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VILAREJO - Capítulo 03

 



Capítulo 03

Cena 01 - Cachoeira [Externa/Tarde]

[Cobrindo parte do corpo com os braços, Ana Catarina logo tratou de sair de dentro do rio, em busca das roupas para se vestir, enquanto tentava descobrir quem a espionava.].


ANA CATARINA: - Quem está aí? Eu sei que tem alguém aí! [Grita].


ANTÔNIO: [Aproxima-se, saindo do interior da mata] - Sou eu, estava passando e…


MARIA LETÍCIA: [Surpreende-se].

ANA CATARINA: [Interrompe Antônio ]- Ah, mas é claro! Quem mais poderia ser tão abusado e inoportuno quanto o novo forasteiro? Certamente essa pessoa não chegaria aos seus pés! Não tem vergonha de espiar uma mulher em trajes íntimos? Deveria chamar a guarda, isso é atentado ao pudor!


ANTÔNIO: [Irrita-se] - Eu não vim aqui para te espionar, só estava conhecendo as redondezas. Além disso, acaso eu tenho culpa de vosmecê gostar de tomar banho em trajes íntimos como uma primata? Comportando-se desse jeito, há de parecer uma mulher das cavernas!


Música da cena: Amor Gitano - Beyoncé ft. Alejandro Fernández


ANA CATARINA: - Ora, seu! [Ergue a mão e prepara-se para esbofetear Antônio].


ANTÔNIO: [Segura o braço de Ana Catarina] - Eu sei que vosmecê quer me bater para reprimir a sua vontade. Pensa que não notei como me olha? Mas já que a mulher das cavernas tomou a iniciativa de ir às vias de fato, darei o primeiro passo! [Beija Ana Catarina].


Cena 02 - Casarão D’ávilla (Sala de estar) [Interna/Tarde]

[Carregando uma bandeja, Idalina subiu a escadaria do casarão que daria acesso ao segundo pavimento da propriedade. Em seguida, cruzou um corredor e bateu em uma das portas.]


CARLOTA: - Pode entrar! [Disse enquanto se arrumava o cabelo, sentada em frente à penteadeira].


IDALINA: - Eu trouxe seu refresco, sinhá. [Responde aproximando-se com a bandeja].


CARLOTA: - Já era hora! [Pega o copo da bandeja e em seguida bebe um gole de suco]. - Meu filho já voltou do passeio?


IDALINA: - Inda não, sinhá. Seu Antônio deve tá aproveitando bem a região!

CARLOTA: [Vira-se para Idalina a olha com desconfiança] - Eu não entendi o que vosmecê quis dizer com esse ar malicioso, estrupício. Não vou lhe questionar, porque tenho mais o que fazer do que dar ouvidos a uma negra de língua solta. Não gosto que Antônio fique por aí, ele é meu único filho e herdeiro disso aqui tudo. Não o quero misturado com essa gentinha, principalmente com essa gente suja e perigosa do acampamento cigano.


IDALINA: - Mas porque, sinhá? Os ciganos são tão bonitos! Eu bem iria querer me juntar com um deles…


CARLOTA: [Sorri com ar de deboche] - Disse bem, estrupício… “Queria”, no passado. Isso significa que essa chance não irá se concretizar, até porque você é minha escrava e enquanto você não tiver uma carta de alforria, continuará recebendo minhas ordens. Agora saia daqui, quero ficar sozinha.


IDALINA: - Sim, sinhá. Com vossa licença! [Sai do quarto].


CARLOTA: [Encara-se refletida no espelho] - Eu preciso preparar o Antônio, em breve ele será o único homem dessa casa e nós dois seremos os únicos donos de toda a fortuna da família. Não hei de deixar que o meu único filho se junte com quem não presta! [Fala consigo mesma].


Cena 03 - Banco D’ávilla [Externa/Tarde]

Música da cena: Flor de Lis - Melim

[Com a transição de cenas, surgem imagens externas da cidade. Pessoas caminham pelas ruas, carroças e carruagens atravessam de um lado para o outro e em seguida surge a fachada do banco de Gonçalo.]


JUVENAL: [Sai do interior do banco e já na rua, coloca seu chapéu na cabeça] - Não sei porque, mas sinto um mal presságio com relação a essa viagem do Gonçalo e das meninas, não consigo confiar integralmente na Carlota. Mas porque? Questiona-se a si mesmo através do pensamento. Em seguida, vai embora caminhando pela rua].


Cena 04 - Acampamento Cigano [Externa/Tarde]

[No acampamento dos ciganos, Vladimir cortava lenha para a fogueira da noite, quando Vicente o avistou e resolveu se aproximar.]


