho muito o que fazer aqui. Me sinto sozinha e não sei se quero continuar aqui. Creio que está na hora de voltar ao Brasil.


MIGUEL: [Surpreende-se] - Entendo, faz sentido já que é o seu país de origem. Só que ainda não entendi como posso ajudá-la…


ANA CATARINA: - Miguel, vosmecê é um grande amigo. Na verdade o mais importante que me restou acá, na Espanha. Eu gostaria que fosse comigo ao Brasil, vosmecê será muito útil na minha ida e terá tudo custeado por mim, certamente.


MIGUEL: - Brasil? Nunca me imaginei indo até lá…


ANA CATARINA: - Se vosmecê concordar, viajará dentro de dois dias. Tomei a liberdade de reservar uma passagem de primeira classe em um navio. Preciso que vosmecê chegue primeiro, pois iremos precisar de uma boa casa e que vosmecê sonde bem o terreno, além de deixar o instinto aguçado de uma gente fofoqueira, sobre a “Condessa de Burgos”.


MIGUEL: [Reclina-se na cadeira] - Acho que estou começando a compreender o que vosmecê pretende.


ANA CATARINA: - Que ótimo que compreende, pois assim evitará que nossa conversa tenha muitas delongas. O que eu pretendo é bem simples e eu vou te explicar… [Começa a contar o que irá fazer no Brasil, enquanto Miguel a ouve atentamente].


Cena 10 - Casarão D’ávilla [Interna/Manhã]

Música da cena: Acreditar no Seu Amor - Liah Soares

[A noite se vai e o dia logo amanhece. Nas primeiras horas do dia, os escravos trabalham nos canaviais do engenho, enquanto aparece a fachada da casa da família D’ávilla.]


CARLOTA: - Vai sair, meu filho? [Disse ao se aproximar, quando viu Antônio descer as escadas rapidamente e caminhar em direção a porta].


ANTÔNIO: - Mamãe, acordada tão cedo? Aconteceu alguma coisa? [Responde surpreso ao ver Carlota de pé].


CARLOTA: - Na verdade sim, estamos com alguns problemas no banco com credores…

ANTÔNIO: [Responde instantaneamente] - Problemas? Eu posso ajudar de aguma forma?


CARLOTA: [Se aproxima do filho e começa a alinhar a roupa dele] - Claro que pode, meu querido. Vosmecê só precisa marcar o casamento com Laura Lobato. Vamos juntar os nossos capitais e sair deste aperto. Vosmecê não pode dar para trás, não depois de tudo o que eu fiz para te dar uma ótima vida nos últimos anos.


ANTÔNIO: - Eu vou aproveitar o dia, que nasceu tão bonito e vou dar uma volta pela propriedade. Prometo pensar a respeito! [Diz ao se afastar de Carlota].


CARLOTA: [Sorri] - Ótimo, dizem que o olho do dono é que engorda o gado. A única coisa que eu não quero, é que vosmecê se junte com aquela gentinha do acampamento cigano. Estarei no banco, se precisar de mim. Se cuide, meu filho!


ANTÔNIO: - Pode deixar, mamãe. Eu volto a tempo do almoço, com licença! [Diz ao se retirar].


[Pensativo, Antônio desce as escadarias da entrada da casa e observa o terreno da propriedade. Após uma breve pausa, caminha em direção ao estábulo, monta um dos cavalos e em seguida sai a galope.]


Cena 11 - Castelo Coimbra (Burgos, Espanha) [Interna/Manhã]

Música da cena: Coleção - André Leonno

[O jardim do castelo surgiu logo em seguida, com a transição de cenas. Uma criada aproximou-se com uma bandeja da mesa que ficava próxima a fonte.]


EMPREGADA: [Serve um pouco de chá para Ana Catarina] - Deseja mais alguma coisa, senhora condessa?


ANA CATARINA: [Sorri e logo em seguida bebe um gole para poder responder] - Não, minha querida. Está tudo bem, vosmecê pode continuar seus afazeres. Eu estou bem, obrigada.


EMPREGADA: - Com licença, senhora! [Retira-se].


ANA CATARINA: [Olha para a fonte e se distrai nos próprios pensamentos] - Como será que ele está? Com certeza já deve ter me esquecido e casado com uma noiva rica, como a mãe tanto queria. Maldito, vosmecê também pagará caro por ter brincado comigo! [Pensa em voz alta].


Cena 12 - Acampamento dos Ciganos [Externa/Tarde]

Música da cena: Apesar de Você - Chico Buarque

[Sozinho no campo, Vladimir avaliava abaixado, a plantação da horta, checando que não havia pragas, quando ouviu passos.]


VLADIMIR: [Observa a sombra de alguém se aproximar e conforme fica cada vez mais perto, ele coloca a mão na cintura como forma de alerta. Logo após, salta para trás e aponta seu punhal] - O que vosmecê quer? [Grita].


ANTÔNIO: [Ergue as mãos para o alto] - É assim que vosmecê recebe os velhos amigos? [Questiona sorridente].


VLADIMIR: - Gadjó! [Surpreende-se abaixando o punhal e abraça Antônio em seguida].

Tradução: Gadjó = Homem não cigano


[A imagem congela focando em Antônio e Vladimir abraçados, surge um efeito de uma pintura envelhecida e o capítulo se encerra].


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