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Débora - Capítulo 41 (Últimos Capítulos)


Débora
CAPÍTULO 41
Últimos Capítulos

uma novela de
FELIPE LIMA BORGES

escrita por
FELIPE LIMA BORGES

baseada nos capítulos 3 a 5 do livro de Juízes

CENA 1: INT. TENDA DE JAEL – SALA – DIA
Héber e Sísera estão sentados à mesa; Jael os serve. Sísera dá uma breve olhada nela, e de volta para Héber.
SÍSERA
Então vocês se separaram do acampamento do seu povo.
HÉBER
Não estávamos mais nos agradando com as decisões da liderança, além das leis cada vez mais abusivas... Partimos enquanto era tempo.
SÍSERA
Hum. E veio ao lugar certo.
HÉBER
Israel?
SÍSERA
(corrigindo) Meu caminho.
Héber não entende, apenas o olha.
SÍSERA
Tenho uma proposta muito boa para vocês.
Jael, curiosa, o olha, e Héber franze a testa.
HÉBER
Proposta? (sorri) Que proposta o Capitão de Hazor teria para um simples queneu?
SÍSERA
Meu rei Jabim é apaixonado pela espécie de goculema que os queneus cultivam. Certamente vocês têm dela aqui.
HÉBER
Sim, sim... Essa espécie é rica em propriedades curativas. Não há nada melhor para passar uma dor de cabeça, ou uma dor qualquer no corpo...
SÍSERA
Toda semana pegarei com vocês duas porções das goculemas, e pagarei 3 sacos de moedas. Dinheiro hazorita.
Héber parece ficar um pouco desconfortável, e Jael, segurando a cadeira, olha firme para Sísera.
JAEL
Não vale a quantidade.
Sísera vira a cabeça para ela. Encara-a, não gosta do que ouviu. Então ela abaixa o rosto.
SÍSERA
Héber, é a sua esposa quem toma as decisões?
Héber, constrangido, lança um olhar de repreensão para Jael.
HÉBER
É claro que não, meu senhor... Jael apenas pensou alto. Não é, Jael?
Ela então levanta o rosto, encara o marido com certa raiva... E, ao invés de responde-lo, vira e vai para o outro lado da sala arrumar as coisas.
A fim de aniquilar o mal-estar, Héber logo vira para Sísera.
HÉBER
Senhor Sísera... Nós também temos um problema aqui. Para permanecermos nessa terra teremos que pagar impostos aos hebreus. E isso tira boa parte do nosso sustento.
Sísera, estranhando, franze a testa.
SÍSERA
Os hebreus cobrando impostos?
HÉBER
Quem nos avisou foi um tal Elói, chefe de uma cidadezinha chamada Meroz.
SÍSERA
Hum... Isso me cheira a um poder paralelo ao de Débora. Rebeldes, talvez. Um grupo de resistência. Interessante... Um hebreu contra Débora. Uma cidade.
HÉBER
Pequena...
SÍSERA
Mas uma cidade. Isso pode me ser útil.
HÉBER
Ao senhor? Por quê? Os hazoritas não desistiram de Israel?
SÍSERA
(levantando) Disso falaremos depois, porque agora nós vamos até Meroz encontrar esse Elói. E não haverá mais imposto algum para você pagar.
Héber se levanta, não entende.
HÉBER
Senhor... Eu ficaria muito grato, mas... por que está fazendo isso, nos ajudando?...
SÍSERA
Porque lhe pagarei a quantidade que disse pelas goculemas e Elói trabalhará para mim.
Héber, quieto, apenas o encara...



CENA 2: INT. SAPATARIA DE LAPIDOTE – DIA
Lapidote arqueia as sobrancelhas, está impressionado com a presença de Elian, esse um tanto constrangido.
LAPIDOTE
Não esperava por essa, senhor Elian...
Sem muito jeito, Elian se aproxima.
ELIAN
Olha, Lapidote, eu não sei muito bem como fazer isso... mas tentarei do meu jeito.
LAPIDOTE
Claro, senhor.
Elian para próximo ao genro.
ELIAN
Depois de me reaproximar de Débora, minha mente se abriu... Ou, não sei, apenas deu entrada às coisas que eu já sabia, mas bloqueava, me recusava a aceitar... E, vendo Débora, essa grande juíza, fazer todas as coisas que está fazendo, atendendo o povo com um carinho tão maternal, tão divino... eu acabei ficando sensível ao fato de que fiz tanto mal para ela e para você, Lapidote.
Lapidote ouve com atenção.
ELIAN
Não quero me estender, até porque isso tudo não é o que sei fazer melhor, mas... no fim das contas, quero apenas... te pedir perdão.
Lapidote sorri com bondade.
ELIAN
Sei que não mereço o seu perdão, agora tenho consciência disso... E sei também que nada do que eu fizer ou disser mudará todo o mal que causei a vocês. Sinto-me culpado até mesmo por pedir perdão...
LAPIDOTE
Senhor Elian, não se sinta assim, de forma alguma. Eu o perdoo, perdoo sim, sem sombra de dúvidas. Eu o perdoo de todo o meu coração.
Eles sorriem.
ELIAN
Isso é bom...
LAPIDOTE
O senhor é um homem corajoso, um homem de fé. Enfrentou a própria natureza... Assim como Débora tem orgulho do senhor como pai, eu tenho orgulho do senhor como meu sogro.
Elian apenas ouve com um sorriso contente.
LAPIDOTE
Me dá um abraço aqui, meu sogro!
Lapidote abraça Elian, que retribui... É quase como um abraço de pai e filho.

