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VILAREJO - Capítulo 15



Capítulo 15

Cena 01 - Fazenda Santa Clara [Interna/Manhã]

[Ana Catarina mantinha sua pose e não deixava transparecer suas emoções em estar a sós e frente a frente com a sua maior inimiga.]


CARLOTA: - Condessa, minha querida. Fico muito feliz que vosmecê tenha me recebido tão cedo. É que ontem a festa foi tão movimentada, que mal tivemos a chance de conversarmos.


ANA CATARINA: - Naturalmente. Sente-se, senhora! [Diz estendendo a mão na direção onde Carlota deve se acomodar].


CARLOTA: - Ora, vamos parar com as formalidades. Sejamos amigas, me chame apenas de Carlota. [Senta-se no sofá]. - A propósito, eu ainda não sei o vosso nome. Como devo me referir ao chamá-la?


ANA CATARINA: [Senta-se em uma cadeira] - De Condessa, apenas.


CARLOTA: - De certo, condessa. Bom, o que achou da festa? Espero que tenha gostado, pois fizemos tudo em sua homenagem. 


ANA CATARINA: - Ah, foi uma festa muito simpática. Bebe alguma coisa? Uma água, um refresco, um café?


CARLOTA: - Um refresco cairia muito bem, lá fora está fazendo muito calor.


ANA CATARINA: - Dois refrescos, meu bem. Por gentileza! [Diz ao orientar a empregada].


[A empregada balança a cabeça, confirmando que irá retornar em breve com os refrescos.]


CARLOTA: [Observa a criada e estranha o fato dela estar bem vestida, comparada aos moldes de vestimenta dos escravos no Brasil] - Engraçadinha a roupa que ela usa, não é mesmo? Parece uma…


ANA CATARINA: [Interrompe Carlota] - Chama-se uniforme, o que lhe cai muito bem, uma vez que acá em minha fazenda, sua condição não é de escrava e sim de funcionária prestadora de serviço, serviço esse a qual ela é remunerada mensalmente!


CARLOTA: [Impressiona-se] - Desde quando estava prestes a vir, soube que era uma mulher “diferente”. Agora vejo que de fato eles tinham razão.


ANA CATARINA: - Se ser “diferente” está relacionado ao fato de acreditar que nós brancos e os negros devem ter os mesmos direitos, sim, eu assumo que sou diferente.


CARLOTA: - Engraçado, as vezes olho para a senhora e tenho a impressão de que já a conheço. Talvez pelos pensamentos abolicionistas, se pareça com alguém que já conheci.


[A criada retorna e serve dois refrescos, um para Ana Catarina e outro para Carlota.]


ANA CATARINA: - A senhora me conhece? [Sorri]. - Olhe bem para mim, senhora. Será que já não nos vimos antes? [Bebe um gole de suco].


CARLOTA: [Segura o copo, com um semblante desconcertado].


Cena 02 - Casarão D’ávilla [Interna/Manhã]

Música da cena: Acreditar no Seu Amor - Liah Soares

[As ruas da cidade seguem movimentadas, em seguida surge o engenho da família D’ávilla. Leonora e Antônio tomavam café, enquanto conversavam sobre o baile de máscaras.]


LEONORA: - Vosmecê está com uma carinha… Sinto um clima de romance no ar! [Diz ao se referir a Antônio].


ANTÔNIO: - Clima de romance? Do que está falando minha tia?


LEONORA: - Estou falando sim, mas não é daquela intragável da Laura Lobato. Estou falando da nova e mais ilustre moradora de São José dos Vilarejos, a Condessa de Burgos. Pensa que não reparei como você olhava para ela?


ANTÔNIO: - Titia, faça-me o favor. Eu não estava olhando assim, dessa forma como está se referindo. Eu só estava olhando para ela com…


LEONORA: - Com interesse! Antônio, eu te conheço como a palma da minha mão. A condessa é uma mulher muito bonita, logo mais choverão pretendentes na porta dela, mas eu já adianto que vosmecê é e será o melhor partido dessa cidade.


