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VILAREJO - Capítulo 10



Capítulo 10

Cena 01 - Acampamento dos Ciganos [Externa/Tarde]

[Após o reencontro, Vladimir logo tratou de arrastar o velho amigo para o acampamento.]


VLADIMIR: - Gadjó, por que vosmecê não me avisou que chegou? Tinha preparado um grande banquete. Aqui, os amigos são recebidos com muita festa!

ANTÔNIO: - Podemos festejar agora, meu amigo. Primeiro, comece guardando essa faca! [Diz aos risos].


VLADIMIR: - Vosmecê me assustou, aqui os rom são muito valentes. Tenha mais cuidado, gadjó!

Tradução: Rom = Homem cigano


ANTÔNIO: - Calma… Me espera! [Diz tentando alcançar Vladimir].


[De supetão, Madalena surge na frente dos dois.]


MADALENA: - Bendita seja a tua sorte, meu nobre gadjó! O que a mão do homem separa, o sangue volta a unir.


ANTÔNIO: - Eu não compreendi, minha senhora. [Responde confuso].


MADALENA: - Sua vida vai mudar, rapaz. Uma pessoa muito importante vai voltar! [Completa a previsão, olhando fixamente para Antônio].


VLADIMIR: - O que é isso, Madalena? Assustando o meu amigo gadjó, logo cedo? [Diz em tom de reprovação].


MADALENA: - Essa cigana não mente, só diz a verdade. Vosmecê sabe disso, te conheço desde que não passava de um xaborron!

Tradução: Xaborron = Menino


ANTÔNIO: - Tudo bem, não precisam discutir por minha causa. Só vim aqui para matar a saudade desse povo tão caloroso.


MADALENA: - Claro, eu entendo. Aqui é a sua casa, gadjó. Sua casa! [Conclui].



Cena 02 - Casarão D’ávilla [Interna/Tarde]

Música da cena: Flor de Lis - Melim

[Com a transição de cenas, imagens apresentam a movimentação da cidade. Charretes percorrem a cidade, mulheres caminham ao lado de suas mucamas. Fiéis entram na igreja e em seguida surge a área do engenho. Um carteiro se aproxima da porta de entrada principal e bate palma.]


ROSAURA: [Desce a escada apressadamente] - Já vai, meu filho. Já vai… O que vassuncê deseja acá?


CARTEIRO: - Eu tenho uma carta para a senhora Carlota Guerra D’ávilla.


ROSAURA: - Carta? Pode me dar, que eu mesmo entrego para a sinhá. [Responde].


CARTEIRO: - Aqui está! [Entrega o envelope a Rosaura].


ROSAURA: [Olha para o envelope, mas como não sabe ler, não dá muita importância] - Muito agradecida, filho. Bom trabalho!


Cena 03 - Banco D’ávilla [Interna/Tarde]

[Sozinha em seu escritório no banco, Carlota terminava de ler um documento quando teve um ataque de raiva.]


CARLOTA: - Mas isso não é possível, não pode ser… De novo, não. De novo, não! [Amassa o papel com raiva]. - Maldição! Outro investidor que não quitou suas pendências. Com essa dívida de tantos réis, eu vou acabar perdendo o engenho por conta da hipoteca ao banco concorrente. E agora? Preciso fazer com que Antônio se case logo com a sonsa da Laura! [Pensa em voz alta].


Cena 04 - Casa dos Lobato [Externa/Tarde]

Música da cena: Esquadros - Gal Costa

[Olhando-se refletida no espelho, Laura escovava o cabelo quando ouviu batidas na porta.]


LAURA: [Pode entrar] - Responde quando terminar de arrumar o cabelo.


TOMÁSIA: - Sinhá, tem visita para vosmecê lá embaixo. [Diz ao entrar].


LAURA: - Eu já disse que não quero receber ninguém, Tomásia. Será possível que você não entende nada? [Reclama].


TOMÁSIA: - Acontece que essa visita, a sinhá há de querer receber. É o sinhozinho Antônio Guerra.


LAURA: - Antônio? O meu Antônio? [Repete atônita].


[Em seguida, Laura desce a escada correndo para encontrar Antônio que a esperava na sala de estar.]


LAURA: - Antônio, meu amor. Vim o mais depressa possível, assim que soube que estava aqui. Fico tão feliz com a sua visita! [Diz ao abraçar e beijar Antônio quando se aproxima].


ANTÔNIO: [Sorri sem jeito] - Então, eu estive pensando em nós dois e acho que vosmecê tem razão.


LAURA: - Eu não entendi, Antônio. Onde vosmecê quer chegar com essa prosa?