CENA 3: INT. PALÁCIO – CASA – QUARTO – DIA
Sentada à pequena mesa do seu quarto, Darda, com o auxílio de uma pena, escreve energicamente em um pergaminho.
Ao terminar, assopra para a tinta secar e o enrola. Levanta-se e corre lá para fora.

CENA 4: INT. PALÁCIO – CASA – SALA – DIA
Darda chega ali na sala no momento em que uma serva, carregando um cesto com diversos pergaminhos enrolados, vem lá de fora.
DARDA
Está levando as correspondências da senhora Najara?!
SERVA
Sim...
DARDA
Pode me dar, eu mesma entrego. Tenho coisas a tratar com a senhora, então já aproveito a viagem...
SERVA
(estranhando) Tudo bem...
Darda pega o cesto de pergaminhos. A serva vira para voltar. Darda então coloca o seu pergaminho entre os vários outros e olha para a serva indo embora.
DARDA
Ei!
A mulher para e vira.
DARDA
Desculpe-me, eu me enganei... Esqueci que a senhora me passou um serviço para agora mesmo. Não poderei ir até lá.
Olhando feio, a serva se aproxima, pega o cesto da mão de Darda e toma o caminho do quarto. Darda olha para ela indo.
DARDA
(sorrindo cinicamente) Me desculpe...

CENA 5: INT. CASA DE ÉDER – SALA – DIA
Mireu, com o semblante ruim, está sentado à mesa quando seus pais Isabel e Éder chegam em casa discutindo.
ISABEL
Por que você custa a entender algo tão simples, Éder?
ÉDER
Difícil é pra você entender que eu não vou descer o nível e recorrer a uma mulher para resolver a minha vida!
ISABEL
Minha prima tem o dom de Deus e resolve as causas de todo mundo! De Israel toda!
ÉDER
De todo mundo, menos as minhas! Ponto!
MIREU
Ei! Ei, ei... Eu estou me sentindo mal...
Ele passa a mão na altura do abdômen.
MIREU
Mãe... Se a senhora puder preparar um chá por favor... Eu vou me deitar.
ISABEL
É dor que está sentindo, Mireu?
MIREU
Sim... Bem aqui. Por favor, me faça um chá, mãe. Talvez resolva...
ISABEL
Tudo bem. Eu levo lá...
Mireu vai para seu quarto e Isabel o olha preocupada.

CENA 6: EXT. MEROZ – ARREDORES – DIA
As horas se passam...
Sísera e Héber, montados no cavalo, se aproximam da pequena cidade chamada Meroz, de casas simples e ruas estreitas. Ao lado da cidade há uma plantação cortada por um pequeno riacho. Vários hebreus trabalham ali, e olham feio ou receosos para os recém-chegados.
Sísera para o cavalo.
SÍSERA
Eu sou Sísera, Capitão do reino de Hazor.
Alguns ficam com medo...
SÍSERA
Exijo a presença imediata de Elói, chefe da cidade.
Então Elói sai do meio dos outros homens na plantação e se aproxima. Franze a testa ao ver também Héber no cavalo.
ELÓI
Pois não, senhor?
Sísera desce do cavalo, seguido de Héber. O Capitão se aproxima de Elói com a mão no cabo da espada.
SÍSERA
Não vou perder tempo, serei bem claro. Você cobrou impostos desse queneu. Está proibido de fazer isso.
ELÓI
Mas senhor, preciso do dinheiro... Somos uma cidade pequena...
HÉBER
Não me disse que os impostos são encaminhados para a juíza Débora?
ELÓI
Si-sim, mas... Mas antes... uma parte fica com nós... Afinal, está em nossos domínios...
SÍSERA
Você não precisará desse dinheiro, pois lhe darei mais.
Elói, estranhando aquilo, franze a testa.
ELÓI
Eu ouvi bem?
SÍSERA
Diga-me: você aprova a liderança de Débora?
Elói abre a boca, mas hesita... Desconfiado, resolve arriscar.
ELÓI
Não...
SÍSERA
Não aprova.
ELÓI
E toda minha cidade está comigo. Não aprovamos que haja uma mulher no poder.
Sísera sorri.
SÍSERA
A partir de hoje você trabalha para mim, Elói. Será meu espião. Tudo o que eu precisar relacionado a Israel passarei a você, e você fará a sua parte, procurando me atender prontamente e com resultados. E será pago com muito ouro. Mais do que jamais viu nessa sua vida miserável.
Elói ainda parece absorver aquilo tudo.
SÍSERA
Se eu suspeitar de traição, colocarei cada um dos meus 900 carros de ferro contra a sua cidade e só pararei de passar por cima dos seus homens, das suas mulheres, dos seus animais e da sua plantação quando tudo isso estiver enterrado e misturado à terra.
É quando Elói ajoelha uma perna diante de Sísera.
ELÓI
Toda a minha lealde pertence ao senhor, Capitão Sísera.
Sísera então tira algumas moedas da veste e joga aos pés de Elói, que as apanha admirado.
SÍSERA
Deixe o casal queneu em paz. Concentre-se apenas em minhas ordens.
ELÓI
Como queira, meu senhor.
SÍSERA
Muito em breve virei até aqui e pedirei algo. Fique atento.
ELÓI
Sempre, meu Capitão.
Sísera e Héber voltam para o cavalo. Montam. Diante de Elói, viram e voltam por onde vieram.
Elói, admirado, passa os dedos nas moedas que ganhou.