ANTÔNIO: [Sorri] - A senhora anda lendo muitos romances!


[Carregando algumas roupas de cama engomadas, Rosaura surge na sala caminhando em direção a escada que a levará ao segundo pavimento da casa, quando é interrompida por Leonora.]


LEONORA: - Rosaura, minha querida. Vosmecê sabe onde está minha irmã? Ela ainda não desceu para tomar café e não costuma se atrasar para ir ao banco.


ROSAURA: - Sinhá Carlota acordou bem cedo, com o raiar do sol. Tomou só um café preto e disse que ia visitar um novo cliente para o banco.


ANTÔNIO: - Novo cliente? Tão cedo? O que será que deu na minha mãe? [Questiona-se].


LEONORA: - Não sei, mas não estou gostando nada disso! [Pensa em voz alta].


Cena 03 - Ruas da cidade [Externa/Manhã]

Música da cena: Corre - Gabi Luthai

[Mais uma vez e disfarçada de homem, Maria do Céu voltou a sair às ruas acompanhada de Tomásia. Distraída com aquele universo do qual ela não estava acostumada, as pessoas olhavam para ela, estranhando seu comportamento esquisito.]


TOMÁSIA: - Vassuncê gosta mesmo de admirar as ruas, não é?


MARIA DO CÉU: - É tudo tão mágico! [Diz tocando os detalhes de uma parede nas imediações da igreja da cidade, impressionada com a arquitetura].


TOMÁSIA: - Vai entender vocês ricos, pra mim isso é só uma parede.

[Do outro lado da rua, Miguel compra o jornal local e começa a folheá-lo enquanto atravessa a rua.]


MARIA DO CÉU: [Olha para o céu e em seguida começa a ter uma vertigem].


TOMÁSIA: - Agora precisamos ir, sinhazinha. Não podemos demorar muito na rua, a sua tia não pode nem desconfiar que saímos…


MARIA DO CÉU: - Tá tudo ro… rodan… [Cai desmaiada].


TOMÁSIA: - Ave Maria… Sinhazinha, fala comigo. Não faz isso, acorda…


MIGUEL: [Vê de longe o que aconteceu e corre até lá] - Eu posso ajudar, sou médico! Deixe-me ver o que o rapaz tem… [Diz ao se aproximar].


TOMÁSIA: [Surpreende-se ao ver um homem negro como ela, se dizer médico] - Vassuncê? Médico?


MIGUEL: [Ao examinar o pulso de Maria do Céu, percebe que uma mecha de seu cabelo está saindo do interior do chapéu e logo repara em suas feições] - Mas… Não é um rapaz!


MARIA DO CÉU: [Abre os olhos e observa Miguel iluminado pela luz do sol, logo atrás dele. Depois disso, ela levanta-se bruscamente e se afasta dele] - Quem é vosmecê? Não me toque, não me toque, não me toque… [Repete nervosa].


MIGUEL: - Calma, eu sou médico. Só queria ajudar!


MARIA DO CÉU: - Vamos embora, Tomásia. Me tira daqui, me tira!


TOMÁSIA: [Ajuda Maria do Céu a ficar de pé] - Calma, o moço só quis nos ajudar…


MARIA DO CÉU: - Vamos embora, vamos… [Suplica agitada].


TOMÁSIA: - Está bem, vamos! [Diz ao sair acompanhada por Maria do Ceu sem olhar para trás].


MIGUEL: [Observa as duas irem embora, estranhando toda a situação].


Cena 04 - Fazenda Santa Clara [Interna/Manhã]

[Ana Catarina e Carlota continuavam conversando na sala de estar da fazenda, enquanto Carlota permanecia sem reconhecer a enteada.]


ANA CATARINA: - Bom, devo confessar que ainda não entendi o real motivo da visita da senhora.


CARLOTA: [Sorri] - A senhora é realmente muito perspicaz, condessa. Na verdade, a minha visita tem dois muitos. Além da cordialidade, também vim aqui por negócios.


ANA CATARINA: [Demonstra interesse] - Negócios? Fale francamente.