VICENTE: - Aí está vosmecê, acho que precisamos conversar!


VLADIMIR: - Bato, eu achei que o senhor tivesse saído para caçar. Sobre o quê quer conversar?


VICENTE: - Ontem, o seu bato não se expressou bem e não queria que ficasse uma rachadura entre nós dois. Somos melhores amigos e vosmecê é tudo que eu tenho nesse mundo. Acontece, que eu apenas quero o que é de melhor. Por isso, preciso que me entenda e se afaste de toda aquela família, eles têm a maldição do sangue ruim.


VLADIMIR: [Estranha a conversa do pai] - Eu juro que não consigo entender bato, o que te liga a essa família? Por que o senhor os odeia tanto, por que bato? [Questiona].


VICENTE: [Encara o filho pensando em como sair daquele problema].


Cena 04 - Cachoeira [Externa/Tarde]

Música da cena: Amor Gitano - Beyoncé

[Maria Letícia estava completamente surpresa com o beijo entre Ana Catarina e Antônio, por isso não sabia bem o que fazer].


ANA CATARINA: [Afasta-se bruscamente e esbofeteia Antônio] - Abusado! Certamente deve estar acostumado com as cortesãs que servem na capital. Vou logo lhe avisando, eu não sou dessas mulheres. Aqui você vai ter que me respeitar! Não lhe dou permissão para me beijar. 


ANTÔNIO: [Sorri] - Pode reclamar o quanto quiser, eu sei que vosmecê sentiu algo. 


ANA CATARINA: - Senti, senti mesmo. Eu me senti ultrajada com tamanha desfaçatez! Não se atreva a me tocar novamente, ou saberá do que eu sou capaz!


ANTÔNIO: - Ah e do que vosmecê seria capaz? De me esbofetear novamente? Se for, eu posso até perdoar se vosmecê me retribuir com um beijo logo após.


ANA CATARINA: [Sorri ironicamente] - Não, é te refrescando! [Empurra Antônio, que se desequilibra e cai no rio]. - Agora que vosmecê já tomou um bom banho, espero que possa esfriar a caixola e não voltar a mexer com moças decentes. Vamos, Letícia. Olhar para esse senhor me deixa completamente enfurecida! 


[Juntas, Ana Catarina e Maria Letícia vão embora, deixando Antônio sozinho.]


Cena 05 - Casarão D’ávilla (Varanda) [Externa/Noite]

Música da cena: Vilarejo - Marisa Monte

[Com a transição de cenas, surge como plano de fundo os grandes canaviais do engenho da família D’ávilla. Em seguida, surge a propriedade de Gonçalo e Carlota. Na senzala, Rosaura se preparava para adentrar no local, quando percebeu que havia duas pessoas no interior do cômodo.]


CARLOTA: - Eu já te disse, que precisamos cuidar de todos os detalhes. Acaso queres ser descoberto logo após o ato? De certo, não é tão burro assim. [Grita com Zeferino].


ZEFERINO: - A sinhá não entende, acontece que io preciso conseguir alguns capangas de confiança para poder dar cabo no seu marido e nas duas filhas dele…


ROSAURA: [Ouve tudo aterrorizada] - Santo Cristo, a Sinhá tá planejando matar Sinhozinho Gonçalo e as minhas meninas! [Fala consigo mesma].



Cena 06 - Casarão D’ávilla (Escritório) [Interna/Noite]

[Rindo relembrando a cena do rio, Ana Catarina e Maria Letícia adentraram em casa e logo deram de cara com o pai, que as esperava na sala de estar.]


GONÇALO: [Fecha o jornal e levanta-se] - Ah, aí estão vocês. Enfim chegaram, estava esperando as duas.


ANA CATARINA: [Surpreende-se] - Papai, o senhor aqui e ainda durante a luz do dia. Acaso o banco pegou fogo?


GONÇALO: - Não, sem incêndios. Eu queria na realidade comunicá-las de uma decisão que tomei…


MARIA LETÍCIA: [Interrompe o pai] - Decisão? Certamente deve ser algo sério, devido sua feição, meu pai. Acaso está com problemas? [Questiona Gonçalo, visivelmente preocupada].


GONÇALO: - Eu decidi que as duas irão passar uma temporada em São Paulo.


ANA CATARINA: - O quê? [Surpreende-se].




Cena 07 - Casarão D’ávilla (Escritório) [Interna/Noite]

[Ana Catarina encarava o pai, pois já havia sentido em seu interior o que ele pretendia fazer, enquanto Maria Letícia começava a fazer planos.]