CENA 7: EXT. BETEL – ARREDORES – DIA
O dia cai.
É pôr do sol, e algumas dezenas de pessoas ouvem Débora discursar.
DÉBORA
E é por essa razão, meus amados, que precisamos ser todos como um único corpo perante Deus. Cada um de nós é um membro desse corpo, e, como tal, tem sua função. É por isso que não podemos permitir que haja rixas e rivalidades entre as tribos, entre as cidades das tribos... Israel é apenas uma! A nação escolhida por Deus. Divididos, cairemos. Mas unidos... unidos em Deus, venceremos.
Pelo semblante das pessoas, todos gostam do que ela diz.
DÉBORA
Agradeço a presença de todos. Que Deus os abençoe.
O povo começa a se dispersar, mas, antes de irem embora, cada um vai até Débora e a saúda.
Quando restam poucos, Débora nota a presença de Lapidote, Elian e Tamar. Ao despedir a última pessoa, ela sorri para os 3.
DÉBORA
Só Deus sabe como se alegra o meu coração em ver minha família unida assim...
Eles sorriem. Ela beija e abraça os pais e beija o marido; ficam de braços dados.
TAMAR
Hoje o jantar é em casa, hein!
ELIAN
Vocês não imaginam o que a Tamar preparou...
DÉBORA
Hummm... Nem sei o que é, mas já estou salivando.
LAPIDOTE
Vamos, então, antes que a Débora passe mal.
É nesse clima de descontração que os 4 caminham para o portão da cidade...

CENA 8: EXT. BETEL – RUAS – NOITE
E anoitece.
Nas ruas, algumas pessoas reclamam de dores, outras correm para suas casas com as mãos na barriga.

CENA 9: INT. CASA DE ÉDER – SALA – NOITE
Éder intenta ir para seu quarto quando Isabel vem de lá e fica no caminho.
ISABEL
Não vá lá, Éder. Deitei Mireu pra que ele fique mais confortável com a cama maior. Ele não está nada bem...
ÉDER
Será que é grave?...
ISABEL
O problema não é a gravidade... é que... dói muito sua barriga e... bem... ele está tendo muita flatulência. O odor não está nada bom.
Só de ouvir isso, Éder parece sentir o cheiro e faz uma cara ruim. Puxa a veste e cobre o nariz.
ÉDER
Era só o que me faltava! Vou sair, vou tomar um e volto mais tarde. Abra as janelas e as portas! E cuide logo dele!
Éder sai apressado. Isabel olha para a porta do quarto e, um pouco triste, observa Mireu deitado e com dores na barriga.