ANTÔNIO: - Vamos marcar a data do casamento? [Questiona].


LAURA: [Grita de felicidade e em seguida salta nos braços de Antônio].


ANTÔNIO: - O que vosmecê acha de nos casarmos daqui dois meses?


LAURA: [Afasta-se sorridente] - Eu acho perfeito, meu amor. É o tempo ideal para corrermos com os proclames, enviar os convites e escolher o meu vestido de noiva. Mal posso esperar para espalhar essa novidade aos quatro ventos! [Conclui].


ANTÔNIO: - Com toda certeza! [Responde fingindo estar animado].


Cena 05 - Castelo Coimbra (Burgos, Espanha) [Interna/Noite]

[Com a transição de cenas, uma tempestade se aproxima do Castelo Coimbra durante a noite. Fortes ventos e raios percorrem toda a região. Em seu quarto, Ana Catarina dorme de maneira inquieta.]


ANA CATARINA: [Mexe-se durante o sonho].


- Socorro, me ajuda… Me ajuda! [Grita Maria Letícia].


ANA CATARINA: [Tenta nadar contra a correnteza, para chegar até a irmã, mas só consegue ver a mão de Maria Letícia, que afunda cada vez mais na água].


- Me ajuda, minha irmã. Me ajuda! [Grita].


ANA CATARINA: - Eu já vou, Letícia. Eu vou te salvar… Eu vou! [Grita e por fim, desperta. Por conta da lembrança, Ana Catarina vai as lágrimas]. - Eu vou vingar a sua morte, minha irmã. Nem que seja a última coisa que eu faça nessa vida, eu juro. Eu juro! [Fala secando as lágrimas].


Cena 06 - Porto de Pelotas [Interna/Manhã]

Música da cena: Mil Noites de Um Amor Sem Fim - Silva

Alguns dias depois…

[Um navio atraca no porto da cidade de Pelotas. Os passageiros começam a descer e caminhar pela terra firme. Nesse momento, enxergamos Miguel descer arrumando o próprio chapéu e carregando consigo apenas uma mala.]


MIGUEL: - Então, cá estou eu. Brasil! Aí vamos nós… [Pensa em voz alta enquanto caminha entre os outros passageiros].




Cena 07 - Casarão D’ávilla [Interna/Manhã]

[Rosaura e Idalina serviam o café da manhã, enquanto Carlota e Antônio conversavam.]


CARLOTA: - Meu filho, eu estou tão feliz com a sua decisão. Foi a melhor coisa que vosmecê poderia ter feito. Vai ver, como a Laura será uma excelente esposa.


ANTÔNIO: - Assim eu espero, mamãe. Estou fazendo isso por sua causa, a senhora sabe que não pretendia me casar. [Bebe suco].


CARLOTA: - Será a melhor coisa, vosmecê verá.


ROSAURA: - Céus, onde estava com a cabeça… Sinhá Carlota! [Diz ao se lembrar da Carta].


CARLOTA: - O que foi agora, Rosaura? Não dá para esperar que eu termine o café da manhã com o meu filho?


ROSAURA: - Acontece que chegou uma carta daquelas, que vassuncê chama com um nome esquisito…


CARLOTA: - Uma carta? [Responde interrompendo Rosaura].


ROSAURA: - Isso, isso mesmo! [Abre uma gaveta no aparador e retira o envelope, entregando a Carlota logo em seguida].


CARLOTA: - Deixe-me ver! [Ao pegar o envelope, lê o remetente e percebe que a data de recebimento é de uma semana atrás]. - Mas o que é isso? Como vosmecê demora uma semana para me entregar a carta, criatura? Deveria te mandar para o tronco, pela sua falta de atenção. [Esbraveja abrindo envelope].


ANTÔNIO: - Acalme-se, mamãe. Não é para tanto e sabemos que a Rosaura não fez por mal. De quem é a carta?


CARLOTA: [Lê a carta] - Da sua tia, a Leonora. Pelo o que diz aqui, ela está vindo nos visitar… Pelas minhas contas, ela deve chegar…


LEONORA: - Ôh de casa, será que tem alguém acá para me receber? [Diz ao adentrar na sala de estar, acompanhada de um escravo carregando bagagens].


Cena 08 - Acampamento dos Ciganos [Interna/Tarde]

Música da cena: Lua Cheia - Dienis (Participação Especial: Letícia Spiller)

[Açucena terminava se vestir dentro da sua tenda, quando Madalena se aproximou com algumas amostras de tecidos.]


MADALENA: - Romí… Romí! Veja os tecidos que arrumei, vamos fazer o mais lindo conuna para o seu casamento. Vosmecê será a galbi mais linda que esse povo já viu! [Comenta empolgada, mostrando os pedaços de tecido a Açucena].

