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VENTO NORTE: Capítulo 18



Cena 01/ Mercado Trajano Ferraço/ Escritório/ Dia. 

(cont. da cena anterior) 

Regina: (fria e gélida) Pode pedir para ele entrar...

Osório: Sim senhora. (se dirige até a porta que está entreaberta) Por favor (dirige o homem até o escritório)

Close em Regina trocando olhares com o oficial da justiça (60).

Regina: Pode se retirar Osório, se eu precisar, eu lhe chamo. 

Osório: Está certo patroa (se dirige até a porta e se retira)

Regina: O que lhe traz até aqui, senhor? 

Rafael: Rafael, Rafael Mota Ribeiro (beija a mão de Regina. ela fica fria). 

Regina: Então senhor Rafael Mota Ribeiro, o que o senhor tem a me dizer?  É sobre meu marido não é? 

Rafael: Sim, é sobre Celso Trajano Ferraço. 

Regina: (gélida e calculista) Ele está morto, não está? Ele está morto, está, eu sinto isso dentro de mim, algo me diz isso. (nervosa) Diga, quero ouvir da sua boca, diga. 

Rafael: Eu sinto muito senhora... 

Regina: (chocada e ao mesmo tempo fria) Não, não, não, não. O senhor não está compreendendo! (gritos) O senhor não está compreendendo! Não está, não está e não está! Eu acabo de enterrar minha avó e o senhor, o senhor, um homem da justiça, mas que justiça? Está me dizendo que o meu marido está morto? Está morto a onde? Do outro lado do mundo? São mais de oito mil e oitocentos e cinquenta quilometro de distância, você está entendendo? Como morreu? Morreu a onde? Quando, como foi? O que você quer? Veio aqui para que, qual seu propósito? Me diga! (ela avança em Rafael e dá tapas sob seu peito. ele não reage) Diz, me diz! Isso não era para acontecer! Éramos uma família feliz, feliz! Éramos felizes. Eu perdi minha mãe, perdi meu pai, por estupidez mas perdi. Perdi minha avó também em consequência da morte anterior. Mas eu teria a família que eu construí ao lado de Celso, eu teria essa família, teria! Agora não tenho, não tenho! Você quer destruir uma família, é isso que você quer? Você quer me destruir? Eu tenho dois filhos, o que eu vou dizer aos meus filhos? O que? Que a nossa família acabou? Virou pó? É isso que o homem das leis, o senhor, quer que eu diga? Não, não e não, não é verdade, não é! 

Rafael: Se acalme senhora por favor... 

Regina: Saia daqui, eu preciso ficar sozinha, saia, saia. Por favor. 

Rafael: Está certo... Eu irei embora, e mais uma vez eu sinto muito...

Regina: Se sentisse não teria convocado um pai de família para guerrear em um país desconhecido, você provou isso, você, você e sua corja. Maldito exército, malditos governantes! Agora saia, saia, eu te peço, saia. 

Close em Rafael se dirigindo desnorteado até a porta.

Rafael: Eu ligo mais tarde para providenciarmos o enterro, o corpo deve chegar até umas cinco horas da tarde no Brasil...

Regina: (gritos) Rua, fora...

Rafael se retira enquanto Regina se dirige até a mesa, olha para a fotografia da família toda reunida e fica aos prantos. 

Regina: Por que? (pausa profunda) Por que comigo meu Deus? Não, não...

Ela fica aos prantos sob a mesa e debulha-se em lágrimas em um choro copioso e profundo junto à uma sonoplastia de fundo.

Instrumental: (que dura até o fim da cena)


Cena 02/ Mercado Trajano Ferraço/ Saguão principal/ Dia. 

(cena sem som)

Close nos funcionários em silêncio enquanto escutam os gritos de Regina. Rafael passa por eles e se dirige até a saída um pouco desnorteado. Eles observam o homem. Alguns minutos se passam e Regina se dirige até a saída um pouco abalada. Eles olham para ela com pena. Ela sai do estabelecimento. 

Cena 03/ Rua/ Dia. 

(cena sem som)

Regina caminha sob a rua um pouco desnorteada junto à uma sonoplastia de fundo. 

(que dura até o fim da cena 05)


Cena 04/ Calçadão carioca/ Dia. 

(cena sem som)

Close em Regina atravessando o calçadão do Leblon em direção à praia. 

Cena 05/ Praia/ Dia. 

(cena sem som)

Close em Regina se aproximando até o mar onde fica reflexiva e pensativa. Ela começa a chorar, em um choro copioso e profundo. Close nela.

Cena 06/ Residência Trajano Ferraço/ Sala de estar/ Dia. 