CENA 10: INT. PALÁCIO – SALA DO TRONO – NOITE
Sísera, diante do trono, conversa com o rei.
SÍSERA
Esse foi o acordo, meu rei. Portanto, toda semana o soberano terá da goculema que tanto aprecia. Ah, e trouxe uma porção de adiantamento.
Sísera tira um punhado de folhas do bolso.
JABIM
Sísera, você não sabe como alegrou o meu dia! Servo!!! Prepare a goculema que o Capitão está segurando e me traga o quanto antes!
O servo se aproxima, pega a goculema e sai.
JABIM
Sísera, eu o tenho em alta estima. Só os deuses sabem como eu estava sedento por essas ervas... Estou muito agradecido. Por essa razão você receberá um baú abarrotado de ouro como presente.
O olhar de Sísera brilha e ele faz uma longa reverência.
SÍSERA
A gratidão é toda minha, meu grande rei.
JABIM
Bem, enquanto o chá não fica pronto... Quero lhe falar sobre uma ideia que tive. E que quero executada imediatamente.
SÍSERA
Que ideia é essa, soberano?
JABIM
Já que os hebreus não nos ataca, eu os atacarei, mas de uma forma diferente. Mandarei alguém e capturarei uma pessoa importante na vida de Débora.
SÍSERA
Alguém como o marido ou a mãe?
JABIM
Passou pela minha mente, mas o choque e a dor do desaparecimento podem ser tão fortes que ou ela não nos atacará ou demorará demais para fazer. E eu quero que ela e os hebreus venham logo!
SÍSERA
Então quem, meu senhor? Quem será o capturado?
JABIM
Pensei no tal amigo que, segundo você, ensinou tudo a ela sobre a arte da guerra. Mas pode ser mais difícil e ele certamente oferecerá resistência. Então talvez seja melhor o homem que a ensinou tudo sobre o seu Deus único que ela tanto adora.
SÍSERA
Perdão, senhor, mas desconheço tal figura.
JABIM
A maioria das cidades de Israel tem um templo. Não é?
SÍSERA
Exatamente.
JABIM
Basta então que peguemos o homem superior. O chefe do templo, o Sumo Sacerdote, ou seja lá como chamam. Ainda que ele não tenha muito contato com Débora, será um baque em seu emocional espiritual e, já que ela tanto preza pelos costumes divinos, virá com tudo atrás de nós, a fim de resgatá-lo.
SÍSERA
Isso é interessante, senhor... E deixaremos vivo o tal homem?
JABIM
É claro que não. Podemos nos divertir um pouco com ele. Mandá-lo invocar o seu Deus imaginário, esse tipo de coisas... Depois o matamos. E quando Débora chegar, matamos ela e todos os hebreus. Fim. Então finalmente teremos nossa paz tão almejada.
SÍSERA
Estou de total acordo, meu senhor.
JABIM
Pois então vá, e construa um plano para que tudo isso dê certo. Pois não será fácil capturar esse homem.
SÍSERA
Sabe, meu senhor, tudo está se casando, pois conheci no dia de hoje um hebreu rebelde, que agora é meu espião.
Jabim sorri.
JABIM
Já que Débora atende o povo de toda parte de Israel, e é essa coisa que chamam de juíza, esse seu espião pode ir até a cidade dela com essa justificativa. Mas envie com ele dois soldados, que se esconderão em algum lugar próximo da cidade. Então o espião marca um encontro com o sacerdote no lugar onde os soldados o surpreenderão e o capturarão.
SÍSERA
Ótima ideia, senhor. Vou iniciar esse negócio agora mesmo. Com sua licença.
Jabim faz que sim permitindo e Sísera sai apressado.