CARLOTA: - Não sei se soube, mas sou a dona do único banco da cidade, um dos melhores deste país. Como sei que vosmecê vai se estabelecer no Brasil, pensei que poderia investir a sua fortuna e deixá-la no meu banco. De certo, podemos conversar sobre investimentos e o retorno…


ANA CATARINA: [Interrompe Carlota] - Olha, vosmecê vai me desculpar, mas os meus bens estarão muito bem guardados em um banco na capital, agradeço o seu interesse, mas por hora, meus advogados preferem que sejam assim e eu concordo. Agora se me permite, eu preciso receber uma outra visita! [Diz ao ficar de pé].


CARLOTA: - Naturalmente. Bom, mas caso mude de ideia ou queria conhecer um pouco mais sobre o banco que administro, vosmecê…


[Nesse momento, a criada entra na sala de estar acompanhada pelo tabelião da cidade.]


EMPREGADA: - Senhora Condessa, esse senhor deseja vê-la!


CARLOTA: [Olha para a visita e o reconhece] - Vejo que estou atrapalhando. Senhor Correia, como vai?


TABELIÃO: - Muito bem e vosmecê, Senhora Guerra? [Diz ao tirar o chapéu].


CARLOTA: - Muito bem. Bom, eu vou deixá-los a sós…


TABELIÃO: - Não se esqueça de que temos uma conversa pendente a tratar, senhora. [Diz instantaneamente, antes que Carlota consiga deixar a sala].


CARLOTA: [O encara com o olhar de raiva] - Pode deixar. Com licença! [Retira-se].


TABELIÃO: [Observa Carlota sair e em seguida, cumprimenta Ana Catarina] - Condessa! [Beija a mão dela].


ANA CATARINA: - Como vai? Vejo que conhece a Senhora Guerra há muito tempo… Ela também paga pelos seus serviços?


TABELIÃO: - Há tempos que não. Ultimamente tenho cumprido na verdade um papel que ela não tem gostado muito.


ANA CATARINA: - Ah, é? Qual? [Finge ter sido indiscreta]. - Ah, me desculpe… Não quis ser indiscreta. Acontece que penso que como o senhor vai administrar alguns dos meus bens, que deveríamos ter uma relação aberta, sem segredos.


TABELIÃO: - Certamente, madame. O que vou lhe contar acá, não pode sair dessa fazenda. Contarei em sigilo. Dona Carlota é uma péssima administradora, com os anos de viuvez, se endividou e contraiu muitas dívidas. Isso inclui uma hipoteca muito mal executada…


ANA CATARINA: [Finge preocupação] - Céus, coitada! Será que corre risco de perder seus bens?


TABELIÃO: - A dívida está prestes a ser executada. Se a Senhora Guerra não honrar com o pagamento, poderá perder o engenho onde mora.


ANA CATARINA: - Ah, que lástima! Bom, me acompanhe… Vamos conversar em meu escritório, lá teremos mais privacidade. Por acá! [Diz, mostrando a direção ao tabelião].


Cena 05 - Gazeta Vilarejo [Interna/Manhã]

Música da cena: Flor de Lis - Melim

[Com a transição de cenas, surge a redação do único jornal da cidade. Repleta de homens, o jornal era de propriedade e comandado pelo jornalista Ricardo Bonifácio.]


RICARDO: [Termina de escrever em uma folha e em seguida comemora] - Terminei, enfim terminei. [Comemora].


JORNALISTA: - Terminou o quê que lhe deixou tão empolgado, meu amigo?


RICARDO: - Terminei a matéria principal da edição que vai sair amanhã. A chegada triunfal da Condessa de Burgos à São Miguel dos Vilarejos. [Responde erguendo o papel].


JORNALISTA: - Ouvi comentários sobre esse baile de boas-vindas à condessa, soube que toda a sociedade vilarejense esteve presente. Agora me conta uma coisa, a condessa é realmente tão bonita como estão falando?


RICARDO: - Lindíssima, meu caro. A Condessa de Burgos é uma das mais lindas mulheres que já vi em toda a minha vida, só não mais que…


JORNALISTA: - Laura Lobato Ribeiro Alves, a sua paixão de adolescência. [Diz ao interromper].