MARIA LETÍCIA: - Férias em São Paulo? Ah, a cidade é tão bonita… Cheia de ruas asfaltadas, carruagens e vitrines. Quero passar na modista e escolher lindos vestidos. Vamos conseguir visitar as primas Marinalva e Margarida…


ANA CATARINA: [Interrompe a irmã] - Minha irmã, será que vosmecê ainda não percebeu o que está acontecendo aqui? Nosso pai está tentando nos afastar dessa casa. Casa essa que pertenceu a minha mãe! [Esbraveja].


GONÇALO: - Não veja por esse lado tão negativo, Catarina. Eu apenas estou pensando no futuro de vocês. Tão lindas e formosas, como podem se afundar neste fim de mundo? Vocês já estão na época de casar, precisam se preparar para isso. A ida para São Paulo será provincial, principalmente para aprender música, costura e cultura para as viagens que irão fazer futuramente.


ANA CATARINA: - Mentira! O que o senhor quer é nos tirar desta casa para ficar apenas com a Carlota e o preguiçoso do filho dela, mas isso eu não vou permitir, papai… 


GONÇALO: - Catarina! [Repreende a filha].


ANA CATARINA: - Antes disso, eu prefiro desaparecer. Eu fujo, entendeu? Eu fujo! [Corre para o lado de fora da casa, visivelmente nervosa].


Cena 08 - Acampamento dos ciganos [Externa/Noite]

Música da cena: Amor Gitano - Beyoncé ft. Alejandro Fernández

[Dava para ouvir a música, a cantoria e as palmas de longe do acampamento cigano. Antônio se aproximou quando viu aquele grupo de pessoas tão alegres, em volta da fogueira, enquanto belas ciganas dançavam alegremente.]


VLADIMIR: [Nota a presença de Antônio] - Gadjó, o que fazes por aqui? Eu lembro de vosmecê, do dia do trem…

Tradução: Gadjó - Homem não cigano.


ANTÔNIO: [Sorri e estende a mão] - Eu também me lembro de vosmecê. Naquele dia, nem tivemos como nos apresentarmos. Eu me chamo Antônio Guerra e confesso que ao ouvir a música, não resisti em me aproximar.


VLADIMIR: [Aperta a mão de Antônio] - Fez muito bem em não se deixar levar pelo o que as más línguas desse vilarejo falam sobre o meu povo. Estamos muito felizes nessa terra! Venha comigo, vou te apresentar a alguns gachés, venha! [Arrasta Antônio entre a multidão].

Tradução: Gachés - Colegas.



Cena 09 - Casarão D’ávilla (Senzala) [Externa/Noite]

[Com a transição de cenas, surge a área externa da propriedade da família D’ávilla, iluminada por tochas. Enfurecida, Ana Catarina adentrou na senzala e esbarrou com Rosaura.]


ROSAURA: - Ai menina, vosmecê quase me derrubou! [Diz tentando se recompor após o esbarrão].


ANA CATARINA: - Desculpa, Bá. É que eu estou um pouco nervosa! Minha cabeça está em frangalhos. O meu pai quer me levar embora… A mim e a minha irmã. Tudo isso por causa daquela bruxa.


[De longe, Idalina observa as duas, sem ser notada.]


ROSAURA: [Assusta-se ao lembrar do que ouviu mais cedo] - Não vá, minha menina. Vassuncê corre perigo! Vassuncê, seu pai e sinhazinha Letícia não podem ir nessa viagem pra cidade grande. Sinhá Carlota combinou com Zeferino que há de matar todos durante a idade. Não vá! [Diz em tom de súplica].


ANA CATARINA: [Olha para Rosaura completamente surpresa com o que acabara de ouvir].


Cena 10 - Acampamento dos ciganos [Externa/Noite]

[Após apresentar Antônio para alguns conhecidos do acampamento, logo ele avistou o pai conversando com Mercedes.]


VLADIMIR: - Venha comigo, Antônio. Vou lhe apresentar ao meu bato! 


ANTÔNIO: - Quem? [Estranha].


VLADIMIR: [Ri ao perceber que Antônio não entendeu o que ele quis dizer] - Meu pai, é como vocês chamam na cidade grande. Venha comigo!


[Os dois se aproximam do lugar onde estão Mercedes e Vicente.]


VLADIMIR: - Bato, esse é o meu amigo gadjó, se chama Antônio Guerra!


ANTÔNIO: - Muito prazer, senhor. Seu povo é muito hospitaleiro. Como vai? [Estende a mão, cumprimentando Vicente].