CENA 11: INT. HOSPEDARIA DE QUEDES – SALÃO – NOITE
Na principal hospedaria de Quedes, o movimento é tranquilo. Sama, com Melissa sentada no balcão rústico de madeira, aguarda ser atendida. É quando, pela escada lateral, vem descendo alguém, um homem: Jaziel.
Ao sair da escada e dar de cara com ela, ele fecha o semblante.
SAMA
De novo você!
JAZIEL
Nossa, mas como você se acha, não é? Pensa que vim atrás de você, que estou te perseguindo. Esse tempo já passou, Sama. Eu estou hospedado. A pergunta é sobre o que você está fazendo aqui.
SAMA
Você sabe bem. Iru tem direito à casa, não tenho onde ficar. Mas você, Jaziel, que diz que não está me perseguindo, responda o que veio fazer em Quedes.
Melissa observa aquilo quietinha.
JAZIEL
Vim fazer algo que não é do seu interesse e que tem nada a ver com você.
Sama sorri ironicamente de leve, e isso o irrita.
JAZIEL
Eu não quero nada com você. Está entendendo? Nada! Não quero nada com uma mulher casada. Uma mulher que, ainda que vá se divorciar, já foi casada.
Sama então muda o semblante e o encara.
JAZIEL
Uma mulher que teve filha... Que se deitou com outro homem. Que traiu a mocidade que tinha comigo e se entregou aos braços de outro na cama de outro!
Magoada, Sama continua fitando os olhos dele.
SAMA
É isso que acha de mim, Jaziel?
Ele faz que sim.
JAZIEL
É sim. Enquanto você já conheceu a vida, como diz todo mundo por aí, eu nunca me casei. Namorei outras moças ao longo desses anos todos, mas nada deu certo e, portanto, não sei como é a vida de homem e mulher juntos, a intimidade... Mas você, ah... Você sabe muito bem. E sabe muito! Anos praticando, não é?
SAMA
Pare, Jaziel.
JAZIEL
Não vou parar. Aliás, vou parar quando eu tirar pra fora tudo o que está preso aqui há 20 anos! 20 anos!!!
Alguns dos poucos que estão ali olham para ele com estranheza.
JAZIEL
Então não pense que eu tenho algum desejo por você, desejo por algo que outro tanto usou.
Os olhos magoados de Sama lacrimejam.
JAZIEL
Olhar pra você me dá é nojo, pois quando te vejo, involuntariamente imagino as expressões de prazer que fazia esse rosto quando estava na cama com seu marido.
PÁH! Sama mete um tapa no rosto de Jaziel. Mas não parece fazer muito efeito para ele.
JAZIEL
Enquanto você tinha prazeres esses anos todos, eu sofria! Sofria igual um idiota, igual uma mula de carga, sofria por amor a você! Demorei a esquecê-la, mas foi a melhor coisa que fiz! Gostar de uma mulher enquanto outro a possui em sua cama noite após noite... Eu não tenho que descer a esse nível e me submeter a isso. Mas fiz. Infelizmente fiz... Mas agora vou consertar isso tudo. Posso e vou me casar com uma mulher virgem, como eu, que será apenas minha para o resto da vida! Um para o outro, um pelo outro. E você, Sama, vá cuidar da sua filha, o fruto das suas noites de prazer. Que se lasque... Que se lasque e seja uma vagabunda nessa terra, porque eu não dou a mínima!
Sama chora de raiva e mágoa.
JAZIEL
E para sua informação, estou logo mais indo embora dessa porcaria de cidade para onde você veio recém-casada.
Sama, fungando, limpa as lágrimas.
SAMA
Nunca mais... dirija a palavra... a mim, Jaziel. Finja... que eu morri.
Sama agarra Melissa, vira e vai embora.
ATENDENTE
Senhora?! A sua chave!
Vendo que ela foi embora, o atendente dá uma olhada feia para Jaziel e vira as costas.
Mas ele também lacrimeja, lágrimas de muita raiva e sentimentos encardidos...
Vai lá para a porta a tempo de ver Sama sumir em outra rua. Então, como se um grande peso tivesse saído de cima de seus ombros, ele respira ofegante seguidas vezes.

CENA 12: INT. CASA DE TAMAR – SALA – NOITE
Débora, Lapidote, Tamar e Elian estão ajoelhados em volta da mesa e de olhos fechados. Débora ora.
DÉBORA
E que também possamos ter o discernimento, Senhor, de nem extrapolarmos e cairmos no pecado da glutonaria, e nem desperdiçarmos a comida que nos preparou, pois ela vem dessa terra valiosa, conquistada com sangue e suor mediante a Sua promessa. Abençoe nossa refeição, e que o alimento sobre essa mesa seja para os nossos corpos como é a Sua presença para a nossa alma. No mais, que possamos nos alegrar sem jamais perder o testemunho de servos e filhos Seus. Amém.
LAPIDOTE, TAMAR, ELIAN
Amém.
Eles se levantam, sorriem e sentam à mesa, cheia de alimentos quentes e frescos.
E comem. Contente, Débora observa o falatório e as risadas entre eles todos...

CENA 13: INT. PALÁCIO – CASA – QUARTO DE NAJARA – NOITE
Duas servas estão ao lado da cama de sua senhora. Uma aguarda enquanto a outra pega o copo que Najara acabou de usar para beber o remédio e sai. A outra se aproxima.
SERVA
Senhora, quer que eu continue com as histórias?
NAJARA
Ahn... Não. Me cansei. Traga-me mais uma correspondência, deixe-me terminar de lê-las. Até as bajulações da plebe andam mais interessantes que essas histórias...
A serva vai até o cesto colocado ali e pega um dos pergaminhos; entrega-o a Najara, que o desenrola e começa a ler.
Mas, conforme seus olhos percorrem as linhas, seu semblante vai mudando e ela vai ficando mais assustada e aflita...
NAJARA
(ao terminar) Pelos deuses!...
SERVA
Senhora, o que aconteceu?... Qual é o problema?!...
Najara vira o pergaminho para que a serva lê, mas logo desiste e o vira de volta para si.
NAJARA
Você não... Quero outra. Darda. Chame Darda.
Pouco depois Darda está ali e a serva não mais.
DARDA
Senhora?
NAJARA
Ouça o que diz essa carta. (lendo) “Olá, Najara. Como está? O leite estava bom?”.
Cínica, Darda franze a testa.
DARDA
Leite...
NAJARA
“Sabe aquele sabor que sentiu, o gostinho do pavor? A sensação de que a morte está cada vez mais próxima? 10 anos atrás uma menina de apenas 10 anos de idade foi obrigada a sentir a mesma coisa, porém não havia bebido veneno algum. Ela experimentou algo pior: a morte da própria mãe. E o abandono completo, em seguida. Eu sou essa menina. Qual é o meu nome? Não importa. Mas o de minha mãe, sim: Nira. Importa pois essa palavra será a última que você ouvirá, sua assassina maldita. ‘Por Debir e Nira’. Prepare-se, porque eu estou chegando. Quando menos esperar, a flecha da minha vingança cravará no seu coração podre e escuro. Em breve haveremos de nos encontrar. Até lá, Najara. Enquanto isso, tenha ótimos pesadelos”.
Darda, fingindo surpresa e preocupação, abre a boca e a tampa com uma mão. Najara a encara, claramente preocupada.