Close em Regina chegando em casa desolada. Carlos e Vicente estão brincando de pião sob o chão. Eles ao verem Regina abalada trocam olhares, estranhando o comportamento dela. 

Carlos: (se dirige até Regina preocupado) Mamãe? O que aconteceu? 

Regina: Chame sua irmã por favor... 

Carlos gesticula com a cabeça simulando um sim e se dirige até o corredor. 

Regina: Vicente você poderia voltar outro dia? É um assunto muito sério que tenho a tratar com Carlos e Melissa. 

Vicente: Tudo bem Dona Regina. (se dirige até a saída e sai)

Close em Regina. 

Cena 07/ Residência Trajano Ferraço/ Quarto de Melissa/ Dia. 

Melissa está lendo um livro deitada sob a cama, sua porta está entreaberta quando Carlos aparece. 

Carlos: A mamãe quer ter uma conversa com nós dois. 

Melissa: Conversa? 

Carlos: (gesticula com a cabeça simulando um sim) E pelo que eu percebi, é algo sério... 

Melissa se dirige até a porta e sai junto à Carlos em direção ao corredor.

Cena 08/ Residência Trajano Ferraço/ Sala de estar/ Dia. 

Close em Carlos e Melissa entrando e se dirigindo até a mãe. 

Carlos: E Vicente?

Regina: Eu pedi para que ele fosse embora, o assunto que tenho a tratar com vocês é estritamente pessoal.

Melissa: O que aconteceu mamãe. 

Regina: (abalada) É sobre... (pausa profunda junto à um choro copioso) 

Carlos: É o papai não é mamãe? É o papai não é? 

Close em Regina aos prantos. 

Melissa: Ele morreu? Ele morreu mamãe? Não, não, não! (se dirige desesperada até a mãe e a abraça)

Regina e Melissa choram juntas. Close em Carlos as observando tentando ser forte. Alguns segundos se passam e ele se dirige até elas e ocorre um abraço entre os três junto à uma sonoplastia de fundo. 

Instrumental (que dura até o fim da cena 11)


Cena 09/ Stock Shots.

Close na lua sob o céu. Ocorre uma transição entre o sol e a lua, anoitece. 



Cena 10/ Igreja São Francisco de Paula/ Interna/ Noite.

Plano geral das pessoas sentadas sob os bancos. O padre que profere algumas palavras com a voz desfocada está sob o meio do saguão. Close nos amigos e conhecidos da família Trajano Ferraço. Close em Regina abraçada com os filhos aos prantos, ambos vestindo luto. 

Abertura: 


Vinheta de intervalo: 


Cena 11/ Cemitério/ Noite.

Plano geral do enterro de Celso. Close no caixão descendo até a cova. Close em Regina se mantendo forte. Logo em seguida Regina joga a primeira rosa branca e logo depois Carlos e Melissa jogam suas respectivas rosas. O mesmo trajeto com a primeira terra. Ocorre uma pequena transição de tempo, as pessoas vão embora e ficam presentes apenas Regina e as crianças, que logo se retiram.

Cena 12/ Dentro do automóvel/ Noite.

Regina e as crianças estão pegando um carro de aluguel, eles estão desolados. Regina e as crianças avistam a praia. 

Regina: Pare o automóvel por favor... 

O motorista para o carro enquanto as crianças estranham o comportamento da mãe. 

Regina: Crianças esperem aqui, eu já volto. Tome conta deles por gentileza, não demoro a retornar.

O motorista concorda gesticulando com a cabeça um sim. Regina desce do automóvel. 

Cena 13/ Calçadão carioca/ Noite.

Close em Regina se dirigindo até a praia desnorteada e aos prantos junto à uma sonoplastia de fundo. 

Instrumental: (que dura até o fim da cena 14)


Cena 14/ Praia/ Noite.

Close em Regina se dirigindo até os arredores do mar sob a areia, ela tira os sapatos. Close no mar e logo após foco em Regina. 