RICARDO: - Ela também estava lá… Com ele, o noivo. Antônio Guerra!


JORNALISTA: - Tenha cuidado, meu amigo. Dona Carlota é uma mulher perigosa, já ouvi muitas histórias de sua crueldade com os escravos. Ela não vai deixar alguém se meter no destino do filho dela, tenha muito cuidado.


RICARDO: - Pode deixar, meu amigo. Eu sei me cuidar! [Conclui].


Cena 06 - Cachoeira [Externa/Tarde]

Música da cena: Coleção - André Leonno

[Surgem os campos da cidade de São José dos Vilarejos e mostrando estar em forma como uma verdadeira amazona, Ana Catarina surgiu a galope em um cavalo marrom. Ao se aproximar da região onde estava a cachoeira, deixou-se envolver pelas lembranças e desceu.]


ANA CATARINA: [Olha ao redor e se recorda do passado por um breve momento].


ANTÔNIO: - Sem dúvidas, vosmecê acaba de encontrar um dos locais mais bonitos da cidade. A cachoeira é palco de diversas histórias, uma de amor e outras nem tanto. [Diz ao se aproximar de Ana Catarina].


ANA CATARINA: [Vira-se para Antônio e o encara].




Cena 07 - Cachoeira [Externa/Manhã]

[Antônio estava feliz por reencontrar a condessa em um dos seus lugares prediletos em toda a cidade.]


ANA CATARINA: - O senhor por um acaso é um desses guias de viagem? Não sabia dessa sua atribuição.


ANTÔNIO: - Não, não é isso… Acontece que…


ANA CATARINA: [Interrompe] - Acontece que vosmecê não passa de um homem mal educado e inoportuno, que não percebeu que está sendo desagradável, quando eu parei aqui porque gostaria de ficar sozinha. 


ANTÔNIO: - Ora, a senhora é muito mal educada também. Que mal eu lhe fiz para me tratar dessa forma? Eu só quis ser gentil.


ANA CATARINA: - Guarde sua gentileza para quem merece. Sua noiva, por exemplo. Pensa que não reparei como ela me olhou quando dançávamos ontem? Eu sou uma mulher distinta, não quero problemas. Não sou como uns e outros!


ANTÔNIO: - Escuta aqui, eu não vou…


ANA CATARINA: - Não, meu caro. Quem vai me ouvir é vosmecê! Eu tenho mais o que fazer do que continuar perdendo meu precioso tempo com alguém que não merece, entende? Passar bem! [Diz ao ir embora].


Cena 08 - Mercearia da Paz [Externa/Tarde]

Música da cena: Vilarejo - Marisa Monte

[Com a transição de cenas, surgem as grandes avenidas da cidade. Em seguida surge a mercearia de Cândida.]


JOANA: [Organiza algumas latas em uma prateleira e deixa uma delas cair no chão].


CÂNDIDA: - Minha filha, vosmecê anda muito distraída. Assim vai nos trazer prejuízo.


JOANA: - Desculpe, eu me distraí… Pode deixar, eu limpo toda essa sujeira.


CÂNDIDA: - Eu posso saber onde a senhorita anda com a cabeça?


JOANA: - Ah, eu estava pensando em como vai ser lindo o casamento da Laura e do Antônio. Meu sonho é um dia poder casar na igreja, de vestido, véu e grinalda… [Responde enquanto suspira].


CÂNDIDA: - Deus te livre de um destino miserável desses, Deus te livre!


JOANA: [Estranha a reação da mãe] - Nossa, mamãe. A senhora não quer que eu me case?


CÂNDIDA: - Quero, é claro que eu quero. Só que não nessas condições. Não é segredo para ninguém que esse casamento é puro interesse, de ambos os lados. A família do Antônio está tão endividada, que só falta empenhar os dentes por uma saca de arroz e de feijão. Já a família da Laura, ofereceu um dote de 40 contos de réis, o noivo está sendo claramente comprado. Ele não gosta dela, está na cara, não é a toa que ele vem enrolando aquela pobre coitada há muitos anos. Eu quero para vosmecê um casamento bem sucedido, isso sim!