CENA 14: EXT. MEROZ – ARREDORES – NOITE
Sísera está de volta a Meroz e, no mesmo lugar em que havia estado de dia, conversa com Elói e lhe explica todo o plano. Ao lado deles há outros dois soldados, cada um em um cavalo.
SÍSERA
Entendeu bem?!
ELÓI
Sim, meu senhor. Perfeitamente.
SÍSERA
Ótimo. Agora vá. Parta imediatamente. Se cavalgar durante toda a noite com os soldados, chegará pela manhã.
ELÓI
Farei exatamente assim.
Sísera então monta em seu cavalo, faz um sinal aos soldados para ficarem de olho em Elói e parte cavalgando.
ELÓI
(para os soldados) Vou apenas pegar minhas coisas e partiremos.

CENA 15: INT. CASA DE GADI E LAÍS – QUARTO DE MICAELA – NOITE
Gadi e Laís cobrem Micaela em sua cama.
LAÍS
Boa noite, meu amor.
MICAELA
Boa noite...
Laís sorri. Gadi se abaixa e beija o rosto da menina. Então eles viram, passam pela porta, dão uma última olhada na garota e fecham.

CENA 16: INT. CASA DE GADI E LAÍS – QUARTO – NOITE
Em seu quarto, o casal arruma a cama, preparando-se para dormir.
GADI
E aquela história que você estava contando no jantar?
LAÍS
Ah... Pois é, você não me deixou terminar...
GADI
Ela estava junto, Laís... Era melhor evitar.
LAÍS
Hum. Pode ser... Porque não fiquei muito confortável com o que vi.
GADI
Está me deixando preocupado...
LAÍS
Não é pra tanto. Bom, não sei... É que eu dei a ela um pergaminho e um pouco de tinta... Disse que podia desenhar o que quisesse, algo que ela gostava muito, ou então algo que ela queria. Pensei que, já que fala pouco, poderia ser uma forma de ela se expressar.
GADI
Hum. E aí?
LAÍS
Bom, é melhor que você mesmo veja.
Laís vai até um baú, abre-o e tira de lá um pergaminho, que entrega ao marido. Gadi vê que há três bonecos desenhados: um homem, uma mulher e uma menina, menor. O que faz Gadi estranhar e franzir a testa é a quantidade de tinta vermelha que sai dos espaços que representam os pescoços do homem e da mulher. E as expressões desenhadas em seus rostos são de puro pavor. A menina, no entanto, parece feliz e irradiante.
GADI
Pelos deuses, Laís... Micaela fez isso?!
LAÍS
Sim.
GADI
Você tem certeza?! Isso é grave!...
LAÍS
Foi ela. Quando perguntei por que ela desenhou isso e o que significava, ela se fechou de vez e foi para o quarto. Só na hora do jantar consegui convencê-la a descer. Pretendia que falássemos sobre isso todos nós, juntos...
GADI
Não, não... Foi melhor assim. Precisamos tratar isso entre nós, apenas. É uma situação muito delicada... Precisamos observá-la melhor.
LAÍS
Sim... Bom, mas... (pegando o pergaminho) vamos dormir, Gadi? Estou tão cansada...
Ela guarda o pergaminho no baú.
GADI
Vamos... Vamos sim. E, sobre ela, talvez seja alguma outra coisa... Não necessariamente ela quer isso... Ao menos é o que espero.
Os dois então têm uma última conversa, trocam um beijo de despedida e se deitam. Não demora muito e adormecem...
E as horas da noite avançam...
Até que Laís abre os olhos subitamente ao ouvir um barulho, porém não sabe se é real ou se sonhou.
Ela engole em seco, olha para Gadi, que dorme, e se ajeita. Fecha os olhos para dormir novamente... Mas o barulho se repete. Um pouco assustada, cutuca o marido.
LAÍS
Gadi... Gadi!...
Mas ele não responde, dorme profundamente.
De repente ela vira assustada para a porta: essa, rangendo, abre-se devagarzinho, expondo a escuridão do corredor... Laís, engolindo em seco, observa... A porta se abre até metade, mas não parece haver ninguém ali. Ela continua observando, no entanto, na expectativa da porta se fechar sozinha...
Mas, ao invés disso, um vulto passa pelo corredor rapidamente, e sem fazer barulho algum.
Laís treme e senta na cama rapidamente.
LAÍS
Gadi!!! Gadi, acorde!!!
Gadi acorda assustado e olha para ela.
GADI
Laís! O que foi, o que aconteceu?!
Aflita, ela olha da porta para ele...