Tradução: Romí = Mulher cigana

Tradução: Conuna = Vestido de noiva

Tradução: Galbi = noiva


AÇUCENA: - São bonitos! [Responde sem dar muita importância].


MADALENA: - “São bonitos”? Isso é tudo o que vosmecê tem a dizer? Será possível que não está empolgada com o seu casamento, xaborrí? O casamento é a coisa mais importante na vida de uma romí!

Tradução: Xaborrí = Menina


AÇUCENA: - Tem razão, vovó. São muito bonitos! [Responde olhando os tecidos, ainda assim, sem muita emoção].


MADALENA: - O que está acontecendo com vosmecê, xaborrí? Até parece que está triste com o casamento, ao invés de feliz. 


AÇUCENA: [Suspira e senta-se em uma cadeira em seguida] - Sabe o que é vovó? Não fique chateada com o que vou lhe dizer, mas é que na verdade eu não sei se gostaria de me casar com Vladimir. Ele é muito bonito, mas eu não sei se o amo para toda a vida. Entende? [Responde confusa].


MADALENA: - Ai, maldita seja a minha sorte. Que um raio caia sobre a minha cabeça. Aonde já se viu, uma romí se recusando a se tornar a rainha de seu povo? O que deu em você, Açucena? Quer trazer vergonha para o nosso povo e manchar a honra do sobrenome Kalitch na lama? Antes disso, vosmecê há de matar a sua avó.


AÇUCENA: - Está bem, vovó. Eu já entendi, não está mais aqui quem falou. Escolha o tecido que quiser, confio em vosso gosto. Agora eu vou lavar nossas roupas no rio, até mais tarde! [Conclui ao pegar uma trouxa de roupas em cima da mesa e sair].


MADALENA: - E agora essa! Já pensou se a xaborrí desiste do casamento? Vicente nos expulsa e a má sorte vai cruzar o nosso caminho. Não, não… Isso não pode acontecer!


Cena 09 - Mercearia da Paz [Interna/Noite]

Música: Flor de Lis - Melim

[A noite chega e logo começam a acender os postes das grandes avenidas de São José dos Vilarejos. Logo após, surge a fachada da Mercearia da Paz.]


JOANA: - Deseja mais um pouco? [Perguntou segurando a jarra com refresco].


MIGUEL: - Não, não. Está de muito bom grado, foi muita gentileza de sua parte, senhorita. [Respondeu ao terminar de tomar o suco de cajá].


CÂNDIDA: [Observa Miguel com desconfiança] - Disse que é médico? Eu nunca vi um médico de cor por essas bandas!


JOANA: - Mamãe! [Diz sem jeito].


MIGUEL: - Não se preocupe, senhorita. Sua mãe não há de ter visto certamente, um home negro, forro e formado em medicina. Entretanto, vou responder a sua pergunta. Sim, sou médico generalista, formado na Espanha com louvor e claro, alforriado. Não devo nada a ninguém. Quer ver minha carta? [Pergunta ironicamente].

CÂNDIDA: - Não, não será necessário. Disse que veio da Espanha? 


MIGUEL: - Isso mesmo, vim sondar a cidade e procurar uma boa propriedade.


JOANA: - Pretende se instalar por acá?


MIGUEL: - Na verdade procuro uma casa para uma velha amiga. Trata-se de uma membra da nobreza espanhola, uma condessa para ser mais exata.


CÂNDIDA: [Surpreende-se] - O quê? Uma condessa vem morar em São José dos Vilarejos? Mas essa notícia é a mais supimpa de todos esses anos. Uma pessoa da nobreza, morando acá. Imagine o progresso que isso trará! [Comemora].


MIGUEL: - De certo que sim! [Conclui].


Cena 10 - Casa dos Lobato [Interna/Noite]

[Após o jantar, Graça e os filhos subiram e cada qual, se recolheu em seu próprio aposento. Aproveitando-se desse momento, Tomásia tirou a chave que havia encontrado no quarto da patroa e resolveu subir até o último andar da casa, onde ficava o sótão.]


TOMÁSIA: [Olha para os dois lados, garantindo que não está sendo vista] - Coragem, Tomásia. É agora ou nunca! [Fala consigo mesma através do pensamento].


[Tomásia coloca a chave na fechadura e silenciosamente a gira, tentando não fazer barulho. Logo após, segura a maçaneta e abre a porta.]


TOMÁSIA: [Surpreende-se com o que ver ao entrar] - Céus!