Regina: Ah meu amor... Fizemos tantos planos para o futuro, planejamos tantas coisas, vivemos intensamente nosso amor, nossa família. Eu prefiro acreditar que você não partiu, que você ainda permanece a meu lado e que irá retornar e por fim voltaremos a ser uma grande e feliz família como você sempre sonhou. Não culpo a Deus por estar vivendo em total desequilíbrio emocional, físico ou sentimental, por estar me sentindo sozinha (pausa profunda junto à uma voz tremula) como se o mundo fosse desabar sob a minha cabeça, um mundo onde só importasse meus filhos, apenas os meus filhos. Você não tinha família numerosa, seus avós maternos morreram antes de você nascer, enquanto os avós paternos faleceram quando você ainda não tinha discernimento básico, sua mãe... (pausa profunda) foi fazer a vida quando você tinha apenas cinco anos, recordo quando você soube de sua morte, assassinada e jogada sob o lixo, como tantas outras garotas de programa que não tiveram oportunidade de serem alguém, de terem alguém... Foi tão doloroso, fiquei à seu lado durante todo o processo de superação... Seu pai também se foi, sua família era apenas eu e as crianças, junto à minha família antes de me casar e mesmo assim, você era um ser iluminado, não renegava o que Deus havia lhe designado. Você amava a vida, amava viver, você amava, amava tudo e todos ao seu redor. Nem nos últimos momentos em que estivemos todos juntos, como uma família você fraquejou, se acovardou. Você tinha medo que nossos filhos pensassem que o pai era um covarde, hoje eles tem você como um herói, um herói. Adeus meu amor, adeus! (retira do dedo a aliança de casamento) Essa aliança simboliza a prova do nosso amor, do nosso respeito mútuo, da nossa admiração um pelo outro... Leve com você esse símbolo da nossa história... (beija a aliança e a joga sob o mar)

Close em Regina com um olhar fechado. Ela derrama uma lágrima seca.

Cena 15/ Residência Muniz/ Noite.

Helena, Roberto e Vicente chegam em casa após o enterro. 

Helena: Vicente, vá para o quarto e se prepare para tomar um banho, já vou lá lhe ajudar. 

Vicente: (se dirigindo até o corredor) Tá certo mamãe! 

Helena: Pobre Regina... Viúva e com dois filhos para criar... Eu tremo só de pensar que poderia estar passando pelas mesmas coisas se você tivesse sido convocado para a guerra... (se dirige até Roberto e o beija discretamente) 

Roberto: Fico pensando em Carlos... Irá crescer sem uma figura masculina presente... Ele terá que amadurecer rápido para ajudar a mãe... Esse menino deverá ocupar a figura de Celso sob a sociedade caso contrário Regina jamais terá oportunidades... Um menino de 12 anos assumindo uma responsabilidade enorme, a de ser o homem da casa...  

Close em Helena acariciando Roberto no rosto. Close nos dois tristes pela situação. 

 Cena 16/ Residência Flores Viana/ Suíte principal/ Noite.

(cena sem som)

Close em Rosália sob a cama. Seu leito está um pouco bagunçado, há algumas fotos espalhadas. Close em Rosália olhando para uma foto, a foto em questão é na escola onde há ela, Gustavo, Regina e Celso sentados aos arredores de uma árvore sob um banco. Close na foto e logo em seguida nela. Ela derrama uma lágrima seca.

 Cena 17/ Dentro do automóvel/ Noite.

Close em Regina abraçada junto aos filhos, os três aos prantos enquanto o carro de aluguel anda. Close nos três junto a vista da janela onde fica visível a praia do Leblon. 

 Cena 18/ Residência Trajano Ferraço/ Sala de estar/ Noite.

Regina, Carlos e Melissa chegam em casa exaustos. 

Regina: Vão tomar banho crianças, logo após não esqueçam de tomar um copo de leite e escovar os dentes para deitarem. Em seguida apareço para dar um beijo de boa noite em vocês. 

Carlos: (desanimado) Tá bom mamãe... 

Melissa: (desanimada) Está certo... 

Eles se dirigem até o corredor. Close em Regina desolada e desnorteada. Ela se dirige até o corredor.

 Cena 19/ Residência Trajano Ferraço/ Corredor/ Noite.

(cena sem som)

Regina caminha lentamente pelo corredor, observando os objetos, os quadros... Até que se depara com uma fotografia pregada sob a parede, onde ela está junto à Celso, os dois em um ensaio em que ela fez grávida. Ela fica reflexiva. Alguns segundos se passam e ela se dirige até seus aposentos. 

Cena 20/ Residência Trajano Ferraço/ Suíte principal/ Noite.

Regina entra em seu quarto desolada, desanimada e sem chão. Ela se dirige até sua cama, onde se senta e fica reflexiva e pensativa enquanto observa o lado de Celso vazio. 

Regina: Antes em nossa família havia sete pessoas, sete pessoas unidas e que se amavam muito, nossa família agora está desfalcada, está incompleta... Antes éramos sete, hoje já somos três, apenas três.  

Ela derrama uma lágrima seca. Close nela.

A imagem fica em preto e branco, como se fosse um filme dos anos 40. Gancho em Regina desnorteada e destruída sob a cama. 

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