CENA 17: INT. CASA DE GADI E LAÍS – CORREDOR – NOITE
Os dois caminham devagar pelo corredor. Em uma das mãos dele, uma vela, o único ponto de luz; na outra, sua espada. Conforme se aproximam da porta do quarto de Micaela, um som esquisito aumenta, como se alguém arrastasse caixotes lá dentro de um lado para o outro.
Eles trocam olhares de estranheza e preocupação, e se aproximam mais. Devagar, Gadi leva a mão à porta... até que a toca. Nesse momento os barulhos cessam. Então ele abre a porta e aponta a vela: enrolada aos lençóis, Micaela aparentemente dorme profundamente.
Eles dão uma olhada no quarto, tudo parece normal. Então voltam.

CENA 18: INT. CASA DE GADI E LAÍS – QUARTO – NOITE
Os dois estão de volta na cama.
LAÍS
Eu estou assustada, Gadi...
GADI
Vamos dormir abraçados... Mas deve ter sido apenas os truques do vento, das luzes da rua e do sono te pregando peças.
Então os dois deitam, se ajeitam, se cobrem e ele a abraça. Não demora muito e Gadi dorme, porém os olhos de Laís continuam abertos na escuridão...

CENA 19: INT. PALÁCIO – CASA – QUARTO DE NAJARA – NOITE
Deitada, Najara tenta se acalmar com a suave e doce voz de Elisa que, apesar de não enxergar, parece ver com clareza o espírito agitado de sua senhora, já que canta num leve tom de melancolia que faz Najara viajar longe em sua mente... Darda, ao lado, assiste com prazer.

CENA 20: INT. PALÁCIO – CASA – SALA – NOITE
A voz de Elisa se espalha pela casa e chega à sala. Sísera, que está chegando em casa, para e ouve.

CENA 21: INT. PALÁCIO – CASA – QUARTO DE NAJARA – NOITE
Por fim a canção de Elisa acaba.
DARDA
Não é belo?
NAJARA
Sim... Belíssimo.
DARDA
Tranquilize-se agora, está bem, senhora? E amanhã poderemos comunicar Sísera sobre o ocorrido.
NAJARA
Vou tentar dormir...
Darda e Elisa fazem uma reverência.
DARDA, ELISA
Com licença.
As duas saem e Najara fecha os olhos tentando adormecer.

CENA 22: INT. PALÁCIO – CASA – SALA – NOITE
Darda e Elisa chegam à sala, onde está Sísera bebendo vinho.
DARDA
(cumprimentando) Senhor Sísera.
Sísera olha... Mas seu olhar foca mais especificamente em Elisa, em seu corpo. Quando ela está de costa ele não tira os olhos das nádegas dela.
Darda percebe e, apesar de se afastar para mexer em outras coisas, observa.
SÍSERA
(sorrindo) Elisa.
ELISA
Sim, meu senhor.
SÍSERA
Venha até aqui.
Tateando pelos móveis, Elisa vai até ele, que pega uma taça vazia e entrega a ela.
SÍSERA
Leve isto lá para onde você estava.
Estranhando um pouco, Elisa pega a taça e vira pra ir. Sísera aproveita para olhar bem a parte que lhe atrai. Diante disso, Darda se enfurece, mas se contém.
SÍSERA
Elisa.
ELISA
Sim?...
SÍSERA
Venha até aqui.
Elisa volta lá e para ao lado dele.
SÍSERA
Elisa, dê uma volta.
Ela engole em seco, mas, temendo, dá uma volta em torno de si. Darda, que já parou de fazer o que fazia, observa-o com um olhar de fúria. Sísera aproveita pra olhar de perto o corpo de Elisa marcado no vestido e, quando ela vira meio rápido de frente pra ele novamente, ele olha para o rosto dela.
SÍSERA
Vá para o meu quarto.
Já temendo o pior, Elisa começa a se desesperar. Darda quase bate a mão indignada.
ELISA
Por quê?...
SÍSERA
Elisa, aqui nessa casa vocês não questionam, apenas obedecem. E rápido!
Elisa, aflita, com a mão na boca e a outra tateando, vai para o outro cômodo. Darda, se conseguisse, a puxaria de volta com o olhar.
Logo Sísera termina de beber, se levanta, age como se Darda não estivesse ali, e vai para o seu quarto. Darda, porém, ao invés de ficar, também vai atrás.