MARIA DO CÉU: [Inclina-se na cama, cobrindo-se com o cobertor] - Quem é vosmecê? Saia daqui, eu não posso receber visitas, eu não posso ver ninguém!


TOMÁSIA: [Estranha o comentário] - Não pode, mas por que? Por que vassuncê fica escondida nesse sótão? [Questiona ainda estarrecida com a aparência da jovem que morava no sótão, de face completamente empalidecida].


MARIA DO CÉU: - Eu não estou escondida. Apenas não posso sair, porque pode me fazer mal. Estou doente, se sair na rua. Posso morrer! Lá fora existem inúmeros vírus, bactérias e micróbios. Vosmecê não deveria estar acá sem máscara, vá embora.


TOMÁSIA: - Eu não estou entendendo nada o que vassuncê quer dizer, mas eu vou… Porém, volto depois para lhe visitar.


MARIA DO CÉU: - Não, eu não quero que volte. Não posso receber visitas, já disse. Agora vosmecê precisa ir, vá embora ou eu chamo a minha tia.


TOMÁSIA: - A Dona Graça é sua tia e te deixa aqui, presa? [Pergunta impressionada].


MARIA DO CÉU: [Abaixa um pouco o cobertor, revelando apenas seu olhar] - Vosmecê não entendeu? Vá embora ou eu vou começar a gritar. [Abre a boca, fingindo que vai gritar].


TOMÁSIA: [Sai do quarto apressadamente, trancando a porta novamente].


[Sorrateiramente, Tomásia desce um lance de escada e retorna ao corredor onde ficam os quartos da casa. Em seguida, entra no quarto de Graça sem fazer barulho e devolve a chave ao lugar, para que ela não saiba o que descobriu.]


Cena 11 - Casarão D’ávilla [Interna/Noite]

Música da cena: Vilarejo - Marisa Monte

[Na varanda do casarão, Antônio e Leonora conversavam para matar a saudade dos velhos tempos.]


LEONORA: [Olha para Antônio, impressionada como ele está crescido] - Eu olho para você e não consigo acreditar como está mudado, meu sobrinho. [Diz acariciando o rosto de Antônio].


ANTÔNIO: - Eu cresci, minha tia. Agora sou um homem feito e advogado. Me formei em direito pela universidade do Rio de Janeiro.


LEONORA: - De certo, se vê que é um homem culto e do bem. Tenho muito orgulho de você, meu querido. Ainda lembro de vosmecê pequenino, correndo entre os canaviais, deixando todo mundo maluco. Velhos tempos! [Relembra emocionada].


ANTÔNIO: - Por que nunca se casou, titia? Vosmecê ainda é tão bonita, poderia ter encontrado um bom marido, tido filhos e formado a sua própria família. Será que nunca se apaixonou?


Música da cena: Sem Poupar Coração - Nana Caymmi


LEONORA: - Amei, amei sim. Uma única vez, foi uma história muito bonita, mas que já terminou e como toda história de amor, terminou como fel, deixando o amargo da desilusão. Enfim, não quero falar sobre isso. Vamos voltar a falar sobre você, continue me contando das suas aventuras no Rio de Janeiro. [Disfarça].


ANTÔNIO: - Está bem, onde paramos? [Disse mudando de assunto, atendendo ao pedido da tia].


Cena 12 - Castelo Coimbra (Burgos, Espanha) [Externa/Manhã]

[O dia amanheceu ensolarado na Espanha. Após se arrumar, Ana Catarina desceu para a área externa do castelo. Continuava usando preto em sinal de luto, quando se aproximou da mesa do jardim, onde costumava tomar café.]


ANA CATARINA: - Que bom que veio, aqui está seu pagamento! [Cumprimenta um homem e lhe entrega um envelope].


HOMEM: [Recolhe o envelope sorridente] - Fiz tudo como vosmecê pediu, bastou prometer mundos e fundos, que a Carlota liberou uma grande quantia em dinheiro. Depois que consegui o valor, entreguei a um grupo de escravos fugitivos do quilombro.


ANA CATARINA: - Excelente, meu caro. Excelente! Velhos hábitos nunca mudam. [Responde radiante].


HOMEM: - A senhora condessa ainda vai precisar dos meus serviços?


Música da cena: Coleção - André Leonno


ANA CATARINA: - De certo que não, meu caro. Seus serviços foram muito bem executados e eu estou imensamente satisfeita. Agora, eu preciso entrar em cena. Voltarei ao Brasil dentro de pouquíssimo tempo. Preciso acertar as contas com velhos amigos! [Completa].


[A imagem congela focando em Ana Catarina com um semblante radiante, surge um efeito de uma pintura envelhecida e o capítulo se encerra].


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