[Sem perceber que estavam sendo observadas, Cândida e Joana continuavam conversando sem notar que Miguel ouvia tudo do lado de fora.]


MIGUEL: - Humm… Que interessante, creio que a Ana Catarina vai gostar de saber disso! [Fala consigo mesmo e em seguida vai embora].


Cena 09 - Casa dos Lobato [Interna/Tarde]

[Após chegar da rua, era visível que Graça estava inconformada com o calor que estava fazendo naquela tarde, foi então que ela resolveu se acomodar no sofá e se abanar com auxílio de um leque.]


GRAÇA: - Tomásia… Tomásia! [Grita].


TOMÁSIA: - O que foi, sinhá? [Pergunta ao entrar na sala de estar correndo].


GRAÇA: - Porque demorou tanto, sua inútil? Onde estava? [Pergunta aborrecida].


TOMÁSIA: - Na cozinha, sinhá. Onde mais?


GRAÇA: - Acho bom mesmo, se eu souber que vosmecê anda de tititi por aí com algum escravo de uma dessas casas vizinhas, eu vou fazer a palmatória cantar. Vosmecê sabe como eu fico quando estou irritada, não sabe?


TOMÁSIA: - Sei sim, senhora! Eu juro, eu não saí de casa o dia inteiro.


GRAÇA: - Eu acho bom. Não tem ninguém em casa? Cadê meus filhos?


TOMÁSIA: - Sinhozinho Pedro está trancado no quarto dele, já a sinhazinha Laura foi a costureira. Disse que ia acertar uns detalhes do vestido de noiva, pois ficou sabendo que um novo padre está para chegar no povoado.


GRAÇA: - Está bem, me traga um refresco. Anda! [Diz aos gritos].


TOMÁSIA: - Sim, sinhá. Eu já volto! [Diz ao sair correndo].


GRAÇA: - Esse casamento precisa sair de uma vez, será a resolução dos nossos problemas de uma vez por todas. [Fala consigo através do pensamento].


Cena 10 - Igreja de São José dos Vilarejos [Externa/Tarde]

Música da cena: Flor de Lis - Melim

[Com a transição de cenas, surge a fachada da igreja. Do lado de fora, uma charrete se aproximou e estacionou em frente ao templo.]


PADRE JÚLIO: - Enfim chegamos no nosso novo lar! [Diz ao descer e observar a igreja do lado de fora].


SEMINARISTA ÂNGELO: - Pensei que não fossemos mais chegar, padre. Essa cidade fica muito longe.


PADRE: - Não reclame tanto, meu filho. É pecado! Veja que vilarejo mais simpático. É aqui que vamos nos estabelecer até quando Deus permitir.

SEMINARISTA ÂNGELO: [Observa ao redor] - Tudo bem, padre. Se o senhor diz, eu confio.


PADRE JÚLIO: - Assim que se fala. Agora me ajuda a levar as malas lá para dentro, vamos conhecer a casinha paroquial.


[Os dois retiram a bagagem da charrete e em seguida entram na igreja.]


Cena 11 -  Casarão D’ávilla [Interna/Noite]

Música da cena: Além do Paraíso - Antônio Villeroy

[Sem serem vistos, Zeferino e Carlota se beijavam no interior do escritório.]


CARLOTA: - Chega, chega… Vosmecê precisa ir, alguém pode nos ver!


ZEFERINO: - Io não resisto ao seu cheiro. Vassuncê é muito perfumosa.


CARLOTA: [Afasta-se do capitão do mato e tenta se recompor] - Ande, homem. Vosmecê precisa ir, meu filho e minha irmã podem chegar a qualquer momento. Preciso me recompor para o jantar. 


ZEFERINO: - Vassuncê não me contou como foi com a condessa. Ela confirmou que vai botar toda a fortuna no banco?