CENA 23: INT. PALÁCIO – CASA – QUARTO DE SÍSERA – NOITE
Ao chegar à porta do seu quarto e ver Elisa parada e sem jeito ali dentro, Sísera entra e se aproxima dela.
SÍSERA
Elisa... Como você me imagina? Como imagina que seja o seu senhor e seu Capitão?
Elisa parece tremer um pouco, está nada confortável.
ELISA
Eu... Acho... que é um homem... bom... um homem... forte... valente...
Gostando do que ouve, ele se aproxima, fica atrás dela.
ELISA
Um homem... que todas as mulheres da cidade... querem... para si...
Sísera abaixa um pouco e passa o rosto no cabelo dela, que franze a testa agoniada. Ele abaixa mais e esfrega o rosto na costa dela. É quando ela se afasta e fica a alguns passos de distância.
SÍSERA
Você não deve fazer isso, Elisa.
Darda chega na entrada do quarto, com a porta ainda aberta, e os observa escondida.
SÍSERA
Alguém na sua condição precisa confiar muito nas pessoas ao seu redor. Você precisa confiar em mim.
Sísera se aproxima rápido, vira-a para si e a agarra. Ela solta um grito involuntário. Ele a levanta e a coloca sentada em cima de um criado-mudo, fazendo os objetos caírem. Então a beija, beija seu pescoço, seu rosto, e a segura firme com suas mãos.
Darda, na porta, fica atribulada. Elisa tenta se desvencilhar dos beijos e lambidas e dos braços, mas apenas o deixa com raiva: Sísera dá uma bofetada em seu rosto.
SÍSERA
Não entendeu ainda, não é?!
Ele então a puxa de volta para o chão e a vira de costa para si. Encosta-a no móvel e levanta seu vestido, tentando agarrá-la afoitamente. Darda, não se aguentando, invade o quarto.
DARDA
Senhor Sísera!
Sísera para e olha. Elisa aproveita para correr na direção da voz da amiga. Tropeça e cai, mas Darda a ajuda a se levantar.
SÍSERA
(sacando a espada) Como você ousa entrar aqui sem minha autorização?
Darda pensa rápido...
DARDA
Senhor, não faça isso com a Elisa. Pode prejudicar o seu dom de cantoria, que é o que a senhora Najara, sua mãe, mais gosta e precisa para dormir.
SÍSERA
(aproximando com a espada) Não quero saber de cantoria alguma!
DARDA
Senhor, eu me deito com o senhor!
Sísera para.
DARDA
No lugar de Elisa.
Sísera estranha.
DARDA
É o meu sonho... Meu sonho reprimido... por ser apenas uma serva... que nunca atrairá seus olhares de homem... Sinto muitos desejos e muita admiração pelo senhor... Um homem forte, bonito, poderoso... Tudo o que quero é ser possuída pelo seu corpo...
Gostando, Sísera sorri.
SÍSERA
Você fala como uma prostituta.
ELISA
(aflita) Darda...
DARDA
Cale a boca, Elisa!
Receosa, Elisa se afasta até a porta. Darda olha para ele e se aproxima com uma postura suavemente provocante. Sísera então a agarra com seus dois braços e a aperta em si. Vira para Elisa.
SÍSERA
Suma daqui.
Elisa, ainda abalada e aflita com a atitude da amiga, vira e sai apressada pelo corredor. Sísera olha para Darda.
SÍSERA
Eu vou quebrar você ao meio.
Então ele a joga na cama com facilidade. Olhando-a, começa a tirar sua própria roupa, e logo avança sobre ela na cama.
Pouco depois, durante o ato, os olhos angustiados de Darda encontra a bainha com a espada, jogada no chão entre a roupa.
A noite passa e o dia amanhece...
Darda acorda. Olha para o lado, e Sísera está dormindo de bruços. Então, cuidando pra não fazer barulho, ela senta na cama e sai. Dá a volta, até o lado de Sísera, e encontra a bainha com a espada no chão. Dá uma olhada em Sísera... ele dorme. Então ela se abaixa, pega pelo cabo e, segurando a bainha, retira a espada bem devagar...
Darda coloca a bainha no chão e dá uma olhada na arma. Então se aproxima mais de Sísera e segura a espada com as duas mãos no cabo e a lâmina apontada para baixo, para o pescoço do Capitão... Está pronta para cravá-la nele.
Ela engole em seco, os dedos tremem com a força que ela intenta fazer... Olha para ele dormindo, há raiva em seu olhar. Segura a espada cada vez mais firme... IMAGEM CONGELA
CONTINUA...
FADE OUT:

No próximo capítulo: Elói e os 2 soldados hazoritas chegam em Betel para capturarem o ancião Aliã. Josafe leva homens para invadir o terreno de Éder. E Baraque e Sara são atacados.

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