VICENTE: [Olha para Antônio com um semblante abismado].


MERCEDES: - Seja bem vindo aos seus, meu nobre rom. Bendita seja a tua sorte! [Diz ao ver os três juntos].

Tradução: Rom - Homem cigano.


Cena 11 - Casarão D’ávilla (Sala de Jantar) [Interna/Noite]

Música da cena: Flor de Lis - Melim

[Com a transição de cenas, surge a fachada do casarão D’ávilla, cercado pelo engenho de cana. Enfurecida, Ana Catarina retorna para o interior da casa e interrompe o jantar.]


ANA CATARINA: - Agora eu sei porque vosmecê insiste tanto para que o nosso pai nos leve embora do engenho, sua megera! [Grita ao se aproximar].


CARLOTA: - Mas do que vosmecê está falando, Ana Catarina? [Finge surpresa, ao perceber que a enteada está falando com ela].


GONÇALO: - Ana Catarina, que modos são esses? Eu exijo que vosmecê respeite a Carlota.


ANA CATARINA: - Essa mulher não merece nenhum tipo de consideração por nós, meu pai. Ela não está interessada no nosso bem-estar, ela apenas quer o seu dinheiro. Eu já sei de tudo, Carlota. Sei que armou uma emboscada para nos matar durante a viagem. Se você pensa que vai ficar com tudo, você está completamente enganada! [Dispara].


CARLOTA: - Mas que desatino, é esse? Gonçalo, a sua filha está tendo a desfaçatez de me chamar de assassina. Faça alguma coisa!

GONÇALO: - Ana Catarina, de onde tirou tamanha sandice? Peça desculpas agora mesmo, a Carlota!


ANA CATARINA: - Mas papai… [Surpreende-se ao não ter o apoio do pai].


GONÇALO: - Se vosmecê não tem provas do que está falando, retire o que disse agora mesmo.


ANA CATARINA: - Mas eu posso provar! [Grita].


GONÇALO: - Pode provar? Então prove, pois eu não irei admitir esse tipo de situação dentro desta casa. Essa situação está cada vez mais insustentável.


ANA CATARINA: [Olha para Rosaura e percebe que se contar que soube através da babá, ela poderá sofrer as consequências. Com isso, ela deixa a sala correndo].


GONÇALO: - Ana Catarina, nós ainda não terminamos… Ana Catarina! [Grita].


MARIA LETÍCIA: - Deixa, papai. Eu vou atrás dela! [Levanta-se da mesa de jantar e vai em direção a saída, por onde a irmã acabara de passar].


ROSAURA: [Segue Maria Letícia].


CARLOTA: - Gonçalo, meu amor. Você não pode acreditar nesse despautério, isso não passa de uma falácia. Eu jamais tramaria contra você ou as meninas. Vosmecês são a minha família! [Diz ao segurar a mão do marido].


GONÇALO: [Observa a mão de Carlota sobre a sua e permanece em silêncio por um breve momento] - É claro que eu acredito. Vosmecê não teria coragem de planejar algo tão mórbido.


[Apressada, Ana Catarina montou em um dos cavalos e saiu a galope, enquanto Maria Letícia e Rosaura desciam as escadarias do lado de fora da propriedade, tentando alcançá-la.]


MARIA LETÍCIA: - Ana Catarina, minha irmã… Meu Deus, proteja a minha irmã e impeça que ela cometa uma loucura!


Cena 12 - Campo [Externa/Noite]

[Após se despedir dos ciganos, Antônio resolveu voltar tomando a fresca, enquanto admirava a noite no campo de São José dos Vilarejos.]


ANTÔNIO: [Contemplava o luar quando ouviu o galope de um cavalo se aproximar].


[Ao olhar para trás, Antônio não consegue ver com exatidão de quem se trata, por conta da penumbra. Enquanto isso, o cavalo de Ana Catarina pisa num espinho e se assusta com a dor.]


ANA CATARINA: - Calma Quixote, calma! [Disse enquanto tentava acalmar o cavalo, que pulava no campo, sem que ela entendesse o que estava acontecendo].


ANTÔNIO: - Eu acho que está acontecendo alguma coisa ali… É melhor dar uma olhada! [Fala consigo mesmo].


[Ana Catarina continuava tentando acalmar o seu cavalo de estimação, quando ele pulou mais uma vez e ela não consegue mais segurar as rédeas, caindo no chão.]


ANA CATARINA: [Desmaia ao cair].


[A imagem congela com Ana Catarina caída no chão, surge um efeito de uma pintura envelhecida e o capítulo se encerra].


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