CARLOTA: - Ainda não, mas eu tenho certeza que em breve a condessa vai estar comendo na minha mão, como todos nessa cidade. Agora vosmecê precisa ir!


[Após se despedir de Zeferino. Carlota subiu para se arrumar para o jantar, ao caminhar pelo corredor do segundo pavimento da casa, ela percebeu que a porta do quarto de Leonora estava entreaberta e que havia uma caixa em cima de sua cama.]


CARLOTA: [Entra no quarto sorrateiramente, senta-se na cama e abre a caixa, revelando alguns pertences de lembranças, inclusive um sapatinho de bebê feito de crochê].

LEONORA: [Entra no quarto nesse momento e flagra Carlota segurando o sapatinho de bebê] - Mas o que significa isso? Quem te deu o direito de entrar no meu quarto e mexer nas minhas coisas? Vosmecê está perdendo a razão, só pode ser. [Arranca o sapatinho da mão de Carlota, irritada].


CARLOTA: - Eu posso saber o que significa isso? Vosmecê só pode estar louca. Essa casa é minha, esqueceu?


LEONORA: - Ainda assim, vosmecê não tem o direito de mexer nas minhas coisas, invadir a minha privacidade.


CARLOTA: - Faça-me rir, privacidade. Essa casa é minha, nada pode ficar tão secreto enquanto estiver debaixo do meu teto, entendeu sua inútil?


LEONORA: [Sorri ironicamente] - Que foi, Carlota? Do que você tem medo?


CARLOTA: - Olha, olha lá o que vosmecê vai falar!


[Sem entender o que estava acontecendo, Rosaura saiu de um dos quartos que estava arrumando ao ouvir a discussão entre as duas irmãs.]


LEONORA: - Vosmecê tem medo de que eu coloque a minha boca no mundo e diga toda a verdade sobre Carlota Guerra. Que Carlota Guerra não passa de uma mulher vil, gananciosa, perversa e seca, seca de coração, seca de ventre… Ou vosmecê já esqueceu de quem é esse sapatinho? [Esbraveja].


CARLOTA: - Cale-se, infeliz! [Grita].


LEONORA: - Esse sapatinho é do meu filho. Filho que vosmecê roubou e fez a sociedade pensar que é seu. Ou vosmecê esqueceu que o Antônio é meu filho? Nem mulher suficiente para dar um filho ao Gonçalo você foi, por isso vosmecê quis ficar com o meu filho quando perdeu o seu. Vosmecê é uma invejosa, vosmecê me dá nojo, minha irmã!


ROSAURA: [Surpreende-se do lado externo do quarto, levando as duas mãos à boca, para não fazer barulho].


Cena 12 - Fazenda Santa Clara [Interna/Noite]

[Com a transição de cenas, surge a fachada da fazenda de Ana Catarina.]


ANA CATARINA: - Vendido por causa de 40 contos de réis? Mas que homem barato o Antônio se tornou!


MIGUEL: - Foi exatamente o que ouvi na mercearia. A Carlota administrou muito mal o banco nas quase duas décadas após a herança e por conta disso, está praticamente falida.


ANA CATARINA: [Sorri satisfeita] - Perfeito! A Carlota está deitada na cova e eu vou jogar a última pá de terra. Vou arruiná-la e fazê-la precisar de mim até para comer um pedaço de pão velho e quando isso acontecer, eu vou jogá-la numa cadeia para que ela apodreça lentamente. A minha vingança já começou, primeiro eu vou quebrar a mãe e em seguida eu vou esmagar o filho.


MIGUEL: - O que vosmecê está querendo dizer com isso, Ana Catarina? [Questiona após notar a frieza de Ana Catarina].


ANA CATARINA: - Ora, o óbvio. A mãe colocou o filho à venda por estar falida. Vou arruiná-la e em seguida comprar o filho. Eu vou me casar com Antônio Guerra e não a Laura. O inferno dele será em vida, vou tornar o destino de Antônio Guerra o maior dos calvários. [Conclui].


[A imagem congela focando em Ana Catarina, surge um efeito de uma pintura envelhecida e o capítulo se encerra].


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